
O poema que segue está no livro Ensaios da Tarde, da minha amiga Mara Senna.
O que não pode ser
O que não pode ser
não se contenta em ficar guardado
nos porões
ou escondido nos desvãos.
Traz no peito convicções anêmicas,
na boca uma recusa fajuta
e tanta ternura entranhada
no corpo
que chega a sentir uma coisa
que fere por entre as costelas.
Por vezes, veste-se de coragem
e despe-se dos seus pudores.
Mostra os seus humores,
prepara a mesa
e faz um alvoroço
que se faz ouvir até a esquina.
Mas, ao menor sinal de encontro,
treme
e recolhe-se mais uma vez à sua sina
de não ser.
E volta a latejar lá no fundo,
tentando derrubar paredes.
A poeta (poetiza) equilibra com mestria a complexidade dos extremos poetizados. Os seus poemas parecem conversar com o leitor (como ensinava Wolcott Gibbs, do The New Yorker).
ResponderExcluirExcelente publicação; excelente poema. Augusto Aguiar.