O LEGADO
(Chico Lopes*)
(Chico Lopes*)
Ela
incumbiu-me de saber mais. Fui ao bar sem nome de uma esquina meio em escombros
– no fim do dia, levas aleatórias de homens eram fontes seguras, desde que o
interesse não parecesse evidente demais. “Ah, é o Estevo dos livros...”, ouvi
de um deles. “Sempre diz que, se a gente quiser ler, pode pegar uns livros lá
com ele. Conheço quem pega, não devolve e tenta vender, isto sim. Mas é uma
fria, ninguém quer, ninguém compra”. Perguntei da casa, alguém me apontou uma vaga janela sombreada por um mamoeiro alto. Como entrar? “É só bater na porta da frente, que é do Nestor. O quartinho é lá no fundo...” Alguém gritou: “Não acende um fósforo perto do Nestor, viu? Pode pegar fogo no bafo...” – e vários riram.
fria, ninguém quer, ninguém compra”. Perguntei da casa, alguém me apontou uma vaga janela sombreada por um mamoeiro alto. Como entrar? “É só bater na porta da frente, que é do Nestor. O quartinho é lá no fundo...” Alguém gritou: “Não acende um fósforo perto do Nestor, viu? Pode pegar fogo no bafo...” – e vários riram.
Não tive
dificuldade de passar por um mulato gordo cuja fala era meio ininteligível –
mais rindo do que falando, fez um sinal com o polegar para que eu avançasse.
Bati. Estevão me fez entrar e sentar num banco de canto de seu cubículo quase
nu, mas muito limpo. Ousei falar um pouco demais, de Verne, de Stevenson, dos
livros de aventura que andava lendo. Foi complacente com o que devia lhe
parecer uma tentativa adolescente de afetar cultura, sorriu e conduziu-me a um
quartinho. Os livros estavam enfileirados com cuidado, mas eu desconhecia a
maior parte dos títulos. Falou-me da raridade de algumas edições, apontou
desenhos em folhas de rosto, e, por fim, sentou-se e abriu uma garrafa de
conhaque barato, vertendo-o numa caneca amassada, sem ousar me oferecer. Não
usava camisa e, como olhei para algumas cicatrizes entre seu tórax e o ombro
esquerdo com indiscrição quase involuntária, ficou pensativo. Tomou a decisão
de ir para o quarto, e, ao voltar dele, cobrira-as com uma blusa larga.
Trazia-me um livro.
Era uma
coletânea do que me pareceu prosa poética. “Um autor que conheci por aí, nas
estradas...”, murmurou. “Acho que nunca ninguém o leu. Edição tão limitada!”
Coçou a barba: “Gosto de coisas assim, que foram se perdendo, que só vão ser
lidas por acaso e compreendidas, nunca...” Parou para olhar-me fixo – e foi tão
cravado, vulnerável e cúmplice o olhar que, decididamente, baixei a cabeça,
evitei pensar. Depois, pareceu ouvir algo que lhe agradou, esticou o indicador,
pedindo silêncio. Não entendi. Levou-me até a janela. Alguns pingos de uma rala
chuva de outubro que começava caíam com um baquezinho característico sobre as
folhas do mamoeiro. “Não é maravilhoso ouvir essas coisas, o começo de uma
chuva, essa conversinha miúda e essencial entre água e folhas?”
Minha mãe
ficou sabendo pouco sobre ele, porque a lembrança das cicatrizes da barba e dos
olhos vulneráveis altamente interessados, dos pingos iniciais de chuva,
deixava-me confuso, querendo resumir coisas que decididamente me escapavam e,
se reduzidas a uma explicação, seriam empobrecidas. Tranquei-me com o livro.
Fragmentos assinalavam paradas em rodoviárias, pensões, trapiches, terrenos
baldios, em Quito, em Lima, Montevidéo, Bogotá.
Alguém que viajava, que não estava à vontade em lugar algum, mas que
ouvia, registrava fantasmas, formatos de nuvens, diferentes sonoridades do
vento, cantos de pássaros, pântanos, alturas.
Quem era
ele? Eu o via como alguém que poderia me ensinar tudo, não houvesse entre eu e
a possibilidade de aprendizado todos os muros, todas as restrições e
interdições do mundo. Essa criatura dava-se por ímpar e era ímpar. Solitária,
mas querendo romper a solidão fosse pelo avanço por estradas sul-americanas,
fosse pela escrita. “Noite negra, muito
negra/de uma única estrela/ e quem senão eu/quem senão eu/para vê-la?” – dizia
uma página; “Yo soy tu hijo/mi madre estraña/yo soy tu nido, mi grande araña”.
Paulo Amiel. Bati na testa, me
repreendendo: claro, não havia Paulo Amiel, que estúpido, eu... O olhar fixo do
cubículo foi se arredondando diante de mim, trazendo de volta uma identidade
precisa, inequívoca.
Em certos
dias ele saía com uma carriola com livros para oferecer nas ruas; aceitava
doações de gente cansada e distraída, que tinha volumes por enfeite em alguma
estante de sala ou coleções incompletas compradas e esquecidas; as pequenas
campanhas não tinham efeito sensacional algum, por vezes eram de uma desolação
absoluta, obrigavam-no a parar e a ficar olhando, impotente, as antenas de
televisão que aumentavam nos telhados. Decerto viajava, porque de repente não o
viam mais e, quando retornava, a discrição do cômodo de fundos não deixava isso
publicamente certo.
Mas eu o
revi, depois de muitas semanas de releitura. Sentado numa mureta de uma escola
primária onde nenhum dos professores que chegavam de carro teria uma ideia do seu
papel, estava cansado. Olhou-me com certa ansiedade. “Gostou? Esse Amiel não é
mau poeta”; “É um poeta e tanto. Com certeza, é um grande sujeito”; “Não, não,
as obras são muito melhores que os autores. Autores são ruínas humanas,
contradições...”; “Em todo caso, é alguém que eu gostaria de conhecer”,
provoquei, mas ele não se denunciou:
“Vaga por aí, eu mesmo só o vi uma vez” . Olhou para os céus e pareceu
inquietar-se com o sinal de que o dia acabava. Deu um sorriso, despediu-se.
Minha irmã
ainda o viu, no ônibus, semanas depois. Mas a ausência ficou longa demais. Fui
procurá-lo, decidido a ser mais direto, atravessando o bom número de
quarteirões que nos separavam do conjunto. No bar, o torpor do desinteresse
entremeado por vários “não sei”. Mas houve quem arriscasse falar: “Tocaram
fogo, e não foi no bafo do Nestor...”; “Santo não era, se tão procurado...”;
“É, mas não acharam o homem...”; “Não vão achar mesmo; deve ser especialista em
sumir.” Corri para o cubículo. O incêndio escurecera paredes, muita coisa
revirada, trens desaparecidos, e era possível imaginar pilhagens de vizinhos,
entradas a qualquer hora, sob a vista inepta de Nestor. A prateleira se
reduzira a algumas tábuas soltas. Recolhi folhas de um caderno espiral aos
pedaços, um toco de lápis, um fragmento de mapa. Talvez dali, dos espaços
amarelos cheios de ramificações de rodovias, estradas, rios, brotasse uma
pista.
Minha mãe
calou-se quanto a fuxicos sobre os acontecimentos que deviam ter-lhe sido
fornecidos em alguma de suas novas visitas ao conjunto. Ninguém ousava falar
nada, nada restituiria Estevão, mas, numa noite, ouvindo esboço de chuva nas
folhas de uma goiabeira, sonhei um sonho que não queria que acabasse.
Despertei, dormi de novo, para tentar continuá-lo. E a continuação se deu: de
lá dos fundos de algum remoto país vagamente azul ele voltava, acenando de um
entroncamento rodoviário, com um livro sob o braço. Eu me atirava em sua
direção, mas não conseguia me aproximar, pois estava sempre muitos passos
adiante. De longe, sempre de longe, ergueu o livro, sacudiu-o, enfático – que
eu nunca o esquecesse; depois, tirou o boné, fez uma reverência, apontando para
uma estrada que serpenteava sem fim por entre serras. A seguir, repondo-o,
desapareceu.
*Chico Lopes é escritor. Entre suas obras, estão:
• Nó de sombras (2000, contos, IMS)
• Dobras da noite (2004, contos, IMS)
• Brasil 2000: Retratos Poéticos -
coletânea/poesia
• Hóspedes do vento (2010, contos,
Nankin Editorial)
• O estranho no corredor (2011,
novela, editora 34)
• Caderno provinciano (2013, poesia,
ed. Patuá)

Li e reli. Gosto de registro de personagens anônimos. Parabéns.
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