terça-feira, 17 de abril de 2012

A ESPERANÇA POR UM FIO - FRAGMENTO 1


Faz mais de duas horas que estou aqui sentado, nesta sala abafada e deserta. Sem movimento algum, parado em mim, embrutecido, com esta minha cara de palerma me latejando. Desde hoje cedo submergi num pesadelo de que não consigo acordar. Faz mais de duas horas que respiro este ar insuportável que me arranha a pele e o esôfago, com aquela raiva doentia que só medra em recintos de horror. A mancha de sol que encontrei estatelada aí ao lado da mesinha  já se arrastou pelos tacos do assoalho e escalou a parede, sumiu. Eu sinto que a sala me estranha, cheia de hostilidade, mas não consigo sair daqui.

- Esteja preparado, Artur, seu pai está muito mal. Amanhã vamos saber melhor qual o verdadeiro estado dele.


 Desde que saímos do hospital, minha mãe não me dissera mais nada. Só isso. No táxi, ela enfiou os olhos pela janela de seu lado e assim ficou: tesa, metálica. Mal pusemos os pés dentro de casa, ela me diz isso. Preparado. Por que preparado? Não entendo de imediato o que ela quer dizer com esse negócio de preparado. Não estou bem. Sei que não estou bem. Por isso ela quer que eu me prepare. Mas que me prepare pra quê?

As palavras dançam algum tempo ante meus olhos: preparado, amanhã, verdadeiro estado. Vazias e sem cor. O esforço para entender o que acontece à minha volta me provoca náuseas, me deixa atônito. Não consigo firmar os pés no fundo e a maré me arrasta.

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