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Que me perdoem os leitores se exulto, quase sozinho, com a
chegada do frio. Meu amigo Adamastor, que veio do Cabo da Boa Esperança, no sul
da África, fica escandalizado com minhas preferências. É que o Sol, este astro
rei (caramba! quando é que vamos deixar de ser monarquistas?) torna-se menos
agressivo, seus raios nos acariciam em lugar de arranhar-nos. As tardes,
menores e mais encolhidas, parecem convidar para conversas menos estridentes,
para aquele tipo de prosa em que não se tem pressa de chegar ao fim. Duas
cadeiras na varanda, um bom vinho em taças pequenas, e a conversa esticada
apenas pelo gosto da troca.
O clima frio exige recolhimento e conduz à reflexão. As
longas noites são invadidas pelo estudo, pela leitura, porque o silêncio é
companheiro do frio assim como o barulho o é do calor. O mundo exterior mais
reduzido estimula o exercício da imaginação. Portas e janelas fechas forçam-nos
o olhar para o interior.
E não nos esqueçamos da elegância. Tenho visto, mesmo nos
dias mais frios, muita gente com as pernas nuas despejadas para fora dessas
bermudas coloridamente ridículas que se usam hoje em dia em qualquer estação,
em todos os lugares. As pessoas reclamam do frio, se queixam, mas não abandonam
o padrão da roupa sumária, do corpo exposto como se o sol substituísse nossas
proteções. O Oswald de Andrade queria que o índio desvestisse o português,
estão lembrados? Mas o Oswald de Andrade era primitivista, por isso queria
ver-nos sem roupa, esse traço de nossa herança europeia. Claro que sua metáfora
referia-se à cultura, entretanto serve muito bem para outro sentido, que são os
dias de calor. Elegância, meu caro, para os dias de frio, é o sobretudo, o
cachecol, a echarpe de seda por dentro da camisa. O sapato em lugar do
chinelinho de dedo.
Meu amigo Adamastor, sociólogo das horas vagas, me adverte:
uma indumentária como essa não cabe no orçamento de muita gente. Concordo e
acho que deveria caber. O caso, porém, é mais de escolha e preferência do que
de poder aquisitivo. Os celulares estão aí para me confirmar.
Finalmente, o frio é bom não para que seja sentido. Ele é
bom para sabermos que está ali fora, rondando, enquanto nosso corpo se regala
na temperatura cálida por dentro do agasalho. Tudo que faço, faço melhor no
frio. Pena que dure tão pouco.

Olha só a genética gaúcha se manifestando!
ResponderExcluirO frio, de fato, traz peculiaridades espantadas pelo calor.
Uma boa crônica esta, Menalton. Virará matéria de aula.