sexta-feira, 11 de maio de 2012

Finalmente o frio | Revista Bula

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Que me perdoem os leitores se exulto, quase sozinho, com a chegada do frio. Meu amigo Adamastor, que veio do Cabo da Boa Esperança, no sul da África, fica escandalizado com minhas preferências. É que o Sol, este astro rei (caramba! quando é que vamos deixar de ser monarquistas?) torna-se menos agressivo, seus raios nos acariciam em lugar de arranhar-nos. As tardes, menores e mais encolhidas, parecem convidar para conversas menos estridentes, para aquele tipo de prosa em que não se tem pressa de chegar ao fim. Duas cadeiras na varanda, um bom vinho em taças pequenas, e a conversa esticada apenas pelo gosto da troca.

O clima frio exige recolhimento e conduz à reflexão. As longas noites são invadidas pelo estudo, pela leitura, porque o silêncio é companheiro do frio assim como o barulho o é do calor. O mundo exterior mais reduzido estimula o exercício da imaginação. Portas e janelas fechas forçam-nos o olhar para o interior.


E não nos esqueçamos da elegância. Tenho visto, mesmo nos dias mais frios, muita gente com as pernas nuas despejadas para fora dessas bermudas coloridamente ridículas que se usam hoje em dia em qualquer estação, em todos os lugares. As pessoas reclamam do frio, se queixam, mas não abandonam o padrão da roupa sumária, do corpo exposto como se o sol substituísse nossas proteções. O Oswald de Andrade queria que o índio desvestisse o português, estão lembrados? Mas o Oswald de Andrade era primitivista, por isso queria ver-nos sem roupa, esse traço de nossa herança europeia. Claro que sua metáfora referia-se à cultura, entretanto serve muito bem para outro sentido, que são os dias de calor. Elegância, meu caro, para os dias de frio, é o sobretudo, o cachecol, a echarpe de seda por dentro da camisa. O sapato em lugar do chinelinho de dedo.

Meu amigo Adamastor, sociólogo das horas vagas, me adverte: uma indumentária como essa não cabe no orçamento de muita gente. Concordo e acho que deveria caber. O caso, porém, é mais de escolha e preferência do que de poder aquisitivo. Os celulares estão aí para me confirmar.

Finalmente, o frio é bom não para que seja sentido. Ele é bom para sabermos que está ali fora, rondando, enquanto nosso corpo se regala na temperatura cálida por dentro do agasalho. Tudo que faço, faço melhor no frio. Pena que dure tão pouco.

Um comentário:

  1. Olha só a genética gaúcha se manifestando!
    O frio, de fato, traz peculiaridades espantadas pelo calor.
    Uma boa crônica esta, Menalton. Virará matéria de aula.

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