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domingo, 17 de junho de 2012

PARÁBOLA DO CÁGADO VELHO (11)

AS AFLIÇÕES DE ULUME

Pág. 45 - "Os dias foram passando, iguais. Os que abandonaram o kimbo para criarem um novo a um dia de marcha, bem no meio da Munda, mandaram informações de que já estavam instalados, com cubatas novas. Tinha muita água, um regato ao lado, uma mata à volta, terras boas para o milho."
"Ulume pensou já ter dado tempo suficiente para Munakazi se decidir. Mas Muari não o d eixou voltar para a resposta. Sou eu que vou, estas coisas devem ser tratadas entre mulheres. (...) Ulume reconheceu as razões de Muari e lá foi ela parlamentar com a pretendida."

(...)
Pág. 46 - "Ficou no cimo do morro, fazendo tempo, se consumindo em inquietações. A Muari só voltaria a meio da tarde, a tempo de fazer comida para a noite, a ontra aldeia não era assim tão perto e essas conversas levam tempo. Ficou surpreendido pois ao ver a mulher avançar pelo caminho da direita em direcção ao kimbo, antes do meio da tarde. Deitou uma última mirada à gruta e desceu para a aldeia."
"- Conversamos muito, também com a mãe dela. Não quer. O problema é tu seres casado. Os jovens agora têm outras ideias, ideias da cidade, também não podemos censurar."
"- Ela disse que ou tu ou ela? Disse isso Munakazi?
- Não. Fui eu que disse. Mas ela não aceitou. Ela disse se tu me mandas embora, então ela também não casa contigo.
- Já me tinha dito.
- Boa miúda. Ela te merece.
Ficaram calados, olhando para a fogueira, esperando a água ferver."
(...)
"- Eu vou procurar os meus filhos. Assim podes casar com ela.
Ulume não entendeu imediatamente. Esboçou um movimento como a acomodar-se melhor em cima da pedra, lisa pelo uso. Depois percebeu.
- Nunca que vou te deixar partir. Que estória é essa?
- Não voltaram mais. Nem sei se estão vivos. Vou sim à procura deles. E fico lá, onde algum estiver. É melhor para todos.
- Estás maluca. Nem pensar.
Se levantou num rompante, pegou no machado para cortar lenha, descarregando os nervos na madeira seca. Esta soltava aparas por todos os lados, mas Ulume nem reparava, castigando com raiva o tronco.
Foi ness altura que chegaram Mande e Ana, desaparecidos há meses."
(...)
Pág. 48 - "Passaram uma grande parte da noite a trocar informações com Mande e Ana. Estes decidiram não mudar de kimbo, pela mesma razão de Muari: se o filho os fosse procurar, onde os encontraria?  (...) Voltando para casa, Ulume tinha uma questão a lhe atormentar a cabaça, mas afinal a granada que lhe revelou o desejo de Munakazi era dos nossos ou do inimigo? De uma coisa estava certo e não lhe agradava: se o seu filho Luzolo estivesse com os nossos, então Kanda estaria com o inimigo; ou vice-versa, o que ia dar exactamente no mesmo."

Relatos de um amigo meu, que viveu alguns meses em Angola nos difíceis tempos da guerra civil, revelam que muitos adolescentes eram recrutados, armados e acompanhavam as tropas, sem ao menos saber se estavam lutando a favor do governo ou contra este. Os que se recusavam e eram apanhados, acabavam mortos.

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