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quarta-feira, 20 de junho de 2012

PARÁBOLA DO CÁGADO VELHO (14)

INÍCIO DOS DESACORDOS

Pág. 64 - "Ulume e Munakazi partiram para o kimbo novo, na procura de cabritos."
"Foi uma fatigante viagem, pois o terreno era quase sempre a subir. A Munda era uma serra alta e não se entra facilmente no seu coração. O carreiro muitas vezes desaparecia por correr sobre rochedos, mas os do kimbo novo tinham tantas vezes explicado todos os acidentes, que eles acabavam sempre por encontrar o caminho mais à frente."

"Abílio e os outros receberam-nos com grandes provas de amizade."
Pág. 65 - "Conversaram até muito tarde, trocando os mujimbos dum lado e do outro. Recusaram ficar uns dias, Ulume não queria deixar a Muari muito tempo sozinha, por isso partiriam no dia seguinte, mesmo um pouco cansados, e voltariam com as galinhas na outra semana.(...) Mas não podiam deixar o kimbo velho, confluência de vários caminhos e por isso tão exposto. Ele até nem se importaria muito, os filhos já eram grandes e escolheram as suas vidas, mas a Muari? Vivia sempre na esperança de algum deles aparecer.
-Se estiverem vivos - concluiu Ulume."
(...)
"Durante os primeiros tempos, como lhes contaram, tinham feito incursões à volta do kimbo novo, para ver se havia outras aldeias. E de facto encontraram algumas famílias dispersas, vivendo sobretudo de rebanhos."
(...)
Pág. 66 - "- Por acaso lá nos nossos lados tem estado tudo calmo. Nunca mais apareceram soldados, nem se ouvem aviões. Até parece que a guerra acabou, só falta os rapazes voltarem. Mas todos sabemos que não acabou, por vezes chegam notícias...
E como a confirmar que a guerra não tinha acabado, sentiram a presença dela quando se aproximavam do kimbo velho, no dia seguinte. Quase esbarraram numa volta do caminho com o corpo de Mungongo, atravessado por duas balas."
"- Vamos sair do caminho. Do morro vemos o que passa no kimbo."
"(...) Os soldados já tinham retirado. Munakazi tomou a dianteira, entraram no kimbo.
A gritaria aumentou quando os viram. (...) Como não havia cabritos, assaltaram as capoeiras, levaram galinhas e patos, todo o milho existente nos celeiros e que era muito, e tudo o que desse para trincar. (...) O Mungongo tinha desaparecido, era o único que faltava."
Pág. 67 - "- Vocês já vieram - disse a Muari, sem emoção.
Parecia tinha envelhecido. A voz era mais fraca, cansada.
- Ainda bem vocês não estavam. Senão eles tinham levado a Munakazi. Só falavam disso, então aqui não tem mulheres novas?
- Que se passou?
- Consegui esconder duas galinhas e o galo. O resto eles comeram ou levaram."
(...)
Pág. 71 - "Ulume não falou, pois estava surpreso pela reacção da mulher, a qual sempre dissera deste sítio não saio."
"Munakazi recomeçou a bater furiosamente o funji, todos notaram. Ela terminou e quase atirou a panela para o meio deles. Cortou o tomate e a cebola com modos bruscos, também atirou a vasilha para o meio deles."
(...)
"Não havia contestação possível e o casal aceitou a hospitalidade. Munakazi esperou que os convidados se retirassem para a casa dos rapazes. Falou, com aquele ar de determinação contida que Ulume conhecera quando ela lhe dizia não:
Pág. 72 - Se vocês vão para o kimbo novo, eu volto para casa dos meus pais. Fica um pouco à margem, só uma vez os soldados lá foram.
- A mulher vive no kimbo do marido - cortou a Muari, ríspida.
Munakazi levantou para ela os olhos e pela primeira vez as duas mulheres se defrontaram. A rapariga não baixou os olhos, em desafio."
(...)
" - Daqui só saio para ir para Calpe.
A frase da segunda mulher bateu em cheio na cabeça de Ulume, como quando a granada rebentou perto dele. Um atordoamento."
(...)
Pág. 73 - "Mas Ulume não ficou tranquilo. Munakazi mostrara uma faceta desconhecida e grave. Sabia, ela era de rompantes e amuos, já tivera outros. (...) A noite inteira foi pouca para percorrer a sua vida e decidir sobre o melhor. Fazer a vontade de Munakazi e permanecer no kimbo, vivendo todos os dias com o medo duma visita indesejada? Trabalhando para ser espoliado? Ficando toda a vida a dever o alembramento prometido, pois sempre que dava um passo para cumprir o dever vinham pilhar os tesouros? Ou obrigá-la a ir para a tranquilidade do kimbo novo, lá refazerem a vida e esperar o fim da guerra? Porque estava absolutamente fora de questão ir agora a Calpe. Se debateu durante toda a noite, sem dormir, apesar do cansaço das viagens e das frustrações."

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