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quinta-feira, 5 de julho de 2012

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (14)

Fragmento do livro Teoria da Literatura, de Vítor Manuel de Aguiar e Silva. ´

Págs. 34, 35 e 36 - "A obra literária é sempre um artefacto, um objecto, como escreve Lukács, que se separa do sujeito criador, do sujeito fenomenológico, como 'configuração formal liberta do ser' -, possuindo uma realidade material, uma textura semiótica sem as quais não seriam possíveis nem a leitura, nem o juízo estéticos. Quer dizer, esta realidade material é a condição nesseária para que aquele artefacto se realize como objecto estético, embora não seja condição suficiente, já que a sua existência como objecto estético exige a intervenção activa de um leitor, isto é, de um peculiar sujeito cognoscente. Oferecido à leitura de um número indefinido de leitores - leitores heterogéneos sob os pontos de vista histórico, geográfico, sociocultural, etário, etc. - e dada a sua própria constituição semiótica, o artefacto que é a obra literária realizar-se-á forçosamente como objecto estético de modos bastante diversos.

Mas se a obra literária, em virtude da sua estrutura artística e do processo comunicativo em que se realiza como objecto estético, possibilita leituras diferenciadas, não permite leituras em número ilimitado ou de natureza arbitrária: as suas estruturas semióticas, que têm uma existência efectiva regulada por determinados códigos, não podendo ser anuladas pela subjectividade dos leitores, impõem eo ipso um limite à variabilidade das suas leituras e interpretações e não podem ser dissociadas do teor destas últimas. Os leitores, ao tomarem perante determinado(s) texto(s) o conjunto de atitudes a que caberá a designação  de 'literatura', não podem assumir essas atitudes colocando entre parênteses os elementos constitutivos do(s) próprio(s) texto(s). Doutro modo, é muito difícil, senão impossível, deixar de classificar essa tomada de atitudes como arbitrária - isto é, como ocorrendo de modo imprevisível no foro individual de cada leitor, não fazendo então sequer sentido remeter o problema da definição de literatura, como pretende Ellis, para um informe consenso comunitário. Retomando uma ideia já atrás exposta a propósito do conceito wittgensteiniano de 'semelhanças de família', diremos que o uso que se faz seja do que for - texto, instituição, teoria, etc. -, sobretudo quando esse uso apresenta, quer diacrónica, quer sincronicamente, uma similaridade transindividual e intersubectiva, nunca é alheio à natureza do que é usado."


(CONTINUA)

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