As crenças e valores mais gerais são formados pela
sociedade. Como no folclore, ninguém sabe quem disse algo pela primeira vez.
Mas isso um dia deve ter acontecido, pelo menos é a certeza a que nos induz o
pensamento lógico. E, se nem tudo que se pode afirmar usando a estrutura lógica
é verdadeiro, pelo menos neste caso não há por que discordar da afirmação. E se
você, caro leitor, discorda, não vejo razão para que continue a leitura da
crônica.
A transmissão, a conservação e o reforço de crenças e
valores, contudo, podem ser localizados. Grandes homens da história, muitos
deles, foram e são estrelas-guia, cujo pensamento e/ou comportamento modelam
nossa visão de mundo. Representam uma síntese do que a humanidade produziu.
Na Grande Música, entre 1770 e 1826, existiu uma dessas
personalidades que deixaram sua marca luminosa em nosso pensamento e também em
nossa sensibilidade. Trata-se de Ludwig van Beethoven, alemão de origem
holandesa, que nasceu na cidade de Bonn. Foi um dos maiores gênios do
Romantismo musical (como de toda a história universal da música) e, sinfonias
suas, como a "Quinta" e a "Nona", há mais de duzentos anos,
são das músicas mais tocadas no mundo inteiro. Muito pouca gente do mundo
civilizado desconhece aquelas quatro notas (três breves e uma longa) ou a
melodia do coral da "Nona", An die Freude, de um poema schilleriano,
uma das mais belas odes à alegria de toda a arte universal: o hino da amizade e
da fraternidade.
Há dois incidentes na vida de Beethoven que demonstram até
que ponto ia seu pensamento revolucionário. Não podemos esquecer que isso
aconteceu no início do século 19, plena vigência do despotismo esclarecido,
quando governo republicano não passava de um sonho de malucos.
Passeando com Goethe pelas ruas de um balneário, eis que
passa a carruagem da imperatriz da Áustria. O escritor, reverentemente, tira o
chapéu e, inclinando-se, arrasta-o no chão durante a passagem do séquito.
Beethoven, a seu lado, enterra a cabeça no chapéu e continua caminhando sem
dobrar a coluna. Este foi um dos casos.
Quando Napoleão surge na França para desbancar os membros da
dinastia dos Bourbon, Beethoven, coerentemente, dedica-lhe sua terceira
sinfonia, acreditando tratar-se de um libertador da humanidade. Pouco depois, o
mesmo Napoleão autoproclama-se imperador, e Ludwig rasga o cabeçalho da
partitura, eliminando-lhe a dedicatória.
Como fazem falta homens desse calibre. Beethoven morreu
pobre mas honrado. Uma pena que a honra seja nos dias atuais mercadoria de
última necessidade.

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