Levantou os olhos do jornal e inundou a cidade num indiferente olhar
azul, seu olhar vidrado, quase aborrecido. De uma forma vagarosa e distraída,
como quem já não tem mais pressa de
chegar, porque já não tinha mais pressa de chegar. Nem aonde. Ecoava ainda no
interior de seus ouvidos o desconforto de um chamado ou sua impressão, e era
impossível ter certeza. Tentando concentrar-se para descobrir que apelo poderia
ser aquele, seu pensamento perdeu-se por alguns instantes em coisas miúdas que
lhe entulhavam os olhos, como o motorista manobrando o carro para ocupar uma
vaga menor do que o carro, seu modo brusco de gesticular, o avião que passou e
se escondeu atrás de uns edifícios, a felicidade do cachorro ao voltar com o
bastão entre os dentes. Não chegou a formular uma síntese do que via ou sentia.
Não eram propriamente pensamentos, mas sucessão de imagens descosidas: o
instante. Estivera lendo, bem sabia, e a prova disso eram as palavras que ainda
boiavam em seus olhos. Abertos ou fechados. Mas eram palavras, apenas, sem
qualquer ligação entre si. Negras e oscilantes, voavam sem formar fila: bando
caótico. Não chegavam a compor uma frase. Por isso, não sabia, não conseguia
lembrar o que estivera lendo antes de levantar os olhos do jornal. E inundar a
cidade com seu olhar azul.

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