O poema abaixo, de Maria Carpi, está em seu livro A Migalha e a Fome, edição da Editora Vozes.16
A fome eleita é um resto
da multidão das guloseimas.
É uma fome ilesa de luxúria.
Para além da borda do prato.
Para além da migalha caída
da tábua e do enredo. Além
dos monturos e dos excedentes.
Além das gengivas e azia
gástrica. Além das próteses.
E de cada carvão extinto,
de cada escória, uma faísca
sem alimento brota da pedra,
filete de sopro e palavra, de
saliva e barro e eis, patena
rala, a sagração da espécie.
O mesmo ocorre no dentro.
Emerge rosto eleito, a espúria
do semblante no álbum de
retratos e calendários, o resto
de uma vida e currículos.
O que sobrou da fatuidade
da alimentação e da leitura.
O que escapou das iguarias
e a pão e água, em abstinência
de si mesmo, restante carta
à míngua de imensidões,
escreve o fruto antes da árvore.
O sono da fome no grão.
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