quinta-feira, 27 de março de 2014

CANTIGAS DE AMIGOS


O poema que segue é de meu amigo João Augusto e encontra-se em seu livro Sem a sombra de um guarda-chuva, editado em 2011.

           Uma promessa

A única formalidade que me faz cativo
é a insubstituível beleza de seguir mudando
Deixo para meus filhos a chave de casa
É por ela que vou entrar e sair
Sem a sombra de um guarda-chuva
E o receio das meias entre meus pés e os sapatos
Não posso desejar mais do que consigo imaginar

E nada menos que o impossível possa me oferecer
Plantarei aqui o meu cipreste de vaidades
E por ele subirão todos os meus sonhos
Até que alcancem o cimo de mim
E terei me realizado ainda à luz do dia
Não levarei almofadas nem chapéus
Não encenarei o último abraço em meus irmãos
Também não conseguirei acordar depois de você
Não dessa vez
E não quero partir antes do seu último dia
Se as mãos ainda responderem ao meu instinto
Estarão laçadas entre as suas
Talvez agora sem a formalidade dos desconhecidos
Pelos anos em que dividimos os mesmos corpos
Pelas dores que choramos juntos
Pelo sorriso que saía do seu rosto de menina
E pelo insubstituível amor compartilhado
Que me faz seguir mudando ainda hoje
Mesmo que tudo pareça ausência e segredo

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