segunda-feira, 17 de março de 2014

CARTA CAPITAL| A ETERNIDADE VAI ACABAR


Houve um tempo que tudo me parecia eterno. Era um mundo parado, sem movimento, em que o verbo esgotar não entrava
por Menalton Braff —  publicado 15/03/2014 23:02

Houve um tempo que tudo me parecia eterno. Era um mundo parado, sem movimento, em que o verbo esgotar não entrava. Meu pai era um homem imenso, seus poderes não tinham limite. Era um tempo e um mundo muito confortáveis. Ah, sim, e a noção de tempo, da passagem do tempo, ainda não me angustiava. Eu seria um ser muito pequeno e dependente de meu pai, com toda aquela altura. Para sempre, por enquanto eram sintagmas que não cabiam na minha gramática reduzida a umas poucas palavras cujas combinações começava a ensaiar.

Se o tempo passa por nós ou se nós passamos pelo tempo, aqui não importa. São questões com que os filósofos se descabelam, mas firmar posição a respeito não nos vai ajudar muito. Para o que nos interessa, o tempo existe.

Depois daquelas ingenuidades infantis, de que a memória já não retém grande coisa, vieram tempos mais modernos, em que a desconfiança passou a gerir os negócios dos homens. A desconfiança e a convicção de que um dia não haverá mais florestas, então os rios poderão estar secos; não haverá mais água potável, porque os aquíferos já foram poluídos ou também secaram. Tempos secos, serão aqueles. Alguém viu onde foi parar a gasolina? Só os mais velhos, conservados ainda como arquivos da memória humana, só eles ainda saberão o que era a gasolina.

Vivemos em tempos de buracos negros, de camada de ozônio, de tsunamis, el niño, e tantos outros tormentos com que a natureza nos ameaça. Alguns gostam de pensar que ela, a natureza, começa a se vingar de tudo que o homem, “um bicho da terra tão pequeno”, vem praticando com e contra ela. Ora, ora, vingança é sentimento, mesquinho, que seja, mas é sentimento e sentimento é exclusivo de seres animados.

Passei outro dia pela rua Itatiaia e vi três mulheres conversando escoradas em rodos. Elas deveriam estar lavando a calçada. Pelo menos, era o que me dizia o bico da mangueira, por onde um jorro da mais bela, da mais pura água do aquífero Guarani, fazia um belo arco e se arrojava na calçada. Para elas, numa rua que de pedra faz seu início, o tempo não existe e os recursos da natureza são eternos. Nunca olharam para o céu, é bem provável, para consultar as nuvens, que ultimamente andam bastante esquivas.

Essas mulheres, na certa, ainda vivem sob o signo da abastança daqueles tempos em que tudo era eterno. Mas a eternidade vai acabar. As reservas de petróleo estão-se exaurindo, nossos estoques de verde, de florestas, já estão no vermelho. E a água potável, até quando ainda a teremos?

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