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quarta-feira, 19 de março de 2014

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (89)

Vítor Manuel de Aguiar e Silva. Teoria da Literatura. 6ª ed. Livraria Almedina: Coimbra, 1984.

Pág. 186 - "Semiótica da significação e semiótica da comunicação"

"Um dos problemas mais controversos da semiótica tem consistido na dificuldade de estabelecer, fundamentar e descrever o que Francesco Casetti denomina a topologia da semiótica, isto é, o espaço que nela ocupam determinados fenómenos enquanto seu objecto formal de estudo, bem como os limites e as articulações entre esses mesmos fenómenos - o fenómeno da significação e o fenómeno da comunicação. Quais as relações existentes entre sistemas semióticos de significação e sistemas semióticos de comunicação? A semiótica (ou semiologia) tem como objecto de estudo apenas a comunicação ou apenas a significação? Será possível - ou tornar-se-á necessário - conciliar a semiótica da significação e a semiótica da comunicação?

Eric Buyssens, desde 1943, assinalou como objectivo da disciplina científica que designa por semiologia o estudo dos processos de comunicação: 'La sémiologie peut se definir comme l'étude des procédés de communication, c'est-à-dire des moyens utilisés pour inflouencer autrui et reconnus comme tels par celui qu'on veut influencer'. Segundo Buyssens, todos os processos de comunicação se fundam numa relação social e todos os actos comunicativos se realizam através de meios convencionais e de manifestações intencionais, o que equivale a afirmar que a semiologia não estuda os indícios - naturais, involuntários, de carácter individual -, mas os sinais - convencionais, voluntários, intencionais, de carácter social. E como o termo 'linguagem' , observa Buyssens, abrange tanto o 'simples indício' como a 'verdadeira comunicação', torna-se aconselhável recorrer a um termo especial - semia - para designar o objeto da semiologia. A semia é um conjunto de semas: 'Le mot sème désignera tout procédé conventionnel dont la réalisation concrète (appelée acte sémique) permet la communication'.

É incontestável, por conseguinte, que Buyssens fundamenta e caracteriza a semiologia como semiologia da comunicação, mas não parece exacto poder-se concluir, como alguns autores propendem a julgar, que Buyssens, defendendo uma concepção drasticamente restritiva da comunicação, segregaria do âmbito da investigação semiológica os fenómenos da significação. Buyssens, em rigor, não contrapõe a significação à comunicação, mas sublinha com ênfase que a significação constitui um fenómeno social, cuja análise só pode ser adequadamente realizada numa perspectiva comunicacional: 'De même, la signification est um fait social; l'étudier sans tenir compte de la communication est une impossibilité, car alors on se trouve devant des faits psychologiques, individuels.' O problema, como se verá mais claramente a seguir, não consiste numa espécie de forclusão da significação, mas em conceber a significação como um fenómeno estritamente subsidiário e funcionalmente ancilar em relação à comunicação.

(CONTINUA)



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