Este conto integra do livro À sombra do cipreste publicado inicialmente pela Palavra Mágica, em 1.999. A edição atual, de 2.011, é da Global Editora. À sombra do cipreste deu a Menalton Braff o Prêmio Jabuti 2.000.
Concerto para
violino
O porteiro veio até a calçada alongando-se feliz como gato
que acaba de acordar, erguidas para o céu suas mãos carregadas de perguntas que
Guilherme temia e não tinha como responder. Era a terceira tarde consecutiva em
que rondava a porta do edifício à espera de um recado, de um aceno, sinal
qualquer que justificasse a esperança de voltar a encontrá-la. Tamanha
persistência poderia estar provocando suspeitas, mesmo assim adiou o medo e
espiou pela porta de vidro: no saguão, apenas sofás e poltronas cochilando
preguiçosos e vazios sobre o tapete persa. Guilherme atravessou a rua, rancoroso
e lento, até mergulhar sua inveja na sombra fresca da marquise em frente à loja
de instrumentos musicais. Aquele sim, o porteiro, todas as informações
guardadas no silêncio de sua cabeça: o nome dela, seus hábitos, o número do
apartamento onde suportava a vida com o marido (com toda certeza um troglodita
transpirando perversidade) e com os dois filhos pequenos, que na matinê de
domingo, no cinema, fartavam-se de pipoca e heroísmo sem perceber o que acontecia
com sua mãe na poltrona ao lado. Virou-se ainda uma vez, astuto, e encontrou o
olhar do porteiro a esquadrinhá-lo ostensivamente. Fosse livre para agir
segundo sua vontade, enfrentava o porteiro e arrancava dele os segredos que
mantinha trancafiados como privilégio da profissão. Mas a vontade não conta, se
há um nome de mulher a preservar, e Guilherme voltou-se para a vitrina com
repentino e inexplicável interesse pela música.
Foi então que, deslumbrado, descobriu o violino estirado em
seu estojo preto forrado por dentro de flanela carmesim. Nunca o vira de tão
perto nem tão majestosamente silencioso. Percorreu-lhe as curvas, minucioso, e
esgueirou-se por suas reentrâncias com a convicção de que se perdia para
sempre, mas era tarde para retroceder: braços e pernas retinham ainda a
lembrança de suas unhas. Ofegante e desajeitado, então, tentou aproximar-se um
pouco mais, sem perceber, todavia, que o vidro transparente era também
intransponível. Inconformado com aquela estúpida indecisão do domingo, mordeu o
lábio, punitivo. Quão tolo fora, ao permitir que ela partisse com os filhos,
sem deixar pista nenhuma! Um aceno de despedida, apenas, antes de submergir
pela porta do edifício. Um aceno, e nada mais. E ali mesmo, na frente da loja,
plantara-se à espera de que ela voltasse. Em todas aquelas sacadas igualmente
desertas, vestígio algum que o pudesse ajudar.
Se entrasse na loja e perguntasse o preço do violino,
talvez o deixassem acariciá-lo por alguns instantes. Mas como evitar que lhe
fizessem perguntas embaraçosas, que o incitassem a tocar? Não saberia o que
responder nem imaginava como se empunha o arco. Como explicar que a descoberta
de sua vocação dera-se no domingo à tarde, ao perceber que não era casual o
encontro de seus joelhos? Poderia confessar que, desde então, a vida perdera
qualquer encanto que não fosse o da
esperança de voltar a sentir na pele o delicado dedilhar de suas unhas? Aquilo
segredo seu, o primeiro, que nem ao pai (Sentindo alguma coisa, Guilherme?) nem
aos colegas na escola ousara revelar.
Ao procurar o porteiro, na calçada oposta, Guilherme teve
um sobressalto: calça jeans e blusa clara, o cabelo desfraldado ao vento, ela
acabava de sair do edifício e se afastava coleante na direção da esquina.
Sozinha. Mesmo com o risco de ser atropelado, atravessou a rua correndo - não
fosse perdê-la outra vez. A cinco passos de distância, ensaiou chamá-la, mas se
deu conta de que nem para perguntar-lhe o nome, na volta da matinê, tivera o
necessário tirocínio. Deus do céu, quão difíceis de aprender são as artes da
vida! Enquanto se aproximava, bêbado de curvas e alfazema, relembrava um
tumulto de frases inteligentes a respeito de prêmios à perseverança e sorria
orgulhoso de sua façanha.
Na banca de revistas, ela parou examinando as capas
coloridas e vistosas. Quem sabe em uma delas encontraria sua foto estampada. A
seu lado, sem coragem ainda para encará-la, Guilherme distraiu os dedos a
folhear qualquer coisa que talvez fosse uma revista. De repente, uma sensação
de desamparo, os joelhos frouxos: a voz que esfolava seus ouvidos não era a
dela.
Enfim, essa não foi a primeira vez, repetia Guilherme no
caminho de volta a seu posto, ao lado do violino. De tal pensamento,
entretanto, a despeito da insistência, não lucrava consolo ou lição. Uma frase
frouxa, descolorida, sem eco em seus nervos atordoados. Finalmente, espáduas na
parede da loja, suado, espremeu a memória até que sangrasse, tentando trazer de
volta aquele rosto fugitivo feito de mel e luar. Em vão tentou, porém, porque
os traços dispersos que por ali restavam eram poucos e apagados, sem o dom de
ensandecê-lo. Sentiu-se cansado, idiota, sujo e imensamente infeliz.
Guilherme enfiou a mão no bolso procurando, e procurou, mas
no bolso ele não tinha nada e sua mão voltou vazia. A cidade tornara-se grande,
de repente, na frente daquela loja. Grande demais para ser conquistada. E
esperta, cheia de malícia. Ora desfilava barulhenta, escondida no interior de
ônibus e automóveis, ora espiava silenciosa através das mil janelas de cada um
daqueles edifícios. Guilherme concluiu alarmado que não tinham mais sentido
ficar ali exposto, naquela espera inútil. Mas o corpo, fremente de esperança,
pedia para ficar.
No meio da rua os motores dos carros silenciaram. As
vitrinas emudeceram, os semáforos apagaram, ninguém ousava mover-se nas
calçadas. Atônita, a cidade toda parou: com suas unhas afiadas, seus dois olhos
de vertigem, o balanço dos quadris e o sorriso de remanso (Como esquecê-los,
mesmo que apenas por um instante?) ela vinha atravessando a rua - mais bela
agora, porque vinda de muito longe.
No interior da loja, exatamente quando o violino e a
orquestra pareciam ter-se, finalmente, reconciliado, mão premonitória
interrompeu os argumentos de Brahms e
desfez o encanto.
Guilherme soltou-se da parede e flutuou até o meio-fio para
esperá-la. Não sabia por onde andariam braços, pernas, nem pensamentos: seu
corpo resumido a pulsações. Ao buscar-se no escuro espelho de seus olhos,
porém, encontrou-os vazios e distraídos.
Ela galgou a calçada, leve, altaneira, e desapareceu na
cidade.
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