Concluímos, com esta postagem, a fase de escritura do e-book coletivo do projeto "Uma história, várias mãos".
Último capítulo
A partir de agora, inicia-se a etapa de edição do e-book, que estará a cargo da Editora Cintra. Acompanhe as notícias por este blog e pelos perfis e páginas de Menalton Braff nas redes sociais.
Publicamos, a seguir, o texto escolhido como último capítulo.
Último capítulo
− Ricardo, o que o Vítor estava fazendo aqui?
− Marina, ele me disse umas coisas que me
deixaram um pouco desconfiado de você, sinceramente − Ricardo apoiou-se na parede e olhou fixamente
nos olhos de Marina. A garota ficou vermelha.
− O que ele disse?
− Que eu tenho que tomar cuidado com você, que
você é falsa, sabia de tudo sobre o bilhete e ele foi na sua casa. Isso você
não me contou.
− O QUÊ? Que molequinho besta, eu não acredito
que você, Ricardo, caiu na conversinha dele! Ah, faça-me o favor! Eu te ajudei
em todo o plano e agora você vem desconfiar de mim?
− Você não me
disse que ele foi na sua casa − Ricardo ergueu as sobrancelhas.
Marina passou a mão na testa, fechou os olhos e respirou
fundo.
− Ele foi na minha casa, sim. Veio me
cumprimentar e todas aquelas melações dele, mas eu não achei necessário te
contar! Eu te conto melhor no sítio a história completa, por favor − o
sinal bateu − Vamos.
Ricardo tomou um rumo diferente do de Marina, precisava
pensar sozinho um pouco. Depois de todo esse tempo, Marina estava mentindo?
***
Na hora da saída, Ricardo bateu o olho em Marina: ela
estava saindo da escola a pé, acompanhada por ninguém menos do que Vítor.
Sentiu uma raiva imensa subir a sua cabeça. Teve vontade de sair correndo atrás
dos dois e gritar até não sobrar mais voz, mas continuou andando, quase
quebrando o chão com seus passos carregados de raiva. Andou, pegou o caminho
mais longo para casa e andou mais.
Chegou em casa, largou a mochila no sofá e
foi para o quarto. Não reparou no pai, que estava preparando um sanduíche na
cozinha, mas o pai reparou no filho. Subiu as escadas e bateu na porta. Ricardo
se assustou rapidamente e então abriu a porta.
− Não me viu na cozinha por quê? − o pai
perguntou.
− Eu não vi, desculpa.
O pai cerrou os olhos como se estivesse vendo todos os
pensamentos de Ricardo, então, sentou-se na cama do filho, e este sentou-se ao
lado do pai.
− Aconteceu alguma coisa na escola?
− Várias coisas. O cara do bilhete é o filho do
padeiro, o Vítor, e veio falar mal da Marina pra mim. Eu acreditei, mas a
Marina veio me falar com a maior bondade que não, que era mentira. Só que na
saída eu vi quem ela é, e que o Vítor estava certo. Ela saiu com ele a pé, conversando
com ele. Aconteceu isso.
− Não vou mentir pra você, eu acho estranhíssimo
uma garota de onze, doze anos de idade mentir desse jeito. Será mesmo que ela
se fingiu o tempo todo, te ajudou em tudo pra ser uma mentira? É estranho,
Ricardo.
− Pra você ver a que nível chegamos. Eu não quero
saber mais nada dela − Ricardo suspirou e olhou para a janela,
lembrando-se do rosto risonho e dos cabelos curtos de Marina.
− Você toma a sua decisão, filho, mas eu acho
melhor você não jogar tudo pro alto, sabe. Pensa direito, come um sanduíche que
te preparei lá embaixo, e pode me chamar pra qualquer coisa. Falou, garotão.
O pai de Ricardo levantou-se e saiu do quarto, fechando a
porta, deixando Ricardo sozinho mergulhando, ou melhor, se afogando em tantos
pensamentos.
***
Domingo. Ricardo acordou com a mãe ao seu lado, sorrindo.
− Bom dia, Ricardo!
− Oi, mãe...
− Eu acho melhor você acordar logo, porque o
Ronaldo ligou e disse que em uma hora vai passar aqui para te buscar.
− Buscar pra quê? − Ricardo espantou-se.
− O sítio, filho! Levanta, senão vai perder o
horário, vamos!
− Eu não vou. A... aquela menina vai estar lá e
eu não vou − Ricardo cobriu-se novamente com o cobertor e
fechou os olhos.
− Pois eu acho que “aquela menina” não vai. Só
vão o Olavo e o Ronaldo, esse era o combinado.
− O sítio é da família dela.
A mãe de Ricardo suspirou.
− Eu sei que ela te decepcionou, mas... por
favor, levanta pelo menos, eu não quero que você fique aí, dormindo.
− Vou levantar só porque eu estou morrendo de
fome − Ricardo sorriu para a mãe.
− É isso mesmo. Só não dorme de novo, Ricardo! − a mãe
saiu do quarto.
Ricardo dormiu por mais dez minutos, e então se levantou
e colocou uma roupa. Desceu as escadas e tomou o café com a mãe e o pai, até
ser interrompido por uma campainha.
− Ricardo, abre a porta, por favor − o pai
pediu-lhe.
Ricardo passou a mão nos cabelos, tentando abaixá-los um
pouco, e então abriu a porta.
E lá estava ela, Marina. Ricardo quase que virou as
costas e bateu a porta na cara dela, mas não, era muita grosseria.
− Oi − disse Marina.
− Oi.
− Já está pronto? O Ronaldo, o Olavo e a Katy
estão no carro.
− Eu não vou, obrigado. Tchau − Ricardo ia fechar a porta, mas Marina segurou-
a.
− Se você for, tudo vai ficar explicado e você
vai entender tudo. Por favor.
Quando Ricardo abriu
a boca para falar que não, sua mãe apareceu atrás dele e entregou-lhe uma
mochila.
− Oi, Marina! Ricardo, tome a sua mochila. A mãe
da Marina te traz de volta mais tarde, não é?
− Sim, pode deixar − Marina sorriu.
− Tchau, filho, vá com Deus − a mãe
beijou a testa de Ricardo e esperou o filho entrar no carro.
− Mas como assim? Eu. Não. Vou. Entenderam?
− Entra logo. Quer que eu te ponha dentro do
carro, te prenda no cinto de segurança...? − a mãe
de Ricardo ergueu as sobrancelhas.
− Deixa quieto. Eu não acredito! − e
entrou em silêncio no carro, seguido de Marina.
− Oi, Ricardo − cumprimentaram Olavo, Ricardo, Katy e a mãe de
Marina no volante.
− Oi.
Todos conversaram animadamente, às vezes Marina tentava
chamar a atenção de Ricardo, mas ele só respondia com “sim” ou “não”. Chegando
lá, viu que era um lugar grande, com ares gostosos e puros, o verde espalhado
por todo canto, os animais pastando calmamente, a horta, o pomar, o jardim...
era praticamente uma fazenda! Tudo isso deixou Ricardo um pouco mais calmo, mas
não mudou o comportamento dele com relação a Marina.
Depois de Olavo, Ricardo e Ronaldo jogarem uma partida de
vôlei contra Marina e Katy, Ricardo sentou-se em um banco no canto do jardim.
Marina estava na escada de fora da casa-grande da fazenda, enquanto os outros
entraram para comer algo. A garota desceu os quatro degraus e caminhou até
Ricardo. Sentou-se ao lado dele e olhou para o lugar.
− É legal, não é?
− Uhum!
− Ricardo, eu quero que você entenda a história.
Desde pequenos, eu e o Vítor moramos na mesma rua, no mesmo bairro, então,
sempre fomos próximos um do outro. Ele pra mim era como um irmão, mas ele me
via como mais que amiga, uma namoradinha. Eu não gostei disso, e então eu
discuti com ele. Isso quando eu tinha 9,10 anos. Ah, ele não deixou barato.
Espalhou pra rua toda que eu falei mal de todos, que eu era uma falsa e que
ninguém escapava dos meus comentários maldosos. Nunca mais falei com ele,
chorei bastante porque ninguém queria ser meu amigo.
Pedi desculpas a todos e
expliquei o que aconteceu. Conhecendo bem o jeito grosso do Vítor, todos
acreditaram na verdade, e não falaram mais com ele. Dessa vez foi ele que ficou
sozinho, sem amigos, e então a culpa foi minha, segundo ele.
Eu nunca mais falei com o Vítor, e ele ficou
com poucos amigos. Ele achava que eu era culpada de tudo, então, vendo que eu
era muito próxima a você, adivinha? Tentou te afastar de mim, e vendo que não
deu certo, te usou contra mim. Mas aí, sexta-feira, eu saí da escola a pé com o
Vítor e conversei muito com ele.
Bom, ele me perdoou e eu o perdoei pelas
besteiras que fizemos um na vida do outro. Agora ele entendeu que eu gosto dele
como um amigo não tão próximo como você, a Katy, o Olavo, o Ronaldo... e então
foi isso. Nunca que eu iria trair sua amizade, Ricardo, e quero que você tenha
certeza disso.
− Agora eu tenho certeza. Desculpa, Má, por ter feito você passar por isso − Ricardo abaixou a cabeça depois de ouvir toda
a história, e enfim conseguiu dar um sorriso de desculpas.
Marina segurou a mão de Ricardo e disse:
− Muito obrigada por ter feito tudo isso
acontecer; se não fosse você, eu nunca teria me desculpado com o Vítor, e nem
ele comigo. Ele percebeu que eu gosto de você, sabe, e aceitou.
Ricardo ficou vermelho e apertou a mão de Marina.
− É, eu também gosto de você.
Marina sorriu e abraçou Ricardo, e este, mais feliz do
que nunca, retribuiu o abraço.
− Talvez, no futuro, a gente possa se juntar.
Mas agora, eu estou com fome, o que você acha?
− No futuro sim. Agora, quem chegar primeiro vai
comer o melhor pedaço de bolo!
Os dois riram e saíram correndo para dentro da casa, onde
todos riram e ficaram felizes, porque finalmente aqueles dois se entenderam, e
iriam se entender o resto da sua vida.
FIM

Menalton e meninos,
ResponderExcluirparabéns pela história de vocês, ficou uma bela narrativa de mistério. Será um belo e-book!
Renê.