O jornal Celulose Online publica a segunda parte do texto de Menalton Braff sobre Literatura. A primeira parte foi postada neste blog no dia 22 de novembro.
Literatura, o que é isso?
26/12/2014 – A palavra “literatura”, do latim litteris, é de surgimento mais ou menos recente, século XVIII, e seu emprego não era o mesmo dos dias atuais. Edward Gibbon (1737/1794), um lord britânico, depois de muitas viagens de pesquisas, escreveu o livro Declínio e Queda do Império Romano, obra fundamental para os estudiosos da História Antiga, e com a qual foi considerado um literato. Ora, sua obra foi de História, mas naquele século considerava-se literato o autor com vasta cultura, como foi o caso de Gibbon, e que tivesse um estilo elegante, agradável à leitura. E literato, por óbvio, produzia literatura.
Grandes polêmicas a respeito da questão literária durante o
final do século XIX vão desembocar nos primórdios do século XX no grupo chamado
de Formalistas Russos, preocupados em delimitar conceitos, estabelecer
princípios para novos estudos que então tomavam corpo: os estudos literários.
Já Henry James (1843/1916), escritor americano naturalizado britânico, ao
prefaciar alguns de seus próprios romances, dava início ao que seria mais tarde
conhecido como Teoria da Literatura.
Das discussões dos Formalistas Russos pode-se passar sem
grandes saltos para o Círculo Linguístico de Praga (1928/1939) que partindo dos
conceitos daqueles aprofunda os estudos que concernem à literatura,
estabelecendo alguns parâmetros de julgamento daquilo que se pode chamar de
linguagem literária em oposição ao que conhecemos como linguagem pragmática.
De origem anglo-americana, o New Criticism foi uma corrente
crítica inconformada com o fato de que a linguagem da teoria da literatura ter
ficado na dependência do vocabulário de outras artes, como a música, a pintura
e o cinema, principalmente. Seus estudos, então, partindo do CLP, foram a
primeira tentativa de estabelecer um vocabulário próprio para a crítica
literária, mas, ao mesmo tempo, tornar mais precisos os conceitos de
literatura.
Austin Warren e René Wellek, dois expoentes do New
Criticism, em seu livro Teoria da Literatura, postulam, entre outras coisas,
que a principal característica do discurso literário é sua ficcionalidade.
Tal conceito, que não é o único, obviamente, formador da
ideia de literatura, pois existem outros elementos que o acompanham, tem seus
fundamentos na Poética, de Aristóteles, livro escrito por volta de 330 a.C. e
no qual o filósofo afirma que o historiador está preso ao mundo dos fatos
realmente ocorridos, ao passo que o poeta (e entenda-se aqui “escritor”,
palavra que em seu tempo não existia) está livre para reinventar o mundo, isto
é, seu trabalho tem por base a invenção dos fatos, aquilo que poderia
acontecer.
Quando se diz que tal texto está “baseado em fatos reais”,
na verdade, comete-se uma tautologia, pois tudo é baseado em fatos da
realidade, o que não significa relato
fiel dos fatos, como se foram verdadeiros. Houve época em que os
leitores não aceitavam um texto que não se apresentasse como “verdadeiro”.
Hoje, pelo contrário, não se aceita como literário texto que não seja invenção.
* Menalton Braff é escritor, com 21 obras publicadas e
colunista da revista Carta Capital

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