O TIPO NOSTÁLGICO
Não sou muito de
fazer o tipo nostálgico, mas, sem razão aparente, algumas vezes o passado me
pega e passa o dia comigo. Foi o que aconteceu outro dia, quando, procurando um
livro na biblioteca, encontrei outro, da década de 1950, e alguma coisa me
bateu dentro do peito provocando um sentimento indefinível, uma dor não
localizada que já ia me estragando o dia.

A tempo, me lembrei de que era ainda bem jovem quando a
Françoise Sagan tornou-se o furor da juventude literária. Ela, uma francesinha
de 19 anos, fruto da geração pós-guerra, havia lançado um livro que nos parecia
o máximo em modernidade, em civilização decadente, sem saída, fim de linha. Era
Bom dia tristeza, um livro que fazia furor no mundo todo e que tomávamos como
uma espécie de bíblia literária. Líamos e relíamos o livro. Sozinhos ou em
grupo. Era a nossa geração ali estampada. Aliás, era o que nós pensávamos que
deveria ser a nossa geração narrada com uma linguagem simples, ágil, atual. Um
certo sorriso repetiu o sucesso e a Françoise Sagan, tínhamos então certeza,
seria um dos astros eternos no firmamento da literatura.
O livro que, sem querer, encontrei na biblioteca foi Dentro de um mês, dentro de um ano. Lido
naquela época, já não me lembrava mais de nada. Resolvi voltar no tempo e fui
reler o romance.
Um povo de teatro, escritores, burgueses, frequentadores de
bares, gente que trocava o dia pela noite, a boêmia parisiense. O sentimento
predominante: o tédio. Ninguém tem uma perspectiva firme de futuro, tudo parece
um tanto indiferente, os desencontros amorosos, o sofrimento provocado pela
vacuidade, a licenciosidade dos costumes, eis o ambiente sombrio desse livro.

Como poucos, a Françoise Sagan soube captar o espírito de
uma época, o zeitgeist dos anos que
sucederam imediatamente a guerra. Mas o tempo corre, e as dores da guerra
foram-se aliviando, as feridas cicatrizaram. Novas ondas vieram, novos
costumes, crenças novas com suas preocupações.
Ninguém mais fala de Françoise Sagan. Mas ela existiu, ela
mexeu com nossas cabeças durante um bom tempo. E mesmo que não tenha sido uma
estrela de primeira grandeza da literatura, teve seus méritos.
Hoje terminei o convívio com aquele povo entediado e volto a
minhas atividades normais.
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