Esta coluna reúne analises de livros elaboradas por Menalton Braff e publicadas originalmente no site do escritor.
Livro Analisado: Quarup
Livro Analisado: Quarup
Preparação: Prof. Menalton Braff
Autor: Antônio Callado
A Obra:
Quarup, romance publicado em 1967, revela elementos
importantes da sociedade, da cultura e da política brasileira, num período de
nossa história que vai da era Vargas, passando pelos governos de Juscelino e Jânio,
para terminar na época dos governos militares.
Elementos da
narrativa:
Personagens:
Nando - Um jovem padre, o protagonista da história, vive
mergulhado em dúvidas. Sente-se vocacionado para missão entre os índios do
Xingu, mas teme a nudez feminina. Uma amiga, sabendo de seu drama, trata de seduzi-lo,
livrando-o do impedimento. Depois dessa primeira experiência sexual, Nando se
apaixona pela noiva de um amigo, mas nada mais o impede de realizar sua utopia.
Já no Xingu, e depois de constatar a verdadeira situação dos índios, ao
descobrir que o de que precisam é apenas de sobrevivência e não de salvamento
da alma, o protagonista escreve a seu
superior e abandona a batina, tornando-se
tão-somente um indianista. De volta à civilização (muitos anos mais tarde) vai
morar na praia e recusa-se a exercer qualquer atividade a não ser a de
"mestre de amor". Perseguido pela polícia da Ditadura, acaba sendo
torturado até próximo à morte. Salvo por amigos, e depois de alguns meses restabelecendo-se,
parte para a guerrilha, para a busca de sua utopia.
Levindo - Jovem
estudante que milita nas Ligas Camponesas. É noivo da moça por quem Nando se
apaixona. É morto pela polícia no pátio de uma usina.
Francisca - A
noiva de Levindo. Moça bela, rica, que apóia as posições políticas do noivo.
Mas qualquer dificuldade, refugia-se na Europa. É pintora e se interessa também
pelos índios. Em missão no Xingu, onde deve fazer um estudo sobre a forma
física dos índios e deve realizar sonho do noivo, já morto, (chegar ao Centro
Geográfico Brasileiro) ela encontra-se com Nando e a paixão explode, com cenas
de sexo e amor de puro lirismo e beleza. Seu fim é a Europa, de onde não volta
mais.
Leslie e Winifred
- Casal de estudiosos ingleses. Amigos de Nando, padre católico, são a
consciência protestante nas discussões religiosas, em que as duas éticas
(católica e protestante, fé x ação) são expostas. É Winifred quem livra Nando
do peso da castidade.
Hosana - Jovem
padre, amigo de Nando. Revoltado contra celibato. Acaba assassinando seu
superior.
Ramiro - Chefe do
SPI, viciado em lança perfume, acaba maníaco por uma polaca que desaparece nas
selvas. Símbolo da inadequação funcional: sua vocação é a farmácia.
Vanda - Sobrinha
e secretária de Ramiro (nepotismo). Desquitada, tem um caso com Nando.
Fontoura - Indianista politicamente correto. Ele é quem abre
os olhos de Nando para a verdadeira situação do índio no Brasil. Morre bêbado
no Centro Geográfico do Brasil.
Otávio -
Marxista, antigo participante da Coluna Prestes.
Lídia -
Comunista, terceira mulher de Nando.
Sônia - A
polonesa por quem o Ministro da Agricultura arrasta um trem e a quem ele dá um
palacete. É a paixão de Ramiro e Falua (um jornalista). Cansada das
complicações dos homens civilizados, enrabicha-se com um índio (Anta) e some na
floresta.
Falua -
Jornalista. Bêbado, viciado em lança perfume, louco por Sônia.
Januário -
Revolucionário, líder das Ligas Camponesas.
Manuel Tropeiro -
Líder camponês. Quando parte para as guerrilhas no coração do Brasil, Nando vai
com ele.
Espaço:
A ação é iniciada em um mosteiro, em Recife. A fim de obter
autorização do SPI para sua missão no Xingu, Nando desloca-se para o Rio de
Janeiro, onde vai permanecer por bastante tempo atrás da burocracia. Neste tempo,
conhece pessoas e costumes, cheira lança perfume, ama diversas mulheres,
conhece os meandros do poder.
Em seguida (e ocupando a maior parte da narrativa), o espaço
da floresta, uma aldeia (maloca), no Xingu e a expedição de alguns meses pela
floresta até o Centro Geográfico do Brasil.
Recife, novamente, uma casinha na praia, onde Nando torna-se
vagabundo e mestre de amor. A tortura (Nando mártir), a decisão de se engajar
nas guerrilhas.
Tempo:
O início da ação é no período do governo Vargas, pouco antes
de seu suicídio. Getúlio, mergulhado em corrupção e em crise política, está
para assinar um decreto estabelecendo extensa reserva indígena. Com o Crime da
Rua Toneleros, Getúlio suicida-se. Café Filho assume o governo e
Juscelino elege-se em seguida. O período do governo de
Juscelino é narrativamente rápido. Eleito Jânio, sete meses depois tenta um
golpe ao renunciar. O golpe falha, Jango assume o governo e é deposto pelos militares,
que impõem uma ditadura de direita ao Brasil. É no período da ditadura militar
que a ação se encerra, no momento em que Nando e Manuel Tropeiro estão na
estrada para se juntarem aos guerrilheiros.
Efabulação:
O jovem padre pernambucano, Fernando, sonha em realizar a
utopia sonhada no passado pelos jesuítas: o refazimento da aventura humana a partir
do homem primitivo, uma república teocrática e comunista. Um novo Éden na
terra, com os índios, em estado puro, como novos adões.
Seu modelo foram as Missões, no Sul do Brasil, matéria de o
Uraguai, de Basílio da Gama. Prepara-se durante muito tempo para embrenhar-se
na floresta. O principal impedimento para que parta logo são seus receios sexuais:
sente-se fraco, sabe que não vai resistir. Libertado desta tortura, finalmente,
depois de várias peripécias no Rio de Janeiro, embarca para sua nobre missão.
No Xingu, conhece Fontoura e com ele aprende as verdadeiras necessidades dos
índios brasileiros: terra e respeito para suas particularidades. Abandona a
batina. Um grupo de várias pessoas empreende uma expedição ao Centro Geográfico
do Brasil.
Durante a viagem que dura meses, discute-se muito a situação
do Brasil, sobretudo dos índios. Encontram uma tribo já em seus últimos
estertores, vítima de sarampo contraído de garimpeiros. No CGB, ao fincarem o
marco com nossa bandeira, descobrem que o terreno é tomado inteiramente pelas saúvas,
fato que assume proporções de símbolo do próprio Brasil. A saúva não só em seu
sentido denotativo, naturalmente. Frustrado o sonho de Nando, ele volta para
Recife, onde, na companhia de Francisca, passam a alfabetizar trabalhadores
(método Paulo Freire),que no governo de Arrais havia feito este mesmo tipo de
trabalho. Através da educação, envolvem-se na luta entre camponeses e
usineiros, isto é, na tentativa de reorganizar a luta, interrompida com o Golpe
de 1964. Em crise de consciência (Levindo não pode ser esquecido), Francisca
parte novamente para a Europa, deixando Nando sozinho.
O antigo padre ocupa pequena casa herdada dos pais. Passa a
morar na praia e sua principal ocupação e elevar o moral de mulheres ensinando-lhes
o amor. Mas Nando é visado, tem ficha na polícia e quando organiza uma
comilança para comemorar os dez anos da morte de seu amigo Levindo (um revolucionário),
organização civil de direita e a polícia acabam com a festa com muita
pancadaria. Preso, Nando é espancado e supliciado até quase a morte.
Depois de meses de convalescença na casa de Hosana - casado
depois de abandonar a batina - parte para as guerrilhas na companhia de Manuel Tropeiro.
Observações finais:
• Quarup é uma festa indígena, que reúne em um mesmo
ambiente várias tribos. Os festejos contam com lutas e disputas de vários
tipos, comilança e cerimônias em que os mortos são evocados. O objetivo
principal da festa é a eternização dos mortos.
• O romance Quarup é um painel de pouco mais de dez anos da
vida brasileira, escrito em um estilo claro de linguagem correta e agradável. O
texto é intensamente dialogado, valorizando as diferentes opiniões das personagens.
É um romance em que a tônica é a discussão.
• Quarup é um romance engajado (a luta dos camponeses de
Francisco Julião, as experiências sociais de Miguel Arrais, a luta pela
sobrevivência dos índios, a luta da democracia contra a ditadura militar),
aproximandose, neste sentido, dos escritores nordestinos da Geração de 30,
mesmo assim, um romance em que a qualidade literária não é descuidada. O principal
romance de um dos principais romancistas do pós-modernismo brasileiro.
• Temas universais - através de um localismo explícito, que
é a matéria imediata de Antônio Callado, ele atinge o universal. "Aliás,
do mergulho no local e no histórico é que resulta a concretização desses temas universais:
pelo confronto das classes sociais em luta no Nordeste, chegase à temática mais
geral da exploração do homem pelo homem e das centelhas de revolta que
periodicamente acendem fogueiras entre os dominados; pela história individual
do padre Nando, tematiza-se a situação geral da igreja, dos padres e do
intelectual que se debate entre dois mundos; pela sondagem da consciência de
torturadores brasileiros, chega-se a esboçar uma espécie de tratado da maldade,
que nos faz vislumbrar os abismos de todos nós."
O autor: Antônio Callado nasceu em Niterói (RJ), em 1917.
Filho de médico famoso em sua cidade, sua mãe vinha de família de professores,
donos da escola onde o autor fez seus primeiros estudos. Cursou Direito, em
Niterói, mas jamais exerceu a advocacia. Abraçou o jornalismo, como profissão,
e a literatura, como vocação. Foi correspondente de guerra (BBC de Londres),
durante a Segunda Guerra Mundial, e na Guerra do Vietnã, a serviço de jornal brasileiro.
Ainda como jornalista, cobriu eventos internacionais importantes e por várias
vezes viajou até o coração do Brasil, de onde recolheu farto material para seus
romances. Em seus dois primeiros romances, Assunção de Salviano (1954) e A
madona de cedro (1957) tematiza o misticismo popular, a superstição e as
crenças do povo. A partir de Quarup (1967), seus romances tomam cores políticas
e de análise da realidade sócio-cultural brasileira. Vivia-se, então, em pleno regime
militar, movimento contra o qual o autor insurgiu-se, acompanhando a grande
maioria do povo brasileiro e principalmente a intelectualidade.
Além de jornalista e romancista, Antônio Callado foi também
dramaturgo, tendo produzido algumas peças de sucesso de crítica e de público. Foi
um dos maiores escritores pós-modernos do Brasil, tendo falecido, vitimado pelo
câncer, no ano de 1997.

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