sexta-feira, 1 de abril de 2016

UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA

O dia aprazado, o prazo vencido
                          

Não vê a noite anoitecendo o potreiro limpo, de cerca nova, a casa, o galpão. Não vê as sombras apagando a encosta do morro, com o milho empendoando. Não percebe que o canto ensombrecido embaixo do cinamomo acabou de anoitecer. Cabeça baixa, o olhar esparramado arrastando-se pela terra escura. E pensar que, e pensa, e pensar o quê? Inútil qualquer pensamento se a vida é um caminho circular.
− A comida esfriando no prato, Nâncio. Vem pra dentro.

Não responde poraquê é um apelo ilusório, eco apenas de um tempo acabado. A seu lado, a mulher é velha estátua imitando realidade.
Seus passos sobre seu rastro em círculo, na jaula de grades sujas. E pensar o quê?
Pelo meio da tarde eles chegaram enormes, montados em cavalos emersos de algum apocalipse. Da roça, Venâncio os viu à frente da porteira. Apoiou-se no cabo da enxada e esperou. Para onde iriam aqueles dois, se era ali o fim da estrada?
A pena, a lei, o papel; o dia aprazado, o prazo vencido: a angústia.
Abriram a cancela e subiram pelo caminho do potreiro. Venâncio puxou terra com o pé, cobrindo a enxada. Hora estranha de chegar visita.
− Anda logo, Nâncio, a comida esfria.
A brasa do cigarro, vermelha, risca a noite e esconde-se no bojo da mão calejada. Entre as folhas da árvore, a fumaça evanesce. Vinte e seis anos pensando, sonhando, querendo. A um passo Esperança permanece imóvel. Uma sombra como a árvore, como a casa, o capão no potreiro. Uma sombra como a noite, como a voz que ameaça.
Quando entrava no terreiro, a última aragem passou fugindo na direção do poente e de passagem sacudiu a copa do cinamomo. Os dois seguravam as rédeas, mostrando que não tinham vindo para ficar. Venâncio tirou o chapéu, ofereceu chimarrão, convidou-os a entrar.
− Não, a demora é po0uca – disse o mais velho dos dois.
E puxou da guaiaca um maço de papéis.
O entendimento de Venâncio foi pleno e instantâneo, tremeu.
 − A colheita nem começou, o senhor pode ver. Eu só peço um pouco mais de paciência.
Os homens olharam-se rindo, pondo à mostra dentes alvos reluzentes. O mais velho apontou para o papel, para uma linha certa e leu: o dia aprazado, o prazo vencido. Papel de cartório, com todas as assinaturas. Resumiu.
− Mas como é que pode uma coisa dessas? A colheita nem começou! O senhor sabe que não está na época!
A pena, a lei, o papel. O dia aprazado, o prazo vencido.
Venâncio conhecera as estradas e nelas crescera. Lama, geada, poeira endureceram seus pés de guri. Galpões de fazenda, palhoças em beira de granja. Nos caminhos sonhava: um chão que fosse o seu, onde erguesse uma casa e assentasse família. Dos trabalhos atingira os segredos, de todos. Machado, foice, gadanha, arado, rédea de redomão; campo, roça, mato, banhado. Em cada lugar suas marcas, manchas de sangue, do seu, eitos de sua vida.
Esperança pousa a mão no ombro do marido.
− Nâncio, aqueles homens...
De corpo sacudido Venâncio chora e Esperança assustada estremece. Nunca o vira chorar, nem o julgava capaz de uma fraqueza. Quer saber, mas respeita seu homem. Encolhe-se, engole perguntas amargas e volta para casa carregando sua ânsia.
− Semana que vem! – reforçou o mais novo enquanto montava.
Outra vez o galpão da fazenda, a palhoça na beira da granja, a copa espessa de alguma árvore. Estrada nenhuma tem dono: é de quem quiser pisar. Mas não, agora não pode mais. Com mulher e filho, impossível! Como carregá-los pelos caminhos longos da miséria?
Uma aragem tímida volta pelo rumo do ocidente. O cinamomo estremece ao fresco sopro. Esquecida na roça, enterrada, a enxada espera o orvalho túmido, que não tarda.
O estampido interrompe o sono da noite. De olhos secos e grandes cravados em algum abismo, Esperança compreende que seu homem acabava de partir sozinho.

*

Do meu “Caderno de aprendiz”, Na força de mulher. 


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