Esta coluna reúne analises de livros elaboradas por Menalton Braff e publicadas originalmente no site do escritor.O livro analisado nesta postagem é Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha.
A obra
Bom-Crioulo, é o segundo romance do autor. Antes já
publicara A normalista, cuja concepção e execução atendem aos preceitos mais rigidamente
naturalistas. Este livro, Bom-Crioulo, assim como outras obras do autor, não
foi bem recebido pela crítica por razões extraliterárias.
Escrito como vingança da sociedade que o discriminou por razões
de moralidade (ou falsa moralidade), seus escritos ainda mais escandalizaram a
sociedade da época.
Personagens
Amaro - O Bom-Crioulo, era assim chamado por seu
comportamento geralmente cordato. Surgiu ninguém sabia de onde, um negro forte,
jovem musculoso, provavelmente foragido de alguma fazenda. Um escravo fugido.
Quando bebia, contudo, transformava-se numa fera.
Depois de algum tempo como aprendiz de marinheiro, acaba
sendo incorporado à marinha de guerra do Brasil. Como resultado dos meses a bordo
em alto mar, afeiçoa-se por um rapazinho loiro, com quem mantém um caso de
homossexualismo.
Aleixo - Rapazinho franzino, de belos olhos azuis, chega de
Santa Catarina, onde fora pescador com seu pai. Ingressa também na marinha e desde
o início torna-se protegido de Amaro, até ceder aos seus instintos sexuais.
D. Carolina - Portuguesa de seus trinta e cinco, quarenta
anos, de carnes ainda rijas, bem fornida de carnes e com sede de homem. É dona
da pensão onde Bom-Crioulo arranja seu ninho para viver feliz a
"eternidade" com Aleixo.
Espaço
A ação inicia a bordo de uma corveta, e boa parte do que
acontece, acontece a bordo. A partir do quinto capítulo, entretanto, as ações
vão concentrar-se, na pensão da Rua da Misericórdia, Rio de Janeiro. Rua da região
portuária, com seus velhos sobrados, padarias, movimento de gente pobre.
Tempo
O tempo histórico pode ser considerado como sendo o final do
século XIX. O que o narrador fornece, no início do segundo capítulo, é que a
ação transcorre antes da abolição. Quanto ao tempo narrativo, abrange um período
aproximado de um ano. Trata-se de narrativa acelerada, com pouco aprofundamento
psicológico das personagens.
Ponto de vista
O romance é escrito em terceira pessoa, com narrador do tipo
demiúrgico, interferente, pois dirige a narrativa fazendo observações
valorativas.
Apesar disso, e surpreendentemente, não faz comentários
moralistas a respeito do tema que desenvolve.
Estrutura
O escritor naturalista segue mais ou menos de maneira rígida
um mesmo esquema narrativo. Em primeiro lugar apresenta o ambiente, o espaço onde
transcorrerá a ação. Descreve-o de maneira tal que o receptor consiga
"sentir" o espaço. Em segundo lugar as personagens são mostradas. Com
este objetivo, Adolfo Caminha inicia seu romance de maneira panorâmica e é o
único momento em que a linearidade se quebra. Ao mostrar o ambiente (uma
corveta), narra uma cena de castigos corporais sem que se conheçam as personagens.
Ao iniciar o segundo capítulo, então, o narrador volta para fornecer
informações a respeito das origens das personagens. A estrutura externa é
formada por doze capítulos apenas numerados.
Tema
Construído racionalmente, o romance desenrola-se com lógica
e minúcia, como uma tese científica. Tudo está encaixado logicamente, com força
de necessidade natural. Todos os detalhes visam ao único objetivo de desenvolver
o tema: o homossexualismo.
Ação
Amaro, um negro musculoso, jovem e muito forte, chega ao Rio
de Janeiro. Ninguém sabe de onde ele vem, mas presume-se que seja escravo
fugido de alguma fazenda do interior. Ingressa como aprendiz de marinheiro na
Marinha Brasileira. Aleixo, rapazinho franzino, de olhos azuis, o Bonitinho,
como o chama D. Carolina, vem de Santa Catarina para ingressar na Marinha
também.
O convívio, o isolamento no mar, a beleza do rapaz, tudo isso, como uma
imposição biológica, impulsiona Amaro, o Bom-Crioulo, na direção de Aleixo. No
início ele apenas protege o rapazinho. Chega a sofrer duzentas e cinqüenta
chibatadas como castigo por ter batido em outro marinheiro que fizera algum mal
a seu protegido. Com o tempo, a afeição torna-se atração sexual violenta, animal,
verdadeiramente selvagem.
Uma noite, Amaro consegue de Aleixo o que pretendia.
A partir de então não o larga mais. Quando atracam, seu sonho começa a ser
realizado: um quartinho, em uma pensão na Rua da Misericórdia, cuja
proprietária, D. Carolina, era amiga sua. Lá montariam seu ninho de amor. Alguns
meses vivem dessa maneira. Trabalham na corveta, voltam para o quartinho. Um
dia, porém, fulmina-os a notícia:
Amaro estava sendo transferido para outro navio. Agora só se
encontrariam duas, três vezes por semana.
Os encontros, entretanto, não acontecem.
Os dias de folga dos dois não coincidem mais. Aleixo, que já não suportava mais
o ciúme e as ameaças de Amaro, só ajuda o desencontro. D. Carolina, mulher
forte, saudável, mas carente, seduz Aleixo, que se deixa conduzir mais uma vez,
tornando-se amante da proprietária da pensão. Vai morar no quarto dela. O medo,
contudo, não o abandona. E se um dia Amaro os encontra e descobre tudo?
Amaro, por outro lado, revolta-se com a distância em que
vive de seu amor, embriaga-se, um dia, e envolve-se em uma briga. É preso no
navio e açoitado até perder os sentidos. Enviado para o hospital naval, lá fica
mofando por muito tempo. É o tempo em que Aleixo, que de nada sabe, vive um
verdadeiro paraíso.
Amaro envia um bilhete (escrito por outro paciente do
hospital) para Aleixo, mas D. Carolina intercepta-o e não o mostra a Aleixo. Um
dia Amaro consegue fugir. Suspeitava de qualquer coisa na vida de Aleixo, mas
não sabe ao certo de que se trata. Na Rua da Misericórdia investiga a vida de
seu amigo e descobre que se tornara amante da portuguesa, D. Carolina. Espera
na rua o momento em que Aleixo vai saindo para o serviço e, ali mesmo, na
frente da pensão, esfaqueia o antigo amante. Assim termina o romance:
"Ninguém se importava com 'o outro', com o negro, que
lá ia, rua abaixo, triste e desolado, entre baionetas, à luz quente da manhã:
todos, porém, todos queriam 'ver o cadáver', analisar o ferimento, meter o
nariz na chaga...
"Mas, um carro rodou, todo lúgubre, todo fechado, e a
onda dos curiosos foi se espalhando, se espalhando, até cair tudo na monotonia
habitual, no eterno vaivém."
O autor
Adolfo Caminha nasceu em Aracati, Ceará, em 1867. Com dez
anos perde a mãe e, adoecendo, é mandado para Fortaleza. Em 1883 transfere-se para
o Rio de Janeiro, onde ingressa na Escola Naval. Por causa de seus ideais
abolicionistas e republicanos, quase não chega a receber a patente de
guarda-marinha, pela qual havia estudado tantos anos. Em 1886, publicou um
livro de poemas: Vôos incertos.
Alegando questões de saúde, pede transferência para o Ceará,
onde deverá dedicar-se intensamente à vida cultural da cidade. É desta época sua
adesão ao Naturalismo, influenciado pela literatura de Zola, Antero de Quental
e Aluísio Azevedo.
Apaixonado pela esposa de um tenente do exército brasileiro,
e correspondido nesta paixão, é obrigado a abandonar a Marinha para ligar-se a
essa mulher. Foi o fim de sua carreira militar, o que teve como consequência o
início de tremendas dificuldades financeiras. Isolado em meio ao escândalo que
seus amores provocaram em Fortaleza, transfere-se para o Rio, onde vai trabalhar
como amanuense do Tesouro Federal.
Pobre, aumenta seus vencimentos colaborando no jornal Gazeta
de Notícias. Atacado de tuberculose, morre no Rio de Janeiro em 1897, antes de completar
trinta anos de idade.
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