domingo, 10 de julho de 2016

CONTO DO MENALTON NO ESCRITABLOG


 Menalton Braff*

Quando acordou e viu que todos os passageiros desciam levando suas bagagens de mão, Airton pegou sua mochila e também desceu. Na escada já sentia no rosto o vento frio, cujas rajadas mexiam com seus cabelos. Olhou o prédio largo e alto do aeroporto, examinou com atenção uma imensa placa metálica e concluiu que se tratava provavelmente do nome, ou do próprio aeroporto ou da cidade aonde chegaram. Os sinais gráficos quase gigantescos da placa, entretanto, não lhe diziam nada. Mas não parou, seguindo o caminho trilhado pelos outros passageiros.

A maioria encaminhou-se para a sala das esteiras, onde as malas seriam distribuídas. Na porta de correr, Airton parou indeciso. Não se lembrava de haver trazido bagagem além de sua mochila. Por isso continuou até o imenso saguão, esperando encontrar algo ou alguém que lhe desse alguma pista do lugar em que se encontrava. Guichês de chek in, bares, uma livraria. E muita gente com cara de seres comuns, caminhando apressadamente na ida como na volta, a cabeça erguida e a mão amassando a orelha com um celular. Todos eles falando ao mesmo tempo sem se importarem de incomodar ou de serem incomodados. As palavras, se é que eram palavras, eram tão estranhas quanto os sinais gráficos percebidos na chegada.

Ninguém ria.

Airton descobriu uma cadeira vaga ao lado de uma mesinha à espera de cliente. Ah, sim, sua mochila não era muito leve, e as pernas latejavam destreinadas em andar a volta, sem rumo, como numa dança cujo destino é o mesmo objetivo: dançar. Apressou-se a tirar uma ficha, como via outros passageiros fazerem. Percebeu claramente que o caixa se dirigia a ele, por causa de um olhar dirigido a sua testa, e não entendeu o que lhe dizia, mas supôs. Apontou para o balcão de vidro e disse em sua língua que queria um daqueles ali. Com o dedo indicou a quantidade e o caixa, surpreso, olhou para cima. Novamente teve de supor, sem entender o preço. Abriu a carteira e mostrou ao homem com cara de pessoa
comum, mas que não portava um celular, uma cédula, uma das de maior valor que tinha. O homem, que além de cara de pessoa comum, aparentava idade avançada, começou a rir. Ria e dizia alguma coisa impossível de ser língua de gente. Em pouco tempo a cena já tinha atraído umas dez pessoas que falavam, riam e apontavam para sua cédula e seu valor.

Mas Airton já estava com fome. 

Tentou uma segunda lanchonete, de onde sentia o cheiro de carne assada a subir da chapa. Não teve público, como na primeira tentativa, todavia o resultado não foi diferente. A mulher que tomava conta do caixa parecia dizer alguma coisa que Airton supunha ser o preço, e sacudia a cabeça com um sorriso bondoso nos olhos um pouco espremidos e nos lábios invadindo suas bochechas. Novamente não foi servido.

Foi até o fim do saguão, deixando para trás duas escadas rolantes e os painéis cobertos de sinais gráficos luminosos e de várias cores, supostamente letreiros com indicações de voos, destinos e horários de que tanto necessitava para se localizar, mas cujos significados não alcançava. No fim do saguão, pelo menos, encontrou uma cadeira onde descansar.

Quem não reconhece num aeroporto uma aeromoça?, Airton se perguntou ao mesmo tempo em que se jogava à frente de uma jovem com o cabelo em coque, saia e blusa do mesmo tecido e cor, e, na cabeça, um casquete decorado por duas asas de uma ave metálica. Espantada, a moça parou e ficou mirando atenta aquele homem à sua frente. Airton falava três línguas, uma nacional e duas de uso praticamente universal. A aeromoça continuava espantada e seus olhos muito abertos eram dois pontos de interrogação.

Duas horas de descanso, Airton teve uma ideia e se culpou por até então não ter pensado nisto: levar sua passagem até algum guichê, onde fatalmente receberia alguma informação. Ao levantar-se e ajeitar a mochila nas costas, ele sorriu satisfeito, a solução ali, a poucos passos de distância. Os funcionários da primeira companhia consultada pegaram seu bilhete, chamaram outros funcionários, conversaram, provavelmente falavam pois mexiam os lábios e faziam gestos com as mãos, por fim devolveram-lhe a passagem dizendo muitas coisas, quase gritando, sacudindo a cabeça.

Só depois da quinta tentativa, Airton desistiu.

Cansado e com fome, a noite escondia-se por trás da iluminação interna do aeroporto, concluiu que já se tinham passado muitas horas. O movimento de pessoas com a cabeça erguida e um celular grudado no ouvido havia diminuído. Só então lembrou-se de que trazia também, preso à cinta, um aparelho daqueles. Finalmente, pensou.

O celular continuava desligado, pois Airton se esquecera completamente dele desde o desembarque. Ligou e esperou algum tempo. Pequenas luzes e belas palavras familiares foram aparecendo na pequena tela, para renovação de sua esperança. Sentiu que a testa estava úmida e procurou o lenço nos bolsos. Por fim, ficou um tempo parado, em dúvida − não se lembrava de haver trazido algum. Acabou usando a manga da blusa, julgando-se um boçal pelo comportamento grosseiro, mas perdoando-se ao refletir que a situação altera os padrões e valores.

As luzes se estabilizaram na tela do celular: ligado. Airton discou o número provável de sua casa. O aparelho, entretanto, não pegava sinal. Andou alguns passos, sempre de olho na tela, e nada se alterou. Atravessou uma porta de vidro, aberta com sua aproximação, e descobriu que já era tarde da noite. Seu celular, mesmo debaixo do céu, não encontrava sinal.

Airton voltou ao saguão e pôs-se a gritar, fazendo gestos angulosamente agressivos com os braços. Ninguém pareceu perceber sua presença, até que um homem se aproximou falando ao telefone. Não demorou muito para que aparecessem dois supostos guardas, pois estavam uniformizados e portavam revólveres pendurados da cintura. Cada um dos dois pegou em um dos braços de Airton e o levaram embora.


* Menalton Braff nasceu em Taquara (RS) e radicou-se em São Paulo (Capital e interior) há mais de quarenta anos. Formado em Letras, com pós lato sensu exerceu o magistério superior antes de escolher o interior onde se dedicou ao ensino médio. Tem 23 livros publicados, sendo nove infantojuvenis e catorze de literatura geral (contos e romances).

Conquistou o Jabuti, livro do ano em 2000, foi finalista da Jornada de Passo Fundo em 2003, finalista do Jabuti (contos) em 2007 e finalista do Jabuti e do Prêmio São Paulo de Literatura (romance) em 2008, mesmo ano em que seu “A muralha de Adriano” obteve menção honrosa no Prêmio Casa de las Américas, la Habana. Em 2015, a Primavera Editorial lançou seu mais recente livro, a coletânea de contos “O peso da gravata e outros contos”.

Fones: (16) 3987 2312 (16) 99722 0546

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