(Cíntia Moscovich*)
Para Geni Moscovich
Paracelsus was a student of Correspondences:
‘As above, so below.’ The zodiac in the sky is imprinted in the body. ‘The
galaxa goes through the belly.’ (Jeanette Winterson)
Caldos, bifes, purês, tudo a pequena Ana recusava. A mãe,
cozinheira de mão cheia, gastava horas na cozinha: kneidlech, guefiltefish,
varenikes, as mais trabalhosas iguarias que só uma iídiche mame em seu desvelo
é capaz de elaborar. No almoço, entretanto, só a cara de nojo da filha. Um
desgosto, ainda mais que comida era coisa sagrada. E cara: o dinheiro da
família era sempre bem escasso devido aos minguados vencimentos do pai.
Ana cresceu magrinha, portanto, a pele sem cor,
desconsiderando, cabalmente, as súplicas sofridas da mãe. Mas cresceu. Arranjou
um emprego, ainda que modesto, e saiu da casa paterna, sob protestos chorosos,
a pretexto de morar mais perto do trabalho, assim não gastava em condução.
Muito embora o pai argumentasse feericamente que seria mais econômico se Ana
continuasse vivendo com a
família, a moça alugou um apartamentozinho barato,
sala e quarto. Endividou-se; com certo orgulho pela nova independência,
querendo livrar a família de mais despesas, ia comprando em prestações o
essencial para a nova casa. A geladeira, no entanto, pouco era usada, pura e
fria desolação; os armários da cozinha feito ocos e escuros buracos.
No trabalho, os colegas logo descobriram que Ana era uma
dessas pessoas a quem, não sem certa amargura e inveja, se deve chamar de
inapetente. Com ela era assim: um suco pela manhã, uma salada no almoço; não
raro, se esquecia de jantar. Por conseqüência, e disso também todos ficaram
sabendo, era inábil na cozinha. Não gostava de comer, não gostava de cozinhar,
e ponto. Chegou a ganhar fama. Para Ana, tudo estava muito bem como estava, não
tinha importância que zombassem dela, comida e panelas nunca foram mesmo seu
forte. A única lástima que lhe restava era a de não ganhar o suficiente para
ajudar os pais.
Mas, uma noite, sonhou que preparava feijões. Picava as
cebolas, esmagava os alhos com a faca, cortava os pedaços de toucinho, as mãos
luzindo da gordura, a manta branca envolvendo a fina camada de carne, doando-se
em sua exuberância de coisa adiposa. A seguir, reunia paios e lingüiças,
passava-os por água fervente, colocando-os na caçarola de ferro — imensa. Lá
dentro, os feijões borbulhavam no líquido negro e espesso, cada vez mais
espesso, e o aroma da substância invadia a cozinha. Depois, obedecendo a alguma
ordem subterrânea, na qual a vida também era sucessiva, punha-se a comer, prato
fundo e colher, como uma desesperada.
Despertou em meio a suores, com o abdômen distendido e rijo,
um enjôo revoltava-lhe o estômago. Sentia na boca as ardências dos temperos, a
língua pastosa das gorduras. Arrotos e flatulências acompanharam-lhe a manhã, e
ela se sentia lenta e pesada, como se, durante a noite, houvesse partilhado a
mesa de Pantagruel.
Na noite seguinte, sonhou com macarrão. Primeiro o molho:
fritava o guisado numa panela alta, punha as folhinhas de louro, sal, pimenta,
manjerona, salsa, os tomates sem pele, a carne desprendendo o suco precioso,
adquirindo aos poucos a cor violenta dos refogados. Em outra panela, era cozer
a massa. Despejava o azeite, a fervura fazia dançar a mistura de água e óleo,
tudo para receber as hastes de macarrão, a massa dócil vergando-se ao contato
com o líquido que ebulia, os fios revolvendo-se no cozimento. Depois,
cronologia dos fatos, punha-se a comer feito uma condenada.
Pela manhã, todos os incômodos do dia anterior, gases,
queimores, uma sensação de profundo mal-estar. O estômago, em evoluções muito
esquisitas, emitia ruídos aquosos e revoltados, que acabavam por levá-la às
pressas ao banheiro.
Foi daí, e só no segundo dia, que ela teve consciência de
que algo — talvez perverso — estava acontecendo. Contou a história,
constrangida, a um colega de trabalho. O rapaz achou aquilo tudo um
despropósito e sentenciou que ninguém podia ter sonhos tão nítidos e de efeitos
tão devastadores, tudo era mero excesso de imaginação: ela falava da memória
dos sonhos, e não dos sonhos propriamente ditos. Em suma: a comilança era
matéria de ficção, ela se impressionara com alguma coisa, decerto com a própria
mesquinha inapetência.
Mas os sonhos continuaram, cada vez mais claros, cada vez
mais deletérios. Resolveu telefonar para a mãe, perguntando o que deveria
fazer. A mãe estranhou a doidice, principalmente a parte das receitas, que Ana
declinava tintim por tintim. Estranhou, muito em especial, o preparo do feijão,
com aquela opulência de paios, linguiças e toucinhos: mas e desde quando ela
comia carne de porco? Ana tentou explicar-se, mas se era sonho, se não comia de
verdade, se não tinha nenhum controle, se passava mal ao despertar? E, pior do
que tudo, estava engordando.
— Engordando? — exclamou a mãe, entre espantada e feliz.
Ana respondeu que sim. Desde que aqueles desvarios
começaram, já quase uma semana, devia ter aumentado uns dois quilos. A mãe
suspirou: como ela estava engordando, não era doença, nada com que se
preocupar, uma bênção, a gordura. Se ela não comia quando era pequena, que ao
menos comesse agora, mesmo que em sonhos. Pediu desculpas para a filha, estava
de saída, ia levando um chá para a dona Dora, a vizinha, aquela que tinha
neurose de guerra, estava gripada, a pobre não contava com quem lhe alcançasse
um mísero copo d’água, os filhos podiam às vezes ser muito ingratos, ah, e
falando em ingratidão, ela que viesse almoçar no domingo, já havia duas semanas
que não dava o ar da graça, além do mais o pai andava preocupadíssimo, muito
mais do que de hábito, estavam devendo uma fortuna para o português da farmácia
e para seu Jacó do armazém, Deus tinha de olhar para baixo ao menos uma vez
nessa vida. A filha alarmou-se, algo tinham de fazer, o português e seu Jacó
bem que podiam esperar um pouco, o salário estava por vir, descontando o
aluguel e as prestações talvez sobrasse alguma coisa, uma vergonha ficar
devendo para os outros, ainda mais para um patrício. A mãe foi singela e
rápida:
— O Senhor há de prover. — E desligou.
Ana desorientou-se. Não bastassem seus tormentos noturnos,
ainda precisava, mais do que nunca, ajudar seus pais. Mas como? Como, se o
aluguel engolia quase todo o salário, se devia ainda mais duas parcelas do sofá
da sala? Suas noites passaram a ser de redobrada angústia, as preocupações e os
medos multiplicados. Desperta, maquinava em como conseguir dinheiro; dormindo,
aqueles sonhos pavorosos se repetiam. Passou a ler até altas horas, tentando
não pensar, tentando não pegar no sono. Lia, lia, lia. Mas, vencida, acabava
adormecendo. E sonhando: quiches, panquecas, tortas, rocamboles, suflês. Um
horror, oito horas exatas de inferno gastronômico, e sem um tostão a mais no
bolso.
Uma manhã, depois de uma tainha estofada com ameixas e
alcaparras e de uma farofa de nozes e cerejas, ela teve a ideia. E se
procurasse o rabino?
Pois o rabino era um homem baixo, de ventre protuberante e
olhos espertos. Fez com que Ana sentasse. Ela acomodou-se na poltrona, meio sem
jeito, sentindo a saia ajustada demais à cintura. Ele, com uma docilidade
bíblica, perguntou o que a trazia ali. A moça respondeu, tentando atenuar os
acontecimentos, que andava sonhando coisas esquisitas.
— Que tipo de coisas? — a curiosidade do rabino fora
atiçada.
— Comida.
O sábio homem remexeu-se no sofá: não havia nada demais em
sonhar com comida. Aliás, não havia nada demais em sonhar, os sonhos eram
reflexos da atividade do dia, estava no Talmud. Ana tentou ser mais explícita:
nunca gostara de comer, não sabia cozinhar e sonhava que comia feito uma
condenada e que cozinhava como se fosse uma expert. E ainda tinha coisa pior:
— Na receita de feijão, coloco carne de porco.
— Porco? — o rabino enojou-se.
— Paios, linguiças, toucinhos.
Ele achou que era mesmo uma abominação. Mas se aquilo só
acontecia em uma receita e ela não chegava realmente a comer porco, não tinha
muita importância. Todo o caso, aliás, não devia ser levado em conta. Sonho era
sonho, tudo ia passar. Era só caso de desligar-se do assunto. Ana não teve
coragem, nenhuma, de contrariá-lo; manteve-se calada, tentando conter um arroto.
Ao sacerdote, então, ocorreu a paciência e a piedade de
contar-lhe uma história: José, o iluminado que fora vendido ao faraó do Egito
pelos irmãos. Ana interessou-se, sentando-se, excitada, na beira da poltrona. A
saia continuava apertando-lhe a cintura. E daí?, quis saber ela, incitando o
religioso a prosseguir. Daí, ele continuou, José sabia interpretar os
pensamentos que o sono trazia. Desvendou os sonhos do faraó, aqueles de que
todos os sábios da corte não alcançavam o sentido. Ela não pôde conter a
pergunta: que tipo de sonho? O rabino respondeu:
— Você deve se lembrar: o das vacas gordas e o das vacas
magras.
Ana ajeitou a saia, que deixava entrever as coxas já
roliças; recordava-se vagamente, mais ou menos, como era mesmo? O estudioso foi
adiante:
— Pois as vacas gordas eram os sete anos de prosperidade que
abençoariam a terra do Egito. As vacas magras simbolizavam os anos de penúria
que se seguiriam.
Sim, ela agora era capaz de recompor na memória os
prodígios: a abastança e a escassez, um aviso divino que só uma mente dotada
podia alcançar. José, o iluminado.
O rabino perguntou se era tudo. Ela respondeu que também
estava preocupada com os pais e com a falta de dinheiro. O santo homem
tranquilizou-a, aqueles não eram tempos fáceis para ninguém, o Senhor haveria
de prover, confiasse na Providência, a mão esquerda tira, a mão direita dá. Fez
questão de acompanhá-la até a porta.
Ana foi-se embora, pensando naquilo, na Providência e nas
vacas, gordas e magras. Mas, afinal, o que seus sonhos, onde vacas só apareciam
em bistecas e costelas, queriam dizer?
No domingo, na reunião de família, todos a acharam bem,
corada e forte, sinal inequívoco de saúde. O pai, um pouco abatido, queixou-se
do dono da farmácia, um português muito do comerciante, e de seu Jacó, um
desalmado que vivia cobrando as dívidas, um atrasozinho não ia tirar pedaço
deles dois, mas tudo ia passar, era hora do almoço, que comessem em paz. No
entanto, com as glutonarias da noite anterior, Ana não tocou em nenhum dos
quitutes da mãe. Havia sonhado com uma torta de alho-poró, feita com massa
podre e queijo cremoso. Contou em detalhes a receita, e o pai se surpreendeu
que a filha pudesse recitar tal quantidade de ingredientes e modos de preparo.
A irmã mais velha maravilhou-se. Ainda mais quando Ana contou da visita ao
rabino e da história das vacas gordas e das vacas magras.
A primeira a ter a ideia foi a mãe. Vacas gordas, aquele era
o sinal. Vacas gordas. E ergueu as mãos para o alto, exclamando-se,
dramaticamente, em iídiche.
Ana a princípio não quis nem saber, mas compreendendo aos
poucos, aos poucos se dando conta do que acontecia, cedeu aos misteriosos
desígnios e aceitou a proposta da família.
As dívidas com o português da farmácia e com seu Jacó foram
quitadas, não devem nada a ninguém, benditos sejam os Céus. Ana continua a
engordar a olhos vistos, mas parece não ter mais incômodo com o estado obeso.
Tampouco se importa de chegar estremunhada ao novo trabalho: as atividades
começam muito cedo, pela manhã. Já contrataram duas auxiliares, e o
restaurante, instalado no miolo do Bom Fim, prospera celeremente, filas e filas
de patrícios ávidos pelas maravilhas. Não usam carne de porco, nenhum animal
que a Lei condene, nenhum tipo de alimento que o Livro abomine. Estão ganhando
rios de dinheiro. Rios.
Mas economizam centavo por centavo. Aquela coisa de vacas
gordas e de vacas magras. Sabe-se lá.
*Cíntia Moscovich
(Porto Alegre, 15 de março de 1958) é uma escritora e jornalista brasileira,
mestre em Teoria Literária e ministrante de oficinas literárias.
Carreira literária
Conquistou o primeiro lugar no Concurso de Contos Guimarães
Rosa, instituído pelo Departamento de Línguas Ibéricas da Radio France
Internationale, de Paris, ao qual concorreu com mais de mil e cem outros
escritores de língua portuguesa.
Em 1996, a autora publicou sua primeira obra individual,
Reino das Cebolas, uma co-edição da Prefeitura Municipal de Porto Alegre e da
Editora Mercado Aberto, que mereceu a indicação ao Prêmio Jabuti da Câmara
Brasileira do Livro. O livro foi reeditado em 2002 em pocket pela L&PM
Editores, de Porto Alegre. Um dos contos que integram a coletânea foi traduzido
para o inglês, e faz parte de Jewish Voices in Brazilian Literature: A
Prophetic Discourse of Alterity, uma antologia organizada por Nelson H. Vieirae
que reúne escritores brasileiros de ascendência judaica.
Em 1998, pela L&PM Editores, lançou a novela Duas
iguais, que recebeu o Prêmio Açorianos de Literatura, na modalidade de
Narrativa Longa, em 1999. O livro foi reeditado pela Record em 2004.
Em outubro de 2000, também pela L&PM Editores,
lançou o livro de contos Anotações durante o incêndio, que tem apresentação de
Moacyr Scliar e reúne onze textos de temáticas diversas, com destaque ao
judaísmo e à condição feminina, merecendo outra vez o Prêmio Açorianos de
Literatura.
Em setembro de 2004, lançou Arquitetura do arco-íris,
reunião de contos, e que mereceu o terceiro lugar na categoria de contos e
crônicas do Prêmio Jabuti de Literatura, além de ser uma das dez finalistas ao
Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira, e uma das três finalistas à
primeira edição do Prêmio Bravo! Prime de Cultura de 2005.
(Extraído de Wikepedia)

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