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sexta-feira, 11 de novembro de 2016

CONTOS CORRENTES

A fome e a vontade de comer
(Cíntia Moscovich*)

Para Geni Moscovich

Paracelsus was a student of Correspondences: ‘As above, so below.’ The zodiac in the sky is imprinted in the body. ‘The galaxa goes through the belly.’ (Jeanette Winterson)

Caldos, bifes, purês, tudo a pequena Ana recusava. A mãe, cozinheira de mão cheia, gastava horas na cozinha: kneidlech, guefiltefish, varenikes, as mais trabalhosas iguarias que só uma iídiche mame em seu desvelo é capaz de elaborar. No almoço, entretanto, só a cara de nojo da filha. Um desgosto, ainda mais que comida era coisa sagrada. E cara: o dinheiro da família era sempre bem escasso devido aos minguados vencimentos do pai.

Ana cresceu magrinha, portanto, a pele sem cor, desconsiderando, cabalmente, as súplicas sofridas da mãe. Mas cresceu. Arranjou um emprego, ainda que modesto, e saiu da casa paterna, sob protestos chorosos, a pretexto de morar mais perto do trabalho, assim não gastava em condução. Muito embora o pai argumentasse feericamente que seria mais econômico se Ana continuasse vivendo com a
família, a moça alugou um apartamentozinho barato, sala e quarto. Endividou-se; com certo orgulho pela nova independência, querendo livrar a família de mais despesas, ia comprando em prestações o essencial para a nova casa. A geladeira, no entanto, pouco era usada, pura e fria desolação; os armários da cozinha feito ocos e escuros buracos.

No trabalho, os colegas logo descobriram que Ana era uma dessas pessoas a quem, não sem certa amargura e inveja, se deve chamar de inapetente. Com ela era assim: um suco pela manhã, uma salada no almoço; não raro, se esquecia de jantar. Por conseqüência, e disso também todos ficaram sabendo, era inábil na cozinha. Não gostava de comer, não gostava de cozinhar, e ponto. Chegou a ganhar fama. Para Ana, tudo estava muito bem como estava, não tinha importância que zombassem dela, comida e panelas nunca foram mesmo seu forte. A única lástima que lhe restava era a de não ganhar o suficiente para ajudar os pais.

Mas, uma noite, sonhou que preparava feijões. Picava as cebolas, esmagava os alhos com a faca, cortava os pedaços de toucinho, as mãos luzindo da gordura, a manta branca envolvendo a fina camada de carne, doando-se em sua exuberância de coisa adiposa. A seguir, reunia paios e lingüiças, passava-os por água fervente, colocando-os na caçarola de ferro — imensa. Lá dentro, os feijões borbulhavam no líquido negro e espesso, cada vez mais espesso, e o aroma da substância invadia a cozinha. Depois, obedecendo a alguma ordem subterrânea, na qual a vida também era sucessiva, punha-se a comer, prato fundo e colher, como uma desesperada.

Despertou em meio a suores, com o abdômen distendido e rijo, um enjôo revoltava-lhe o estômago. Sentia na boca as ardências dos temperos, a língua pastosa das gorduras. Arrotos e flatulências acompanharam-lhe a manhã, e ela se sentia lenta e pesada, como se, durante a noite, houvesse partilhado a mesa de Pantagruel.

Na noite seguinte, sonhou com macarrão. Primeiro o molho: fritava o guisado numa panela alta, punha as folhinhas de louro, sal, pimenta, manjerona, salsa, os tomates sem pele, a carne desprendendo o suco precioso, adquirindo aos poucos a cor violenta dos refogados. Em outra panela, era cozer a massa. Despejava o azeite, a fervura fazia dançar a mistura de água e óleo, tudo para receber as hastes de macarrão, a massa dócil vergando-se ao contato com o líquido que ebulia, os fios revolvendo-se no cozimento. Depois, cronologia dos fatos, punha-se a comer feito uma condenada.
Pela manhã, todos os incômodos do dia anterior, gases, queimores, uma sensação de profundo mal-estar. O estômago, em evoluções muito esquisitas, emitia ruídos aquosos e revoltados, que acabavam por levá-la às pressas ao banheiro.

Foi daí, e só no segundo dia, que ela teve consciência de que algo — talvez perverso — estava acontecendo. Contou a história, constrangida, a um colega de trabalho. O rapaz achou aquilo tudo um despropósito e sentenciou que ninguém podia ter sonhos tão nítidos e de efeitos tão devastadores, tudo era mero excesso de imaginação: ela falava da memória dos sonhos, e não dos sonhos propriamente ditos. Em suma: a comilança era matéria de ficção, ela se impressionara com alguma coisa, decerto com a própria mesquinha inapetência.

Mas os sonhos continuaram, cada vez mais claros, cada vez mais deletérios. Resolveu telefonar para a mãe, perguntando o que deveria fazer. A mãe estranhou a doidice, principalmente a parte das receitas, que Ana declinava tintim por tintim. Estranhou, muito em especial, o preparo do feijão, com aquela opulência de paios, linguiças e toucinhos: mas e desde quando ela comia carne de porco? Ana tentou explicar-se, mas se era sonho, se não comia de verdade, se não tinha nenhum controle, se passava mal ao despertar? E, pior do que tudo, estava engordando.

— Engordando? — exclamou a mãe, entre espantada e feliz.

Ana respondeu que sim. Desde que aqueles desvarios começaram, já quase uma semana, devia ter aumentado uns dois quilos. A mãe suspirou: como ela estava engordando, não era doença, nada com que se preocupar, uma bênção, a gordura. Se ela não comia quando era pequena, que ao menos comesse agora, mesmo que em sonhos. Pediu desculpas para a filha, estava de saída, ia levando um chá para a dona Dora, a vizinha, aquela que tinha neurose de guerra, estava gripada, a pobre não contava com quem lhe alcançasse um mísero copo d’água, os filhos podiam às vezes ser muito ingratos, ah, e falando em ingratidão, ela que viesse almoçar no domingo, já havia duas semanas que não dava o ar da graça, além do mais o pai andava preocupadíssimo, muito mais do que de hábito, estavam devendo uma fortuna para o português da farmácia e para seu Jacó do armazém, Deus tinha de olhar para baixo ao menos uma vez nessa vida. A filha alarmou-se, algo tinham de fazer, o português e seu Jacó bem que podiam esperar um pouco, o salário estava por vir, descontando o aluguel e as prestações talvez sobrasse alguma coisa, uma vergonha ficar devendo para os outros, ainda mais para um patrício. A mãe foi singela e rápida:

— O Senhor há de prover. — E desligou.

Ana desorientou-se. Não bastassem seus tormentos noturnos, ainda precisava, mais do que nunca, ajudar seus pais. Mas como? Como, se o aluguel engolia quase todo o salário, se devia ainda mais duas parcelas do sofá da sala? Suas noites passaram a ser de redobrada angústia, as preocupações e os medos multiplicados. Desperta, maquinava em como conseguir dinheiro; dormindo, aqueles sonhos pavorosos se repetiam. Passou a ler até altas horas, tentando não pensar, tentando não pegar no sono. Lia, lia, lia. Mas, vencida, acabava adormecendo. E sonhando: quiches, panquecas, tortas, rocamboles, suflês. Um horror, oito horas exatas de inferno gastronômico, e sem um tostão a mais no bolso.

Uma manhã, depois de uma tainha estofada com ameixas e alcaparras e de uma farofa de nozes e cerejas, ela teve a ideia. E se procurasse o rabino?

Pois o rabino era um homem baixo, de ventre protuberante e olhos espertos. Fez com que Ana sentasse. Ela acomodou-se na poltrona, meio sem jeito, sentindo a saia ajustada demais à cintura. Ele, com uma docilidade bíblica, perguntou o que a trazia ali. A moça respondeu, tentando atenuar os acontecimentos, que andava sonhando coisas esquisitas.

— Que tipo de coisas? — a curiosidade do rabino fora atiçada.

— Comida.

O sábio homem remexeu-se no sofá: não havia nada demais em sonhar com comida. Aliás, não havia nada demais em sonhar, os sonhos eram reflexos da atividade do dia, estava no Talmud. Ana tentou ser mais explícita: nunca gostara de comer, não sabia cozinhar e sonhava que comia feito uma condenada e que cozinhava como se fosse uma expert. E ainda tinha coisa pior:

— Na receita de feijão, coloco carne de porco.

— Porco? — o rabino enojou-se.

— Paios, linguiças, toucinhos.

Ele achou que era mesmo uma abominação. Mas se aquilo só acontecia em uma receita e ela não chegava realmente a comer porco, não tinha muita importância. Todo o caso, aliás, não devia ser levado em conta. Sonho era sonho, tudo ia passar. Era só caso de desligar-se do assunto. Ana não teve coragem, nenhuma, de contrariá-lo; manteve-se calada, tentando conter um arroto.

Ao sacerdote, então, ocorreu a paciência e a piedade de contar-lhe uma história: José, o iluminado que fora vendido ao faraó do Egito pelos irmãos. Ana interessou-se, sentando-se, excitada, na beira da poltrona. A saia continuava apertando-lhe a cintura. E daí?, quis saber ela, incitando o religioso a prosseguir. Daí, ele continuou, José sabia interpretar os pensamentos que o sono trazia. Desvendou os sonhos do faraó, aqueles de que todos os sábios da corte não alcançavam o sentido. Ela não pôde conter a pergunta: que tipo de sonho? O rabino respondeu:

— Você deve se lembrar: o das vacas gordas e o das vacas magras.

Ana ajeitou a saia, que deixava entrever as coxas já roliças; recordava-se vagamente, mais ou menos, como era mesmo? O estudioso foi adiante:

— Pois as vacas gordas eram os sete anos de prosperidade que abençoariam a terra do Egito. As vacas magras simbolizavam os anos de penúria que se seguiriam.

Sim, ela agora era capaz de recompor na memória os prodígios: a abastança e a escassez, um aviso divino que só uma mente dotada podia alcançar. José, o iluminado.

O rabino perguntou se era tudo. Ela respondeu que também estava preocupada com os pais e com a falta de dinheiro. O santo homem tranquilizou-a, aqueles não eram tempos fáceis para ninguém, o Senhor haveria de prover, confiasse na Providência, a mão esquerda tira, a mão direita dá. Fez questão de acompanhá-la até a porta.

Ana foi-se embora, pensando naquilo, na Providência e nas vacas, gordas e magras. Mas, afinal, o que seus sonhos, onde vacas só apareciam em bistecas e costelas, queriam dizer?

No domingo, na reunião de família, todos a acharam bem, corada e forte, sinal inequívoco de saúde. O pai, um pouco abatido, queixou-se do dono da farmácia, um português muito do comerciante, e de seu Jacó, um desalmado que vivia cobrando as dívidas, um atrasozinho não ia tirar pedaço deles dois, mas tudo ia passar, era hora do almoço, que comessem em paz. No entanto, com as glutonarias da noite anterior, Ana não tocou em nenhum dos quitutes da mãe. Havia sonhado com uma torta de alho-poró, feita com massa podre e queijo cremoso. Contou em detalhes a receita, e o pai se surpreendeu que a filha pudesse recitar tal quantidade de ingredientes e modos de preparo. A irmã mais velha maravilhou-se. Ainda mais quando Ana contou da visita ao rabino e da história das vacas gordas e das vacas magras.

A primeira a ter a ideia foi a mãe. Vacas gordas, aquele era o sinal. Vacas gordas. E ergueu as mãos para o alto, exclamando-se, dramaticamente, em iídiche.

Ana a princípio não quis nem saber, mas compreendendo aos poucos, aos poucos se dando conta do que acontecia, cedeu aos misteriosos desígnios e aceitou a proposta da família.

As dívidas com o português da farmácia e com seu Jacó foram quitadas, não devem nada a ninguém, benditos sejam os Céus. Ana continua a engordar a olhos vistos, mas parece não ter mais incômodo com o estado obeso. Tampouco se importa de chegar estremunhada ao novo trabalho: as atividades começam muito cedo, pela manhã. Já contrataram duas auxiliares, e o restaurante, instalado no miolo do Bom Fim, prospera celeremente, filas e filas de patrícios ávidos pelas maravilhas. Não usam carne de porco, nenhum animal que a Lei condene, nenhum tipo de alimento que o Livro abomine. Estão ganhando rios de dinheiro. Rios.


Mas economizam centavo por centavo. Aquela coisa de vacas gordas e de vacas magras. Sabe-se lá.


*Cíntia Moscovich (Porto Alegre, 15 de março de 1958) é uma escritora e jornalista brasileira, mestre em Teoria Literária e ministrante de oficinas literárias.

Carreira literária

Conquistou o primeiro lugar no Concurso de Contos Guimarães Rosa, instituído pelo Departamento de Línguas Ibéricas da Radio France Internationale, de Paris, ao qual concorreu com mais de mil e cem outros escritores de língua portuguesa.

Em 1996, a autora publicou sua primeira obra individual, Reino das Cebolas, uma co-edição da Prefeitura Municipal de Porto Alegre e da Editora Mercado Aberto, que mereceu a indicação ao Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro. O livro foi reeditado em 2002 em pocket pela L&PM Editores, de Porto Alegre. Um dos contos que integram a coletânea foi traduzido para o inglês, e faz parte de Jewish Voices in Brazilian Literature: A Prophetic Discourse of Alterity, uma antologia organizada por Nelson H. Vieirae que reúne escritores brasileiros de ascendência judaica.
Em 1998, pela L&PM Editores, lançou a novela Duas iguais, que recebeu o Prêmio Açorianos de Literatura, na modalidade de Narrativa Longa, em 1999. O livro foi reeditado pela Record em 2004.

Em outubro de 2000, também pela L&PM Editores, lançou o livro de contos Anotações durante o incêndio, que tem apresentação de Moacyr Scliar e reúne onze textos de temáticas diversas, com destaque ao judaísmo e à condição feminina, merecendo outra vez o Prêmio Açorianos de Literatura.
Em setembro de 2004, lançou Arquitetura do arco-íris, reunião de contos, e que mereceu o terceiro lugar na categoria de contos e crônicas do Prêmio Jabuti de Literatura, além de ser uma das dez finalistas ao Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira, e uma das três finalistas à primeira edição do Prêmio Bravo! Prime de Cultura de 2005.
(Extraído de Wikepedia)

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