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sexta-feira, 25 de novembro de 2016

CONTOS CORRENTES

Do farfalhar dos coqueiros
(Viviane de Santana Paulo*)                                                               

A morte de uma paciente na sala de operação foi a gota d’água! A jovem possuía apenas vinte e sete anos, chegou com fortes dores de cabeça, foi acometida de um aneurisma cerebral e faleceu no meio da operação. Estou acostumada a salvar vidas e com a tenacidade incomplacente da morte. Neste caso, acreditei que podia salvá-la sem problemas, estava tudo correndo bem. Foi um susto quando ela teve uma parada cardíaca súbita em anestesia geral consequência da anomalia da artéria coronária esquerda. De uma forma ou de outra ela morreria cedo. Quanto a mim, eu estava extremamente exausta. Minha prima possui uma bela casa de veraneio à beira da praia, na Bahia, com a grande piscina azul, e convidou-me a passar uma semana descansando ao som das folhagens dos coqueiros e das ondas do mar. Foi o que eu fiz. Agora estou regressando a São Paulo, para o meu marido e meus dois filhos, e daqui a três dias reinicio o trabalho no hospital. Minha prima e o seu marido me levaram ao aeroporto. Cheguei cedo, o voo sairia daqui a duas horas. Depois do check in, eles me fizeram companhia durante meia hora, conversamos sobre a semana agradável que eu passei na casa da praia, a promessa de eu voltar com a família, no feriado do dia 25 de janeiro, aniversário de São Paulo, e o controle da diabetes da minha mãe. _Ela está melhor, obedecendo as minhas instruções. Parou de esconder os doces no fundo do armário. Não sei se ela arranjou outro esconderijo, mas desde que eu preparo doces com açúcar artificial e um pouquinho de açúcar mascavo ela se satisfaz com isso.

_ Ah, que bom! Fico mais tranquila! A tia age como criança, às vezes. Constatou minha prima.
Quando foram embora, entrei no portão de embarque, cheguei ao meu gate e permaneci sentada lendo um livro até a hora da chamada. O tempo passou rápido, o enredo do livro era empolgante. Entrei no avião e me acomodei no meu assento. Depois daquelas instruções de emergência o avião decolou. Admirei o azul claro do céu e as nuvens brancas espalhadas à volta. O avião fez a curva e a Ilha de Itaparica apareceu colada à janela, a vegetação esverdeada, as moradias, as praias, o mar. Em seguida a nave apontou para o alto e não pude ver mais nada além do azul e branco das nuvens. Em uma determinada altura escutei o sinal que apaga o símbolo do cinto de segurança, entretanto continuei com ele como é aconselhável. Mais um olhar pela janela, lá embaixo a cidade se limitava na faixa onde começava o chão líquido do mar. Em seguida, peguei o livro de dentro da minha bolsa e voltei a ler. Não fui muito adiante, uma mulher, a quatro fileiras atrás de mim, começou a passar mal, o passageiro ao seu lado chamou a comissária de bordo. Olhei para trás, por curiosidade.  A mulher vomitou, tinha náuseas. Certamente, por causa do voo, pensei, não seria nada grave. A stewardess alta, maquiada e uniformizada apareceu solícita e profissional. Sua colega de trabalho a acompanhava. Os passageiros sentados ao lado da mulher haviam se levantado e esperavam, em pé, no corredor. Alguém gritou se havia algum médico no avião. Deitaram a mulher no chão do corredor estreito. Ela possuía dificuldade em respirar, estava perdendo os sentidos. A comissária de bordo segurava as suas pernas para o alto, a outra trouxera um copo de água com sal. Guardei o livro. Logo agora não estou em posse da minha maleta médica. Não deveria dar ouvidos à minha prima!” Pensei me censurando porque deixei me convencer por ela a não trazer a maleta. “Afinal, você não está indo para o exterior e nós aqui conhecemos os melhores médicos da cidade. Não vai acontecer nada. Ninguém fica andando com maleta médica o tempo todo só porque é medico!” Disse ela na ocasião.  Pedi licença ao passageiro do lado. _Sou médica, expliquei-lhe para que ele abrisse caminho mais rápido. _Sou médica, com licença, disse eu aos passageiros obstruindo o corredor. Imediatamente me deram passagem. Cheguei perto da enferma, duas comissárias de bordo estavam debruçadas sobre a mulher e se afastaram, na medida do possível, no estreito corredor. Ajoelhei-me ao lado da mulher de aproximadamente trinta e poucos anos, os cabelos pretos despenteados, estendida no chão. Não era gorda nem magra. Medi os pulsos, estavam fracos, o suor transpirava na testa, ela tinha dificuldade em respirar, estava pálida, a boca seca, manchas esverdeadas à volta.
São poucas as ocasiões em que estou sem a maleta médica, agora ela me teria sido útil. Ocorreu-me mais uma vez. Eu poderia medir a pressão com o aparelho de medir pressão, as batidas do coração com o estetoscópio, usar o otoscópio para verificar se havia algo no ouvido, teria sido possível dar-lhe um pouco de éter para cheirar e levantar a pressão.
_A senhora está sentindo alguma dor?
_Sim, respondeu ela com a fisionomia contorcida.
_Onde?
_Estou com tontura e dor de cabeça, não estou conseguindo respirar muito bem, minha barriga dói.
Apertei-lhe a barriga. _Onde está doendo, aqui? Ela não respondeu, continuava respirando com dificuldade e tremendo. Apertei o apêndice, o estômago, o intestino. _Não sei direito, ela respondeu gemendo. Apertei-lhe o fígado. Segui apalpando os órgãos do abdômen, mas parece que a dor não era pontual. Coloquei minha mão em sua testa, estava quente. Abri os olhos para ver as pupilas, mas a luz ruim da cabine não me permitiu averiguar o tamanho das pupilas. Se eu tivesse com o termômetro e a lanterna clínica... _O que a senhora comeu?
_Comi um lanche no aeroporto?
_A que horas?
_Há uma ou duas horas, mais ou menos.
_O que tinha no lanche? Ela falava com dificuldade, estava pálida e com ânsia de vômito.  _Presunto, queijo, alface. E vomitou mais uma vez no saquinho de plástico. Passageiros se aproximaram oferecendo saquinhos de plástico. Ouvi na minha retaguarda exclamações de nojo. _A senhora tomou algum remédio? Algum estimulante? Ela não respondeu e continuou gemendo.
_A senhora toma algum remédio? Era importante saber e pelo gemido e movimento da cabeça deduzi que sim.
_É alguma coisa grave? Interrompeu a comissária de bordo preocupada. _Podemos seguir o voo ou devemos regressar? Olhei para ela pensativa. O voo demoraria duas horas, mas se a mulher estivesse com intoxicação poderia ser fatal durante duas horas. Por outro lado, poderia ser algo menos grave. Mas eu não podia ter certeza.
_Acho melhor regressarmos. E logo ouvi o suspiro de decepção dos passageiros à volta, alguém ao fundo expressou um palavrão e outros assustados com a situação inédita trocavam opiniões entre si.
_Como voltarmos? Eu vou chegar atrasada, minha mãe vai me buscar no aeroporto!
_Eu combinei de jantar com meu sócio. É um jantar importante. Não posso faltar de jeito nenhum.
_Amanhã preciso trabalhar bem cedo, tenho que estar em casa cedo.
A comissária de bordo foi avisar o comandante e as outras duas arrumaram um lugar confortável para a mulher se sentar até regressarmos ao aeroporto. No auto falante foi dado o aviso para nos sentarmos e apertarmos o cinto de segurança. “Estamos com uma emergência e precisamos voltar ao aeroporto. Pedimos desculpas pelo transtorno. No aeroporto os senhores receberão as instruções para o próximo voo a São Paulo.” Precisou-se de algumas trocas de lugares para eu permanecer próxima da mulher que ficou com o assento de uma comissária de bordo, ao lado da porta. Ali havia espaço e era mais confortável para ela, e eu podia monitorar o seu estado de saúde. A mulher mantinha os olhos fechados, concentrada na respiração. Coloquei em sua testa um pano molhado com água gelada.
_Ah, meu Deus! Mais essa agora! Eu tinha reservado um lugar na janela! Reclamou um homem de barba, boa aparência, esportivo e arrogante.
_Desculpe senhor. Isso é uma emergência. Explicou a comissária de bordo sob uma voz suave e de súplica.
_Sim, e como é que eu fico? Como fica a minha situação? Eu reservei um lugar na janela e agora vou ter que me sentar no corredor?
_Melhor o senhor se sentar, senão teremos mais problemas. Não basta que precisamos voltar? Reclamou a mãe, com duas crianças pequenas, sentada na fileira do meio.
_É só por alguns minutos! Assegurou-lhe a simpática comissária de bordo. Ele se conformou indignado e sentou-se no corredor.
O comandante avisou a torre, poucos minutos depois recebemos a permissão de pouso. Uma ambulância esperava na porta do avião. Ajudei a mulher a descer as escadas e dar alguns passos até a ambulância. A comissária nos acompanhou trazendo a bolsa e os pertences da doente. A ambulância partiu com a mulher. Em seguida, os passageiros desceram do avião e fomos encaminhados à sala VIP. Era preciso esperar a próxima autorização de decolagem por causa do reposicionamento das aeronaves.
Na agradável sala VIP soava baixinho uma música MPB em meio aos sofás confortáveis e um barzinho ao fundo servia bebidas e alguns lanches simples. Sentei-me em um assento na fileira encostada na parede do lado esquerdo. Um casal passou por mim e me olhou com ar de antipatia. Um homem barrigudo veio me dizer que se aquela mulher estivesse realmente passando mal não teria descido as escadas a pé. Outro homem bem vestido, cabelos fartos grisalhos, alto, magro, revelou-me que também era médico e que a situação não era tão grave, a mulher estava apenas com pressão baixa. _A senhora exagerou no seu diagnóstico. Não era preciso fazer o avião voltar. A mulher já está melhor. A senhora não reparou? Fiquei admirada em saber que ele era médico. Quando perguntaram se havia médicos no voo somente eu me levantei. _O senhor poderia ter se pronunciado antes, uma vez que o senhor está tão certo de não ter sido nada grave! Falei ligeiramente irritada, franzindo as sobrancelhas. _É, eu deveria mesmo!  Ele respondeu se afastando, indo sentar-se ao lado da esposa, em um sofá a volta de uma mesinha, no centro do recinto. O jovem do assento da janela surgiu na minha frente, sua silhueta alta ocultava a lâmpada acesa no teto. Agora pude observá-lo mais atentamente enquanto ele falava, possuía os olhos esverdeados, a boca carnuda, estava bem vestido, aparentava ter uns trinta e poucos anos. Ele me perguntou desde quando eu era médica, onde eu tinha tirado o meu diploma. Fitei-o nos olhos, de baixo para cima, uma vez que ele era alto e eu estava sentada. _Responderei a sua pergunta depois que você responder a minha: e se acontecesse algo assim com a sua mãe? Ele se virou sem me responder e seguiu em direção ao bar.
Observei os passageiros do voo. Os jovens estavam ocupados mexendo no celular, jogavam ou escreviam mensagens. Os mais velhos estavam sentados e, embora eu não distinguisse o que falavam, pela fisionomia identifiquei que estavam insatisfeitos e desabafavam uns com os outros. Alguns passageiros esperavam em pé e circulavam preocupados com seus compromissos.
O belo rapaz começou a reclamar com o funcionário do bar, queria uma bebida alcóolica de graça. Os passageiros tinham direito a uma bebida não alcoólica e um pacotinho de biscoito ou salgado de graça.
 _Saí prejudicado, chegarei atrasado a São Paulo, estou sendo prejudicado por causa de uma médica que comprou o seu diploma e agora não posso sequer tomar uma bebida de graça?! Eu não vou pagar nada, chama o seu chefe, chama o seu chefe! O funcionário estava inseguro, não podia deixar o bar e ir chamar o chefe, tentou acalmar o cliente e pediu paciência. Mas em vão. Por sorte, uma mulher interferiu e se propôs a pagar a bebida. O belo rapaz sentiu-se desconsertado e pagou ele mesmo as bebidas, uma para a mulher loira, cabelos tingidos, roupa sensual, maquiagem pesada no rosto, e outra para ele. Sentaram-se em um sofá, perto do bar, e ficaram conversando, não sem, vez ou outra, levando o copo de bebida à boca, lançar um olhar de desdém para mim.
A mãe com as duas crianças aparentava estar levemente nervosa. Uma das crianças chorava e ela andava de um lado ao outro, cantando e balançando nos braços o menino de uns dois anos com a chupeta na boca. A menina de uns cinco anos estava tranquila, brincava com um ursinho de pelúcia, de joelhos no chão e debruçada em um assento, e o tempo todo tirava os cabelos pretos cacheados do rosto com a mão direita. A presilha estava caindo da ponta de um cacho. Ela falava com o ursinho algo ininteligível, pegava os salgadinhos do pacotinho e dava para o ursinho comer e em seguida comia ela mesma. O bebê parou de chorar. A mãe continuou a caminhada e a cantoria. Os passageiros acomodaram-se, alguns em pé telefonavam no celular para avisar do atraso. As vozes se misturavam no ambiente. Eu possuía a impressão de que todos me fitavam com olhar de reprovação, mas ignorei e resolvi pegar o livro para ler após ouvir duas mulheres ao meu lado, a três bancos vagos, falar da falta de profissionalismo dos médicos de hoje. _Não é só porque são médicos que estão certos. E a gente não pode fazer tudo o que eles querem, não é? Agora estamos aqui perdendo tempo.
Quando tirei o livro da bolsa a menina do ursinho se aproximou de mim sorridente. _Oi!
_Oi! Respondi também sorrindo e já ia lhe perguntar qual o nome do ursinho. Mas ela, com a vozinha de criança, quis saber se a mulher estava bem.
_Sim, ela está bem agora!
_Ela não vai morrer, né? Perguntou-me com ar preocupado e triste.
_Não. Ela não vai morrer não. Só estava passando mal. Acho que comeu alguma coisa estragada. Menti, minha suspeita era de intoxicação devido a algum medicamento que ela tomava. A boca seca, as manchas esverdeadas em volta da boca, as dores no abdômen, os tremores no corpo, o suor frio... eram indícios.
_Ah! Ela estava com muita dor?
_Sim, mas com certeza deram um medicamento para ela não sentir mais dor. Vão cuidar dela no hospital e ela vai ficar bem. A menina sorriu. _E ela vem no avião com a gente de novo?
_Acho que não. Ela precisa descansar agora. A menina olhou para o ursinho sem saber o que dizer, pensava alguma coisa. _Como se chama o seu ursinho? Perguntei-lhe querendo mudar de assunto, falar de coisas menos sérias. _Moli.
_Que bonito este nome!
_Se o Moli tiver dor de barriga no avião você vai ajudá-lo também?
_Claro que sim. Não se preocupe! Tranquilizei-a surpreendida com a pergunta. O importante para a menina era ter alguém por perto para ajudar. E a menina se afastou, saltitando e sorrindo, foi novamente para o lado da mãe. Abri o livro, o ruído de vozes falando ao celular, os olhares desagradáveis, os comentários inconvenientes ficaram para trás, eu possuía os olhos baixos no livro aberto, a ressonância da vozinha da criança no meu ouvido e um imperceptível sorriso nos lábios.

*Viviane de Santana Paulo (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros, Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Em parceria com Floriano Martins, Em silêncio (Fortaleza, CE: ARC Edições, 2014) e Abismanto (poemas, Sol Negro Edições, Natal/RN, 2012). Participa das antologias Roteiro de Poesia Brasileira -Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e da Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007). Publica poemas em revistas e jornais entre eles, Suplemento Literário de Minas Gerais, Inimigo Rumor, Jornal Rascunho, Poesia Sempre e Coyote; assim como nas revistas Argos e Alforja (México). Em 2012, participa do VIII Festival Internacional de Poesia em Granada, Nicarágua, e em 2016, do XX Festival Internacional “Noites de Poesia”de Curtea de Arges, Romênia. Vive em Berlim.


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