Do farfalhar dos coqueiros
(Viviane de Santana Paulo*)
A morte de uma paciente na sala de operação foi a
gota d’água! A jovem possuía apenas vinte e sete anos, chegou com fortes dores
de cabeça, foi acometida de um aneurisma cerebral e faleceu no meio da
operação. Estou acostumada a salvar vidas e com a tenacidade incomplacente da
morte. Neste caso, acreditei que podia salvá-la sem problemas, estava tudo
correndo bem. Foi um susto quando ela teve uma parada cardíaca súbita em
anestesia geral consequência da anomalia da artéria coronária esquerda. De uma
forma ou de outra ela morreria cedo. Quanto a mim, eu estava extremamente
exausta. Minha prima possui uma bela casa de veraneio à beira da praia, na
Bahia, com a grande piscina azul, e convidou-me a passar uma semana descansando
ao som das folhagens dos coqueiros e das ondas do mar. Foi o que eu fiz. Agora
estou regressando a São Paulo, para o meu marido e meus dois filhos, e daqui a
três dias reinicio o trabalho no hospital. Minha prima e o seu marido me
levaram ao aeroporto. Cheguei cedo, o voo sairia daqui a duas horas. Depois do check in, eles me fizeram companhia
durante meia hora, conversamos sobre a semana agradável que eu passei na casa
da praia, a promessa de eu voltar com a família, no feriado do dia 25 de
janeiro, aniversário de São Paulo, e o controle da diabetes da minha mãe. _Ela
está melhor, obedecendo as minhas instruções. Parou de esconder os doces no
fundo do armário. Não sei se ela arranjou outro esconderijo, mas desde que eu
preparo doces com açúcar artificial e um pouquinho de açúcar mascavo ela se
satisfaz com isso.
_ Ah, que bom! Fico mais tranquila! A tia age como
criança, às vezes. Constatou minha prima.
Quando foram embora, entrei no portão de embarque,
cheguei ao meu gate e permaneci
sentada lendo um livro até a hora da chamada. O tempo passou rápido, o enredo
do livro era empolgante. Entrei no avião e me acomodei no meu assento. Depois
daquelas instruções de emergência o avião decolou. Admirei o azul claro do céu
e as nuvens brancas espalhadas à volta. O avião fez a curva e a Ilha de
Itaparica apareceu colada à janela, a vegetação esverdeada, as moradias, as
praias, o mar. Em seguida a nave apontou para o alto e não pude ver mais nada
além do azul e branco das nuvens. Em uma determinada altura escutei o sinal que
apaga o símbolo do cinto de segurança, entretanto continuei com ele como é
aconselhável. Mais um olhar pela janela, lá embaixo a cidade se limitava na
faixa onde começava o chão líquido do mar. Em seguida, peguei o livro de dentro
da minha bolsa e voltei a ler. Não fui muito adiante, uma mulher, a quatro
fileiras atrás de mim, começou a passar mal, o passageiro ao seu lado chamou a
comissária de bordo. Olhei para trás, por curiosidade. A mulher vomitou, tinha náuseas. Certamente,
por causa do voo, pensei, não seria nada grave. A stewardess alta, maquiada e uniformizada apareceu solícita e
profissional. Sua colega de trabalho a acompanhava. Os passageiros sentados ao
lado da mulher haviam se levantado e esperavam, em pé, no corredor. Alguém
gritou se havia algum médico no avião. Deitaram a mulher no chão do corredor
estreito. Ela possuía dificuldade em respirar, estava perdendo os sentidos. A
comissária de bordo segurava as suas pernas para o alto, a outra trouxera um
copo de água com sal. Guardei o livro. Logo agora não estou em posse da minha
maleta médica. Não deveria dar ouvidos à minha prima!” Pensei me censurando
porque deixei me convencer por ela a não trazer a maleta. “Afinal, você não
está indo para o exterior e nós aqui conhecemos os melhores médicos da cidade.
Não vai acontecer nada. Ninguém fica andando com maleta médica o tempo todo só
porque é medico!” Disse ela na ocasião.
Pedi licença ao passageiro do lado. _Sou médica, expliquei-lhe para que
ele abrisse caminho mais rápido. _Sou médica, com licença, disse eu aos
passageiros obstruindo o corredor. Imediatamente me deram passagem. Cheguei
perto da enferma, duas comissárias de bordo estavam debruçadas sobre a mulher e
se afastaram, na medida do possível, no estreito corredor. Ajoelhei-me ao lado
da mulher de aproximadamente trinta e poucos anos, os cabelos pretos
despenteados, estendida no chão. Não era gorda nem magra. Medi os pulsos,
estavam fracos, o suor transpirava na testa, ela tinha dificuldade em respirar,
estava pálida, a boca seca, manchas esverdeadas à volta.
São poucas as ocasiões em que estou sem a maleta
médica, agora ela me teria sido útil. Ocorreu-me mais uma vez. Eu poderia medir
a pressão com o aparelho de medir pressão, as batidas do coração com o
estetoscópio, usar o otoscópio para verificar se havia algo no ouvido, teria
sido possível dar-lhe um pouco de éter para cheirar e levantar a pressão.
_A senhora está sentindo alguma dor?
_Sim, respondeu ela com a fisionomia contorcida.
_Onde?
_Estou com tontura e dor de cabeça, não estou
conseguindo respirar muito bem, minha barriga dói.
Apertei-lhe a barriga. _Onde está doendo, aqui? Ela
não respondeu, continuava respirando com dificuldade e tremendo. Apertei o apêndice,
o estômago, o intestino. _Não sei direito, ela respondeu gemendo. Apertei-lhe o
fígado. Segui apalpando os órgãos do abdômen, mas parece que a dor não era
pontual. Coloquei minha mão em sua testa, estava quente. Abri os olhos para ver
as pupilas, mas a luz ruim da cabine não me permitiu averiguar o tamanho das
pupilas. Se eu tivesse com o termômetro e a lanterna clínica... _O que a
senhora comeu?
_Comi um lanche no aeroporto?
_A que horas?
_Há uma ou duas horas, mais ou menos.
_O que tinha no lanche? Ela falava com dificuldade,
estava pálida e com ânsia de vômito.
_Presunto, queijo, alface. E vomitou mais uma vez no saquinho de
plástico. Passageiros se aproximaram oferecendo saquinhos de plástico. Ouvi na
minha retaguarda exclamações de nojo. _A senhora tomou algum remédio? Algum
estimulante? Ela não respondeu e continuou gemendo.
_A senhora toma algum remédio? Era importante saber
e pelo gemido e movimento da cabeça deduzi que sim.
_É alguma coisa grave? Interrompeu a comissária de
bordo preocupada. _Podemos seguir o voo ou devemos regressar? Olhei para ela
pensativa. O voo demoraria duas horas, mas se a mulher estivesse com
intoxicação poderia ser fatal durante duas horas. Por outro lado, poderia ser
algo menos grave. Mas eu não podia ter certeza.
_Acho melhor regressarmos. E logo ouvi o suspiro de
decepção dos passageiros à volta, alguém ao fundo expressou um palavrão e
outros assustados com a situação inédita trocavam opiniões entre si.
_Como voltarmos? Eu vou chegar atrasada, minha mãe
vai me buscar no aeroporto!
_Eu combinei de jantar com meu sócio. É um jantar
importante. Não posso faltar de jeito nenhum.
_Amanhã preciso trabalhar bem cedo, tenho que estar
em casa cedo.
A comissária de bordo foi avisar o comandante e as
outras duas arrumaram um lugar confortável para a mulher se sentar até
regressarmos ao aeroporto. No auto falante foi dado o aviso para nos sentarmos
e apertarmos o cinto de segurança. “Estamos com uma emergência e precisamos
voltar ao aeroporto. Pedimos desculpas pelo transtorno. No aeroporto os
senhores receberão as instruções para o próximo voo a São Paulo.” Precisou-se
de algumas trocas de lugares para eu permanecer próxima da mulher que ficou com
o assento de uma comissária de bordo, ao lado da porta. Ali havia espaço e era
mais confortável para ela, e eu podia monitorar o seu estado de saúde. A mulher
mantinha os olhos fechados, concentrada na respiração. Coloquei em sua testa um
pano molhado com água gelada.
_Ah, meu Deus! Mais essa agora! Eu tinha reservado
um lugar na janela! Reclamou um homem de barba, boa aparência, esportivo e
arrogante.
_Desculpe senhor. Isso é uma emergência. Explicou a
comissária de bordo sob uma voz suave e de súplica.
_Sim, e como é que eu fico? Como fica a minha
situação? Eu reservei um lugar na janela e agora vou ter que me sentar no
corredor?
_Melhor o senhor se sentar, senão teremos mais
problemas. Não basta que precisamos voltar? Reclamou a mãe, com duas crianças
pequenas, sentada na fileira do meio.
_É só por alguns minutos! Assegurou-lhe a simpática
comissária de bordo. Ele se conformou indignado e sentou-se no corredor.
O comandante avisou a torre, poucos minutos depois
recebemos a permissão de pouso. Uma ambulância esperava na porta do avião.
Ajudei a mulher a descer as escadas e dar alguns passos até a ambulância. A
comissária nos acompanhou trazendo a bolsa e os pertences da doente. A
ambulância partiu com a mulher. Em seguida, os passageiros desceram do avião e
fomos encaminhados à sala VIP. Era preciso esperar a próxima autorização de
decolagem por causa do reposicionamento das aeronaves.
Na agradável sala VIP soava baixinho uma música MPB
em meio aos sofás confortáveis e um barzinho ao fundo servia bebidas e alguns
lanches simples. Sentei-me em um assento na fileira encostada na parede do lado
esquerdo. Um casal passou por mim e me olhou com ar de antipatia. Um homem
barrigudo veio me dizer que se aquela mulher estivesse realmente passando mal
não teria descido as escadas a pé. Outro homem bem vestido, cabelos fartos
grisalhos, alto, magro, revelou-me que também era médico e que a situação não
era tão grave, a mulher estava apenas com pressão baixa. _A senhora exagerou no
seu diagnóstico. Não era preciso fazer o avião voltar. A mulher já está melhor.
A senhora não reparou? Fiquei admirada em saber que ele era médico. Quando
perguntaram se havia médicos no voo somente eu me levantei. _O senhor poderia
ter se pronunciado antes, uma vez que o senhor está tão certo de não ter sido
nada grave! Falei ligeiramente irritada, franzindo as sobrancelhas. _É, eu
deveria mesmo! Ele respondeu se
afastando, indo sentar-se ao lado da esposa, em um sofá a volta de uma mesinha,
no centro do recinto. O jovem do assento da janela surgiu na minha frente, sua
silhueta alta ocultava a lâmpada acesa no teto. Agora pude observá-lo mais
atentamente enquanto ele falava, possuía os olhos esverdeados, a boca carnuda,
estava bem vestido, aparentava ter uns trinta e poucos anos. Ele me perguntou
desde quando eu era médica, onde eu tinha tirado o meu diploma. Fitei-o nos
olhos, de baixo para cima, uma vez que ele era alto e eu estava sentada.
_Responderei a sua pergunta depois que você responder a minha: e se acontecesse
algo assim com a sua mãe? Ele se virou sem me responder e seguiu em direção ao
bar.
Observei os passageiros do voo. Os jovens estavam
ocupados mexendo no celular, jogavam ou escreviam mensagens. Os mais velhos
estavam sentados e, embora eu não distinguisse o que falavam, pela fisionomia
identifiquei que estavam insatisfeitos e desabafavam uns com os outros. Alguns
passageiros esperavam em pé e circulavam preocupados com seus compromissos.
O belo rapaz começou a reclamar com o funcionário do
bar, queria uma bebida alcóolica de graça. Os passageiros tinham direito a uma
bebida não alcoólica e um pacotinho de biscoito ou salgado de graça.
_Saí
prejudicado, chegarei atrasado a São Paulo, estou sendo prejudicado por causa
de uma médica que comprou o seu diploma e agora não posso sequer tomar uma
bebida de graça?! Eu não vou pagar nada, chama o seu chefe, chama o seu chefe!
O funcionário estava inseguro, não podia deixar o bar e ir chamar o chefe,
tentou acalmar o cliente e pediu paciência. Mas em vão. Por sorte, uma mulher
interferiu e se propôs a pagar a bebida. O belo rapaz sentiu-se desconsertado e
pagou ele mesmo as bebidas, uma para a mulher loira, cabelos tingidos, roupa
sensual, maquiagem pesada no rosto, e outra para ele. Sentaram-se em um sofá,
perto do bar, e ficaram conversando, não sem, vez ou outra, levando o copo de
bebida à boca, lançar um olhar de desdém para mim.
A mãe com as duas crianças aparentava estar
levemente nervosa. Uma das crianças chorava e ela andava de um lado ao outro,
cantando e balançando nos braços o menino de uns dois anos com a chupeta na
boca. A menina de uns cinco anos estava tranquila, brincava com um ursinho de
pelúcia, de joelhos no chão e debruçada em um assento, e o tempo todo tirava os
cabelos pretos cacheados do rosto com a mão direita. A presilha estava caindo
da ponta de um cacho. Ela falava com o ursinho algo ininteligível, pegava os
salgadinhos do pacotinho e dava para o ursinho comer e em seguida comia ela
mesma. O bebê parou de chorar. A mãe continuou a caminhada e a cantoria. Os
passageiros acomodaram-se, alguns em pé telefonavam no celular para avisar do atraso.
As vozes se misturavam no ambiente. Eu possuía a impressão de que todos me
fitavam com olhar de reprovação, mas ignorei e resolvi pegar o livro para ler
após ouvir duas mulheres ao meu lado, a três bancos vagos, falar da falta de
profissionalismo dos médicos de hoje. _Não é só porque são médicos que estão
certos. E a gente não pode fazer tudo o que eles querem, não é? Agora estamos
aqui perdendo tempo.
Quando tirei o livro da bolsa a menina do ursinho se
aproximou de mim sorridente. _Oi!
_Oi! Respondi também sorrindo e já ia lhe perguntar
qual o nome do ursinho. Mas ela, com a vozinha de criança, quis saber se a
mulher estava bem.
_Sim, ela está bem agora!
_Ela não vai morrer, né? Perguntou-me com ar
preocupado e triste.
_Não. Ela não vai morrer não. Só estava passando
mal. Acho que comeu alguma coisa estragada. Menti, minha suspeita era de
intoxicação devido a algum medicamento que ela tomava. A boca seca, as manchas
esverdeadas em volta da boca, as dores no abdômen, os tremores no corpo, o suor
frio... eram indícios.
_Ah! Ela estava com muita dor?
_Sim, mas com certeza deram um medicamento para ela
não sentir mais dor. Vão cuidar dela no hospital e ela vai ficar bem. A menina
sorriu. _E ela vem no avião com a gente de novo?
_Acho que não. Ela precisa descansar agora. A menina
olhou para o ursinho sem saber o que dizer, pensava alguma coisa. _Como se
chama o seu ursinho? Perguntei-lhe querendo mudar de assunto, falar de coisas
menos sérias. _Moli.
_Que bonito este nome!
_Se o Moli tiver dor de barriga no avião você vai
ajudá-lo também?
_Claro que sim. Não se preocupe! Tranquilizei-a
surpreendida com a pergunta. O importante para a menina era ter alguém por
perto para ajudar. E a menina se afastou, saltitando e sorrindo, foi novamente
para o lado da mãe. Abri o livro, o ruído de vozes falando ao celular, os
olhares desagradáveis, os comentários inconvenientes ficaram para trás, eu
possuía os olhos baixos no livro aberto, a ressonância da vozinha da criança no
meu ouvido e um imperceptível sorriso nos lábios.
*Viviane de Santana
Paulo (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros, Depois
do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011),
Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio
ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Em parceria
com Floriano Martins, Em silêncio (Fortaleza, CE: ARC Edições, 2014) e
Abismanto (poemas, Sol Negro Edições, Natal/RN, 2012). Participa das antologias
Roteiro de Poesia Brasileira -Poetas da década de 2000 (Global Editora, São
Paulo, 2009) e da Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007).
Publica poemas em revistas e jornais entre eles, Suplemento Literário de Minas
Gerais, Inimigo Rumor, Jornal Rascunho, Poesia Sempre e Coyote; assim como nas
revistas Argos e Alforja (México). Em 2012, participa do VIII Festival
Internacional de Poesia em Granada, Nicarágua, e em 2016, do XX Festival
Internacional “Noites de Poesia”de Curtea de Arges, Romênia. Vive em Berlim.
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