ENFIM, A FELICIDADE
Pág. 56 - "Depois de saber da novidade e de marcar a
data e as modalidades do casamento com o pai de Munakazi, para o que foi muito
ajudado pela Muari, Ulume disse para esta, vês, a granada tinha mesmo razão.
Mas chegaste a duvidar, retorquiu a mulher."
"Na primeira noite se apercebeu que Munakazi não era de
facto ufeko, pois a penetração foi fácil. Pouco se importou que ela já tivesse
conhecido homem, nem a interrogou sobre o assunto. E não se importou também que
ela mostrasse o gozo que sentia no acto do amor, atitude contrária à tradição.
Antes o encheu de vaidade, pois pela primeira vez sentia prazer de dar prazer a
uma rapariga."
Pág. 57 - "O curioso é que Munakazi perfilhava
inteiramente as ideias de Kanda. Também ela era contra a poligamia e o alembramento,
sintomas da escravidão da mulher..."
Pág. 58 - "Foram bons tempos para os dois. Os tempos da
descoberta. Discreta, indispensável, Muari se apagava, mas a sua mão estava
sempre presente para que nada lhes faltasse. E ria muito com Munakazi, quando
as duas iam lavar roupa ao regato e confidenciavam as bizarrias de Ulume."
"A grande preocupação de Ulume era a dívida dos
cabritos em relação aos pais de Munakazi. Seria difícil cumprir, partindo do
zero."
Pág. 59 - "Munakazi era boa trabalhadora e colhiam
bastante milho e legumes. As mulheres deviam se revezar a preparar a comida
dele. Um dia ele ia comer à frente da casa duma, no dia seguinte a casa da
outra. Mas, ao fim de certo tempo e por sugestão da Muari, passaram a comer os
três juntos e as mulheres acabavam também por cozinhar juntas."
"Só uma sombra na felicidade dos três, Munakazi não
engravidava. Era uma rapariga sã, Ulume ainda estava na força da idade, não
havia razão."
(...)
"Kandala comeu a refeição de despedida, segurou nas
quatro galinhas e partiu para outros kimbos. Tinha recebido recados durante a
viagem e aproveitava para visitar várias aldeias, onde podia exercer sua arte e
ser bem alimentado e até receber presentes que melhorariam a sua pobre dieta de
velho solitário, cheio de pensamentos superiores. E a Muari embrenhou-se pelos
matos, para ir colher as plantas recomendadas por Kandala. Haveria de encher
Munakazi de infusões até ela ter a menina anunciada."
(...)
"Apesar da tristeza de Munakazi não ter engravidado, o
ano lhes correu bem. (...) As lavras e as nakas produziram bem, a chuva tinha
caído nos momentos e nas quantidades certas, havia cereais nos celeiros e
legumes e frutos com fartura. Como nos bons tempos, em que a aldeia era
auto-suficiente. Para tanto bastava que ninguém se lembrasse da existência
dela."
Glossário:
ufeko - virgem

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