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terça-feira, 19 de junho de 2012

PARÁBOLA DO CÁGADO VELHO (13)


ENFIM, A FELICIDADE



Pág. 56 - "Depois de saber da novidade e de marcar a data e as modalidades do casamento com o pai de Munakazi, para o que foi muito ajudado pela Muari, Ulume disse para esta, vês, a granada tinha mesmo razão. Mas chegaste a duvidar, retorquiu a mulher."

"Na primeira noite se apercebeu que Munakazi não era de facto ufeko, pois a penetração foi fácil. Pouco se importou que ela já tivesse conhecido homem, nem a interrogou sobre o assunto. E não se importou também que ela mostrasse o gozo que sentia no acto do amor, atitude contrária à tradição. Antes o encheu de vaidade, pois pela primeira vez sentia prazer de dar prazer a uma rapariga."


Pág. 57 - "O curioso é que Munakazi perfilhava inteiramente as ideias de Kanda. Também ela era contra a poligamia e o alembramento, sintomas da escravidão da mulher..."
Pág. 58 - "Foram bons tempos para os dois. Os tempos da descoberta. Discreta, indispensável, Muari se apagava, mas a sua mão estava sempre presente para que nada lhes faltasse. E ria muito com Munakazi, quando as duas iam lavar roupa ao regato e confidenciavam as bizarrias de Ulume."
"A grande preocupação de Ulume era a dívida dos cabritos em relação aos pais de Munakazi. Seria difícil cumprir, partindo do zero."
Pág. 59 - "Munakazi era boa trabalhadora e colhiam bastante milho e legumes. As mulheres deviam se revezar a preparar a comida dele. Um dia ele ia comer à frente da casa duma, no dia seguinte a casa da outra. Mas, ao fim de certo tempo e por sugestão da Muari, passaram a comer os três juntos e as mulheres acabavam também por cozinhar juntas."
"Só uma sombra na felicidade dos três, Munakazi não engravidava. Era uma rapariga sã, Ulume ainda estava na força da idade, não havia razão."
(...)
"Kandala comeu a refeição de despedida, segurou nas quatro galinhas e partiu para outros kimbos. Tinha recebido recados durante a viagem e aproveitava para visitar várias aldeias, onde podia exercer sua arte e ser bem alimentado e até receber presentes que melhorariam a sua pobre dieta de velho solitário, cheio de pensamentos superiores. E a Muari embrenhou-se pelos matos, para ir colher as plantas recomendadas por Kandala. Haveria de encher Munakazi de infusões até ela ter a menina anunciada."
(...)
"Apesar da tristeza de Munakazi não ter engravidado, o ano lhes correu bem. (...) As lavras e as nakas produziram bem, a chuva tinha caído nos momentos e nas quantidades certas, havia cereais nos celeiros e legumes e frutos com fartura. Como nos bons tempos, em que a aldeia era auto-suficiente. Para tanto bastava que ninguém se lembrasse da existência dela."

Glossário:
ufeko - virgem

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