O conto de hoje foi publicado na coletânea
"Brasilianische Kurzgeschten" (Contos brasileiros), lançada em
outubro passado na Alemanha, durante a Feira Internacional de Literatura de
Frankfurt, conforme relatamos na postagem anterior.
A dona da casa
O silêncio é sua escuridão, por isso viver tornou-se um
exercício diário, meticuloso, em que tateia com os pés o piso frio da cozinha,
não vá acordar a mãe. Desde o divórcio, vem apalpando a medo os dias e os
vazios na consciência da velha mãe, com quem decidiu morar, aproveitando uns
restos de responsabilidade familiar. Nossas velhices são amparos mútuos, dizia
às vezes, em tom de brincadeira, pois sabe-se tão jovem que nem chegou a pensar
ainda em aposentadoria.
Depois de abrir a porta dos fundos, costumava entrar pela
cozinha, enfia a mão no espaço escuro, acende a lâmpada e entra com silêncio de
ladrão experiente. É preciso fazer um lanche para poder dormir. Lava as mãos
sujas de giz na torneira da pia e, mesmo sem enxugá-las, põe a frigideira
untada de óleo sobre o fogão. Um ovo mexido com pão é tudo que sua mente
cansada e o estômago vazio ambicionam.
Quando o grito estremece o ar iluminado da cozinha, Isaura
olha assustada para trás.
− Vagabunda!
A guedelha revolta e toda ela amarrotada pela cama, sua mãe
aparece estátua na porta completamente viúva. Isaura não deixa de mexer o ovo
na frigideira, fingindo não ter ouvido o insulto, mas sua cabeça baixa permite
um olhar de esguelha, por cima do ombro, tendo a mãe como alvo.
− Sua porca vagabunda. Pensa que eu não sei? Meu dinheiro,
sua ladra, devolva meu dinheiro. Roubou meu dinheiro pra sustentar aquele
animal. Vamos, estou esperando. Você não está ouvindo? Quero meu dinheiro de
volta.
Exausta, a velha interrompe os gritos esganiçados e a
cozinha fica sendo quase uma cozinha comum: mãe e filha antes de dormir. O
ruído do garfo mexendo o ovo na frigideira e a respiração ruidosa da mãe. Nada
mais. Além disso, apenas o rumor noturno da cidade, e a amplidão, com suas
estrelas distantes e silenciosas, uma aragem fria quase imóvel.
A velha desce os dois degraus para o piso da cozinha,
disposta a resolver o futuro de suas vidas.
− Sua ladra! Pensa que vai me matar pra ficar sozinha na
minha casa? Esta casa é muito minha, entendeu? Você se meteu aqui dentro pra
depois trazer aquele sujo pra cá, pensa que eu não descobri? Mas eu sei me
defender, sua vaca. Conheço muito bem suas intenções, vagabunda. E o meu
dinheiro, o que você fez do meu dinheiro?
A velha fala e lentamente contorna a mesa, no centro da cozinha.
Isaura, mesmo mexendo o ovo na frigideira, não perde de vista sua mãe. Sabe que
entrar naquele jogo a excitará ainda mais, por isso não responde tampouco
encara a velha de frente. Evita qualquer movimento que possa exacerbar aquele
surto de ódio, imitando um poste sem lâmpada, desses, pouco mais que inúteis,
que não se fazem notar.
Isaura desliga o fogo, sem coragem de mover os pés. A mãe
aproxima-se do armário, os olhos lacrimosos num rosto pálido e enrugado.
− A casa pra botar homem aqui dentro. Sei muito bem. Acaba
comigo e toma conta da minha casa. Anda por aí, a noite toda, fazendo o quê,
sua vagabunda?
A pressão no peito de Isaura cresce sufocante, mas segura as
lágrimas, muda, por isso esquece a fome, o sono, moída de dó da velha, que um
dia foi sua mãe. Então a ouve chamar para dentro, o dia morrendo, seu rosto
esbraseado, correndo entre as amigas da rua, gastando os excessos de energia.
Sente na face o beijo de boa-noite, as mãos da mãe ajeitando-lhe no corpo o
cobertor.
Parada na frente do fogão, a mulher aperta as têmporas com
as duas mãos, a testa enrugada, sem conseguir entender o sentido de tudo
aquilo. Pagava o quê, com o sofrimento?
A velha abre uma gaveta do armário, onde enfia a mão
direita, que volta com a faca de ponta, sua faca de cortar carne.
− Antes sou eu que acabo com você, vagabunda!
O magro braço erguido faz um movimento rápido, de que Isaura
se esquiva. Em seguida desfere uma bofetada no rosto da mãe, que se amontoa
sentada no piso frio da cozinha. A faca voa para longe e a mão vazia abre e
fecha os dedos, impotente. Sentada sobre sua vida e assombrada por seus
temores, a velha fica chorando baixinho enquanto a noite escorre do céu.
A dona da casa
O silêncio é sua escuridão, por isso viver tornou-se um
exercício diário, meticuloso, em que tateia com os pés o piso frio da cozinha,
não vá acordar a mãe. Desde o divórcio, vem apalpando a medo os dias e os
vazios na consciência da velha mãe, com quem decidiu morar, aproveitando uns
restos de responsabilidade familiar. Nossas velhices são amparos mútuos, dizia
às vezes, em tom de brincadeira, pois sabe-se tão jovem que nem chegou a pensar
ainda em aposentadoria.
Depois de abrir a porta dos fundos, costumava entrar pela
cozinha, enfia a mão no espaço escuro, acende a lâmpada e entra com silêncio de
ladrão experiente. É preciso fazer um lanche para poder dormir. Lava as mãos
sujas de giz na torneira da pia e, mesmo sem enxugá-las, põe a frigideira
untada de óleo sobre o fogão. Um ovo mexido com pão é tudo que sua mente
cansada e o estômago vazio ambicionam.
Quando o grito estremece o ar iluminado da cozinha, Isaura
olha assustada para trás.
− Vagabunda!
A guedelha revolta e toda ela amarrotada pela cama, sua mãe
aparece estátua na porta completamente viúva. Isaura não deixa de mexer o ovo
na frigideira, fingindo não ter ouvido o insulto, mas sua cabeça baixa permite
um olhar de esguelha, por cima do ombro, tendo a mãe como alvo.
− Sua porca vagabunda. Pensa que eu não sei? Meu dinheiro,
sua ladra, devolva meu dinheiro. Roubou meu dinheiro pra sustentar aquele
animal. Vamos, estou esperando. Você não está ouvindo? Quero meu dinheiro de
volta.
Exausta, a velha interrompe os gritos esganiçados e a
cozinha fica sendo quase uma cozinha comum: mãe e filha antes de dormir. O
ruído do garfo mexendo o ovo na frigideira e a respiração ruidosa da mãe. Nada
mais. Além disso, apenas o rumor noturno da cidade, e a amplidão, com suas
estrelas distantes e silenciosas, uma aragem fria quase imóvel.
A velha desce os dois degraus para o piso da cozinha,
disposta a resolver o futuro de suas vidas.
− Sua ladra! Pensa que vai me matar pra ficar sozinha na
minha casa? Esta casa é muito minha, entendeu? Você se meteu aqui dentro pra
depois trazer aquele sujo pra cá, pensa que eu não descobri? Mas eu sei me
defender, sua vaca. Conheço muito bem suas intenções, vagabunda. E o meu
dinheiro, o que você fez do meu dinheiro?
A velha fala e lentamente contorna a mesa, no centro da
cozinha. Isaura, mesmo mexendo o ovo na frigideira, não perde de vista sua mãe.
Sabe que entrar naquele jogo a excitará ainda mais, por isso não responde
tampouco encara a velha de frente. Evita qualquer movimento que possa exacerbar
aquele surto de ódio, imitando um poste sem lâmpada, desses, pouco mais que inúteis,
que não se fazem notar.
Isaura desliga o fogo, sem coragem de mover os pés. A mãe
aproxima-se do armário, os olhos lacrimosos num rosto pálido e enrugado.
− A casa pra botar homem aqui dentro. Sei muito bem. Acaba
comigo e toma conta da minha casa. Anda por aí, a noite toda, fazendo o quê,
sua vagabunda?
A pressão no peito de Isaura cresce sufocante, mas segura as
lágrimas, muda, por isso esquece a fome, o sono, moída de dó da velha, que um
dia foi sua mãe. Então a ouve chamar para dentro, o dia morrendo, seu rosto
esbraseado, correndo entre as amigas da rua, gastando os excessos de energia.
Sente na face o beijo de boa-noite, as mãos da mãe ajeitando-lhe no corpo o
cobertor.
Parada na frente do fogão, a mulher aperta as têmporas com
as duas mãos, a testa enrugada, sem conseguir entender o sentido de tudo
aquilo. Pagava o quê, com o sofrimento?
A velha abre uma gaveta do armário, onde enfia a mão
direita, que volta com a faca de ponta, sua faca de cortar carne.
− Antes sou eu que acabo com você, vagabunda!
O magro braço erguido faz um movimento rápido, de que Isaura
se esquiva. Em seguida desfere uma bofetada no rosto da mãe, que se amontoa
sentada no piso frio da cozinha. A faca voa para longe e a mão vazia abre e
fecha os dedos, impotente. Sentada sobre sua vida e assombrada por seus
temores, a velha fica chorando baixinho enquanto a noite escorre do céu.

Lindamente cruel.
ResponderExcluirComo a vida, Jari.
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