A coluna FRASE ganhou uma nova perspectiva. As frases não são mais de autores e sim de personagens da literatura. A que escolhemos para este domingo é do narrador do conto A Dona da Casa, do livro O peso da gravata, de Menalton Braff.
Blog de Literatura do escritor Menalton Braff, autor de 26 livros e vencedor do Prêmio Jabuti 2000.
Páginas
- ALÉM DO RIO DOS SINOS
- AMOR PASSAGEIRO
- Noite Adentro
- O Peso da Gravata
- Castelo de Areia
- Pouso do Sossego
- Bolero de Ravel
- Gambito
- O fantasma da segundona
- O casarão da Rua do Rosário
- Tapete de Silêncio
- À sombra do cipreste
- Antes da meia-noite
- Castelos de papel
- A coleira no pescoço
- Mirinda
- A Muralha de Adriano
- Janela aberta
- A esperança por um fio
- Na teia do sol
- Que enchente me carrega?
- Moça com chapéu de palha
- Como peixe no aquário
- Copo vazio
- No fundo do quintal
- Na força de mulher
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domingo, 9 de agosto de 2020
sexta-feira, 19 de junho de 2020
CONTOS CORRENTES
A dona da casa

O silêncio é sua escuridão, por isso viver tornou-se um exercício diário, meticuloso, em que tateia com os pés o piso frio da cozinha, não vá acordar a mãe. Desde o divórcio, vem apalpando a medo os dias e os vazios na consciência da velha mãe, com quem decidiu morar, aproveitando uns restos de responsabilidade familiar.
Nossas velhices são amparos mútuos, dizia às vezes, em tom de brincadeira, pois sabe-se tão jovem que nem chegou a pensar ainda em aposentadoria.
Depois de abrir a porta dos fundos, costumava entrar pela cozinha, enfia a mão no espaço escuro, acende a lâmpada e entra com silêncio de ladrão experiente. É preciso fazer um lanche para poder dormir. Lava as mãos sujas de giz na torneira da pia e, mesmo sem enxugá-las, põe a frigideira untada de óleo sobre o fogão. Um ovo mexido com pão é tudo que sua mente cansada e o estômago vazio ambicionam.
Quando o grito estremece o ar iluminado da cozinha, Isaura olha assustada para trás.
− Vagabunda!
A guedelha revolta e toda ela amarrotada pela cama, sua mãe aparece estátua na porta completamente viúva. Isaura não deixa de mexer o ovo na frigideira, fingindo não ter ouvido o insulto, mas sua cabeça baixa permite um olhar de esguelha, por cima do ombro, tendo a mãe como alvo.
− Sua porca vagabunda. Pensa que eu não sei? Meu dinheiro, sua ladra, devolva meu dinheiro.
Roubou meu dinheiro pra sustentar aquele animal. Vamos, estou esperando. Você não está ouvindo? Quero meu dinheiro de volta.
Exausta, a velha interrompe os gritos esganiçados e a cozinha fica sendo quase uma cozinha comum: mãe e filha antes de dormir. O ruído do garfo mexendo o ovo na frigideira e a respiração ruidosa da mãe. Nada mais. Além disso, apenas o rumor noturno da cidade, e a amplidão, com suas estrelas distantes e silenciosas, uma aragem fria quase imóvel.
A velha desce os dois degraus para o piso da cozinha, disposta a resolver o futuro de suas vidas.
− Sua ladra! Pensa que vai me matar pra ficar sozinha na minha casa? Esta casa é muito minha, entendeu? Você se meteu aqui dentro pra depois trazer aquele sujo pra cá, pensa que eu não descobri? Mas eu sei me defender, sua vaca. Conheço muito bem suas intenções, vagabunda. E o meu dinheiro, o que você fez do meu dinheiro?
A velha fala e lentamente contorna a mesa, no centro da cozinha. Isaura, mesmo mexendo o ovo na frigideira, não perde de vista sua mãe. Sabe que entrar naquele jogo a excitará ainda mais, por isso não responde tampouco encara a velha de frente. Evita qualquer movimento que possa exacerbar aquele surto de ódio, imitando um poste sem lâmpada, desses, pouco mais que inúteis, que não se fazem notar.
Isaura desliga o fogo, sem coragem de mover os pés. A mãe aproxima-se do armário, os olhos lacrimosos num rosto pálido e enrugado.
− A casa pra botar homem aqui dentro. Sei muito bem. Acaba comigo e toma conta da minha casa. Anda por aí, a noite toda, fazendo o quê, sua vagabunda?
A pressão no peito de Isaura cresce sufocante, mas segura as lágrimas, muda, por isso esquece a fome, o sono, moída de dó da velha, que um dia foi sua mãe. Então a ouve chamar para dentro, o dia morrendo, seu rosto esbraseado, correndo entre as amigas da rua, gastando os excessos de energia. Sente na face o beijo de boa-noite, as mãos da mãe ajeitando-lhe no corpo o cobertor.
Parada na frente do fogão, a mulher aperta as têmporas com as duas mãos, a testa enrugada, sem conseguir entender o sentido de tudo aquilo. Pagava o quê, com o sofrimento?
A velha abre uma gaveta do armário, onde enfia a mão direita, que volta com a faca de ponta, sua faca de cortar carne.
− Antes sou eu que acabo com você, vagabunda!
O magro braço erguido faz um movimento rápido, de que Isaura se esquiva. Em seguida desfere uma bofetada no rosto da mãe, que se amontoa sentada no piso frio da cozinha. A faca voa para longe e a mão vazia abre e fecha os dedos, impotente. Sentada sobre sua vida e assombrada por seus temores, a velha fica chorando baixinho enquanto a noite escorre do céu.
terça-feira, 5 de março de 2019
CARNAVAL LITERÁRIO 5
Estamos no quinto dia do nosso CARNAVAL LITERÁRIO.O conto de hoje foi publicado no livro "O peso da gravata", lançado pela Primavera Editorial, em 2016.
A dona da casa
Depois de abrir a porta dos fundos, costumava entrar pela cozinha, enfia a mão no espaço escuro, acende a lâmpada e entra com silêncio de ladrão experiente. É preciso fazer um lanche para poder dormir. Lava as mãos sujas de giz na torneira da pia e, mesmo sem enxugá-las, põe a frigideira untada de óleo sobre o fogão. Um ovo mexido com pão é tudo que sua mente cansada e o estômago vazio ambicionam.
Quando o grito estremece o ar iluminado da cozinha, Isaura olha assustada para trás.
− Vagabunda!
A guedelha revolta e toda ela amarrotada pela cama, sua mãe aparece estátua na porta completamente viúva. Isaura não deixa de mexer o ovo na frigideira, fingindo não ter ouvido o insulto, mas sua cabeça baixa permite um olhar de esguelha, por cima do ombro, tendo a mãe como alvo.
− Sua porca vagabunda. Pensa que eu não sei? Meu dinheiro, sua ladra, devolva meu dinheiro. Roubou meu dinheiro pra sustentar aquele animal. Vamos, estou esperando. Você não está ouvindo? Quero meu dinheiro de volta.
Exausta, a velha interrompe os gritos esganiçados e a cozinha fica sendo quase uma cozinha comum: mãe e filha antes de dormir. O ruído do garfo mexendo o ovo na frigideira e a respiração ruidosa da
sábado, 3 de novembro de 2018
UM CONTO PARA O SEU FIM DE SEMANA
A dona da casa*

O silêncio é sua escuridão, por isso viver tornou-se um exercício diário, meticuloso, em que tateia com os pés o piso frio da cozinha, não vá acordar a mãe. Desde o divórcio, vem apalpando a medo os dias e os vazios na consciência da velha mãe, com quem decidiu morar, aproveitando uns restos de responsabilidade familiar.
Nossas velhices são amparos mútuos, dizia às vezes, em tom de brincadeira, pois sabe-se tão jovem que nem chegou a pensar ainda em aposentadoria.
Depois de abrir a porta dos fundos, costumava entrar pela cozinha, enfia a mão no espaço escuro, acende a lâmpada e entra com silêncio de ladrão experiente. É preciso fazer um lanche para poder dormir. Lava as mãos sujas de giz na torneira da pia e, mesmo sem enxugá-las, põe a frigideira untada de óleo sobre o fogão. Um ovo mexido com pão é tudo que sua mente cansada e o estômago vazio ambicionam.
Quando o grito estremece o ar iluminado da cozinha, Isaura olha assustada para trás.
− Vagabunda!
A guedelha revolta e toda ela amarrotada pela cama, sua mãe aparece estátua na porta completamente viúva. Isaura não deixa de mexer o ovo na frigideira, fingindo não ter ouvido o insulto, mas sua cabeça baixa permite um olhar de esguelha, por cima do ombro, tendo a mãe como alvo.
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UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA
sexta-feira, 25 de maio de 2018
CONTOS CORRENTES
O silêncio é sua escuridão, por isso viver tornou-se um exercício diário, meticuloso, em que tateia com os pés o piso frio da cozinha, não vá acordar a mãe. Desde o divórcio, vem apalpando a medo os dias e os vazios na consciência da velha mãe, com quem decidiu morar, aproveitando uns restos de responsabilidade familiar.
Nossas velhices são amparos mútuos, dizia às vezes, em tom de brincadeira, pois sabe-se tão jovem que nem chegou a pensar ainda em aposentadoria.
Depois de abrir a porta dos fundos, costumava entrar pela cozinha, enfia a mão no espaço escuro, acende a lâmpada e entra com silêncio de ladrão experiente. É preciso fazer um lanche para poder dormir. Lava as mãos sujas de giz na torneira da pia e, mesmo sem enxugá-las, põe a frigideira untada de óleo sobre o fogão. Um ovo mexido com pão é tudo que sua mente cansada e o estômago vazio ambicionam.
domingo, 11 de fevereiro de 2018
CARNAVAL LITERÁRIO 3
Pelo terceiro dia consecutivo, estamos postando contos de Menalton Braff para os que não vão cair na folia e também para os carnavalescos que tiverem um tempinho entre uma farra e outra. O conto de hoje foi publicado pela Primavera Editorial, no livro O PESO DA GRAVATA.
O silêncio é sua escuridão, por isso viver tornou-se um exercício diário, meticuloso, em que tateia com os pés o piso frio da cozinha, não vá acordar a mãe. Desde o divórcio, vem apalpando a medo os dias e os vazios na consciência da velha mãe, com quem decidiu morar, aproveitando uns restos de responsabilidade familiar.
O silêncio é sua escuridão, por isso viver tornou-se um exercício diário, meticuloso, em que tateia com os pés o piso frio da cozinha, não vá acordar a mãe. Desde o divórcio, vem apalpando a medo os dias e os vazios na consciência da velha mãe, com quem decidiu morar, aproveitando uns restos de responsabilidade familiar.
Nossas velhices são amparos mútuos, dizia às vezes, em tom de brincadeira, pois sabe-se tão jovem que nem chegou a pensar ainda em aposentadoria.
Depois de abrir a porta dos fundos, costumava entrar pela cozinha, enfia a mão no espaço escuro, acende a lâmpada e entra com silêncio de ladrão experiente. É preciso fazer um lanche para poder dormir. Lava as mãos sujas de giz na torneira da pia e, mesmo sem enxugá-las, põe a frigideira untada de óleo sobre o fogão. Um ovo mexido com pão é tudo que sua mente cansada e o estômago vazio ambicionam.
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sexta-feira, 12 de janeiro de 2018
CONTOS CORRENTES

O conto de hoje está publicado no livro O PESO DA GRAVATA, lançado em 2016 pela Primavera Editorial.
A dona da casa
(Menalton Braff)
O silêncio é sua escuridão, por isso viver tornou-se um exercício diário, meticuloso, em que tateia com os pés o piso frio da cozinha, não vá acordar a mãe. Desde o divórcio, vem apalpando a medo os dias e os vazios na consciência da velha mãe, com quem decidiu morar, aproveitando uns restos de responsabilidade familiar.
Nossas velhices são amparos mútuos, dizia às vezes, em tom de brincadeira, pois sabe-se tão jovem que nem chegou a pensar ainda em aposentadoria.
Depois de abrir a porta dos fundos, costumava entrar pela cozinha, enfia a mão no espaço escuro, acende a lâmpada e entra com silêncio de ladrão experiente. É preciso fazer um lanche para poder dormir. Lava as mãos sujas de giz na torneira da pia e, mesmo sem enxugá-las, põe a frigideira untada de óleo sobre o fogão. Um ovo mexido com pão é tudo que sua mente cansada e o estômago vazio ambicionam.
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sexta-feira, 24 de novembro de 2017
CONTOS CORRENTES
O conto de hoje é do próprio Menalton. "A dona da casa" foi publicado no livro "O peso da gravata", lançado pela Primavera Editorial, em 2016.A dona da casa
Depois de abrir a porta dos fundos, costumava entrar pela cozinha, enfia a mão no espaço escuro, acende a lâmpada e entra com silêncio de ladrão experiente. É preciso fazer um lanche para poder dormir. Lava as mãos sujas de giz na torneira da pia e, mesmo sem enxugá-las, põe a frigideira untada de óleo sobre o fogão. Um ovo mexido com pão é tudo que sua mente cansada e o estômago vazio ambicionam.
Quando o grito estremece o ar iluminado da cozinha, Isaura olha assustada para trás.
− Vagabunda!
A guedelha revolta e toda ela amarrotada pela cama, sua mãe aparece estátua na porta completamente viúva. Isaura não deixa de mexer o ovo na frigideira, fingindo não ter ouvido o insulto, mas sua cabeça baixa permite um olhar de esguelha, por cima do ombro, tendo a mãe como alvo.
sexta-feira, 22 de abril de 2016
UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA
A dona da casa*
O silêncio é sua escuridão, por isso viver tornou-se um
exercício diário, meticuloso, em que tateia com os pés o piso frio da cozinha,
não vá acordar a mãe. Desde o divórcio, vem apalpando a medo os dias e os
vazios na consciência da velha mãe, com quem decidiu morar, aproveitando uns
restos de responsabilidade familiar.
Nossas velhices são amparos mútuos, dizia
às vezes, em tom de brincadeira, pois sabe-se tão jovem que nem chegou a pensar
ainda em aposentadoria.
Depois de abrir a porta dos fundos, costumava entrar pela
cozinha, enfia a mão no espaço escuro, acende a lâmpada e entra com silêncio de
ladrão experiente. É preciso fazer um lanche para poder dormir. Lava as mãos
sujas de giz na torneira da pia e, mesmo sem enxugá-las, põe a frigideira
untada de óleo sobre o fogão. Um ovo mexido com pão é tudo que sua mente
cansada e o estômago vazio ambicionam.
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA
O conto de hoje foi publicado na coletânea
"Brasilianische Kurzgeschten" (Contos brasileiros), lançada em
outubro passado na Alemanha, durante a Feira Internacional de Literatura de
Frankfurt, conforme relatamos na postagem anterior.
A dona da casa
O silêncio é sua escuridão, por isso viver tornou-se um
exercício diário, meticuloso, em que tateia com os pés o piso frio da cozinha,
não vá acordar a mãe. Desde o divórcio, vem apalpando a medo os dias e os
vazios na consciência da velha mãe, com quem decidiu morar, aproveitando uns
restos de responsabilidade familiar. Nossas velhices são amparos mútuos, dizia
às vezes, em tom de brincadeira, pois sabe-se tão jovem que nem chegou a pensar
ainda em aposentadoria.
Depois de abrir a porta dos fundos, costumava entrar pela
cozinha, enfia a mão no espaço escuro, acende a lâmpada e entra com silêncio de
ladrão experiente. É preciso fazer um lanche para poder dormir. Lava as mãos
sujas de giz na torneira da pia e, mesmo sem enxugá-las, põe a frigideira
untada de óleo sobre o fogão. Um ovo mexido com pão é tudo que sua mente
cansada e o estômago vazio ambicionam.
Quando o grito estremece o ar iluminado da cozinha, Isaura
olha assustada para trás.
− Vagabunda!
A guedelha revolta e toda ela amarrotada pela cama, sua mãe
aparece estátua na porta completamente viúva. Isaura não deixa de mexer o ovo
na frigideira, fingindo não ter ouvido o insulto, mas sua cabeça baixa permite
um olhar de esguelha, por cima do ombro, tendo a mãe como alvo.
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sábado, 16 de novembro de 2013
UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA
Bem, agora que você já tentou ler em alemão, e talvez não tenha conseguido, vamos ver como era o conto em português.
A dona da casa
O silêncio é sua escuridão, por isso viver tornou-se um exercício diário,
meticuloso, em que tateia com os pés o piso frio da cozinha, não vá acordar a
mãe. Desde o divórcio, vem apalpando a medo os dias e os vazios na consciência
da velha mãe, com quem decidiu morar, aproveitando uns restos de
responsabilidade familiar. Nossas velhices são amparos mútuos, dizia às vezes,
em tom de brincadeira, pois sabe-se tão jovem que nem chegou a pensar ainda em
aposentadoria.
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
NA ALEMANHA
Este foi o ano do Brasil na Feira de Frankfurt. A UBE organizou uma coletânea de contistas brasileiros, que foram traduzidos e publicados por uma editora alemã.Compareci entre os contistas e meu "A dona da casa", ainda inédito em português, compareceu entre os contos.
A leitura em alemão é possível apenas para umas poucas pessoas, mas elas existem, por isso vai aí abaixo o conto na língua de Göethe.
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