sábado, 22 de março de 2014

UM COMEÇO, VÁRIOS FINS

Chegou a hora H do desfaio aos adultos. A proposta foi desenvolver um texto a partir do primeiro parágrafo do conto "O banquete", de Menalton Braff, que está publicado no livro  "À sombra do cipreste", editado originalmente em 1999, pela Palavra Mágica, e escolhido como Livro do Ano do Prêmio Jabuti  2.000.


A edição atual de "À sombra do cipreste", é da Global Editora e foi lançada em 2.011.

Publicamos, a seguir, os textos enviados pelos adultos e o conto completo de  Menalton Braff.

Os textos dos adultos estão publicados por ordem de envio.

Texto 1 - Thais Helena
Texto 2 - Patrícia Dantas 
Texto 3 - Carlos C.

Texto 1

Enviado por Thais Helena

Ocupados, todos, com os prazeres da boa mesa e com o alegre exercício da conversação, ninguém, exceto Bia, percebe aquele vulto impreciso a deslizar lenta e silenciosamente para a sombra que o armário projeta no corredor. Ela assiste a toda a manobra, pasma, e seus olhos anoitecidos, adejando ao redor da mesa, movediços, sem se fixar em nenhum dos comensais, tentam dissimular o espanto.  Sensação de frio nas mãos e na testa, cobertas por fina camada de suor. A conversa dos convidados vai-se tornando um rumor distante, indecifrável. Apenas um rumor. Bia deixa momentaneamente de mastigar - os lábios finos e roxos mortos de tão parados.

Quem poderia imaginar o desplante de tal aparição?

Somente Betina teria o estômago para tal feito; tal aparição em tal ocasião.

O que era mesmo que comemoravam? Seu aniversário de formados... Não, não era bem isso!  Aquele não era um grupo comum, comemoravam seu aniversário de amizade. Conheceram-se na faculdade sim, em uma ou outra disciplina em comum... e por tabela, tendo se relacionado com alguém do grupo... e de outros carnavais, isso era certo!

Betina, no entanto,  não podia, simplesmente, estragar sua noite. Não tinha mais o direito.

De repente lhe ocorreu, o que a traria a esse jantar ao qual não fora convidada e de onde, certamente, seria expulsa sem o menor pudor.

Todos esses pensamentos aconteceram em uma fração de segundos e Bia teve tempo suficiente para observar Betina se esgueirar para a ante-sala enquanto os amigos percebiam sua ausência temporária da conversa.

O que há com você, Bia? Parece que viu um fantasma!

Bia voltou-se ao grupo num gesto atrapalhado e tentou calcular o estrago que seria revelar aquela presença nom grata. Poderia livrar-se dela sem causar uma comoção? Ser a anfitriã nunca lhe tinha sido tão penoso!

Bia adorava receber. Tinha um prazer dramático em organizar, planejar, produzir tais eventos, uma verdadeira paixão.

Não aconteceu nada, querida amiga! Acabo de me lembrar do rosbife no forno e devo verificar como andam as coisas lá pela cozinha. Com licença, queridos.

Tudo teria transcorrido discretamente se Bia se tivesse dirigido para a cozinha, mas tomou a direção da antessala e isso foi notado por uma única pessoa que não tinha engolido uma única palavra sobre assados e afins.

Silas levantou-se discretamente e a seguiu. Na antessala encontrou Bia ameaçadora e sussurrando.

A cena que se deu a seguir parecia saída de um sonho ruim, daqueles que se repete e deixa o dia perturbado e desconexo.

Silas chegou bem a tempo de segurar a mão de Betina que desferia um violento tapa intencionado para o rosto de Bia. Certamente a teria derrubado dado seu porte diminuto.

Não podia acreditar em seus olhos, nem na ousadia de Betina em aparecer naquela casa depois de trair a confiança de cada um de seus amigos, o que mais ela poderia querer ali? Ele mesmo tinha amargado horas de análise pra tentar compreender a falseta em que aquela mulher lhe escalara. Ainda se sentia estúpido, ainda podia sentir o calor das lagrimas de ódio e impotência que aquela criatura lhe tinha proporcionado. Seu orgulho de homem reto o impedia de aceitar a manipulação barata clássica de uma mulher como Betina e, pior, seus motivos!

Ao longo de quase vinte anos de amizade ela pilhara a harmonia de cada uma das casas que frequentara. Valia-se da descrição de cada um, do orgulho ferido de cada um desses geniais amigos em admitir que tinham sido enganados por uma simples moça da periferia.

Do alto de seus quase dois metros Silas posicionou-se com um jogo de corpo e empurrou Bia e Betina pra fora da sala. No hall de entrada deu-se uma conversa pequena, pontual, quase silenciosa.

Bia já não raciocinava e Betina parecia, pela primeira vez em tantos anos de dissimulações, desconcertada e com medo.

Os convidados conversavam animadamente na sala de jantar e ignoravam completamente o drama no hall de entrada.

O texto deu-se assim, entredentes: Ponha-se daqui pra fora e nunca mais apareça. Meus advogados entrarão em contato com os outros e sua vida degradante deixará de existir e de espalhar vergonha e imoralidade. Empurrou-a, gentil e fortemente, para fora da casa como quem arremessa um saco de lixo esquecido por dias atrás de um armário.

Trancaram a porta.

Interfonaram a portaria.

Voltaram à mesa e ao cenário asséptico e agradável de sua convivência luminosa social e intelectual.

O que era mesmo que comemoravam? Seu aniversário de formados...

Abrimos outra garrafa?


Texto 2

Enviado por Patrícia Dantas

Ocupados, todos, com os prazeres da boa mesa e com o alegre exercício da conversação, ninguém, exceto Bia, percebe aquele vulto impreciso a deslizar lenta e silenciosamente para a sombra que o armário projeta no corredor. Ela assiste a toda a manobra, pasma, e seus olhos anoitecidos, adejando ao redor da mesa, movediços, sem se fixar em nenhum dos comensais, tentam dissimular o espanto.  Sensação de frio nas mãos e na testa, cobertas por fina camada de suor. A conversa dos convidados vai-se tornando um rumor distante, indecifrável. Apenas um rumor. Bia deixa momentaneamente de mastigar - os lábios finos e roxos mortos de tão parados.

Durante anos, tinha conseguido manter seu segredo inviolável. Por que justo no dia em que recebia pela primeira vez a família do noivo, aquele deslize teria ocorrido? E quem teria sido o seu autor? Ela mesma, que na aflição de preparar a casa para o almoço especial esquecera de trancar a porta;  o jardineiro, único conhecedor do segredo e encarregado de mantê-lo vivo; ou a cozinheira, que fora bisbilhotar no quarto dos fundos?  Era muito importante saber, mas a identificação do culpado ficaria para o dia seguinte. Naquele momento era imperioso deter a ameaça.

Bia procura recompor-se, fingindo que seu breve distanciamento foi provocado por reminiscências:

– Eu estava lembrando da primeira vez que Roberto veio aqui. Parecia desconcertado diante dos meus pais, mas foi adquirindo naturalidade na medida em que fazia o reconhecimento da casa. Os móveis e objetos eram muito semelhantes aos de sua família, inclusive os retratos a óleo de meus avós, posicionados logo na entrada.  Agora que meus pais não estão mais aqui, tinha pensado em mudar a decoração, mas fiz questão de manter tudo como estava pelo menos até hoje, para que vocês pudessem sentir o mesmo que Roberto sentiu cinco anos atrás.

Ela não sabe onde encontrou inspiração para tanta história, e sabe menos ainda como conduzirá o seu monólogo de modo a encontrar uma boa desculpa para levantar-se da mesa a tempo de impedir um desastre. Nos poucos minutos que já transcorreram, ela não viu mais nenhum sinal da sombra, mas isso poderia ser ainda mais arriscado do que uma aproximação visível porque ela não tinha noção do que poderia acontecer no momento seguinte.

Ocorreu-lhe a ideia de presentear a mãe de Roberto com algo que pertenceu à sua mãe e que se encaixasse perfeitamente no estilo de decoração que é comum às duas famílias. Mas o que justificaria ela dar um presente no meio da refeição? Só se o presente pudesse ser usado durante a refeição.  Os candelabros!

– Para marcar este encontro, decidi presenteá-los com os candelabros da minha família. Vou pedir licença para ir busca-los lá dentro. Assim eles serão passados de uma família a outra em uma data que também é de passagem.

Aliviada por ter encontrado uma forma de ausentar-se, Bia caminha em direção ao armário, mas não encontra nada. Fica em pânico ao imaginar que pode ter perdido o controle da situação, mas logo avista o vulto por trás do móvel, dirigindo-se ao corredor. Cuidadosamente, toma Severina em seus braços e anda apressada até o quarto dos fundos, de onde ela não poderia jamais ter saído. Examina as travas de todas as janelas e em seguida tranca o quarto, escondendo a chave no bolso da calça. Vai, então, até o armário do corredor para pegar os candelabros.

Ao chegar à mesa com os candelabros nas mãos, quase morre de susto. O pai de Alberto está em pé ao lado da mesa, com uma cobra igualzinha a Severina, enrolada nos braços:

– Por favor não se assuste, Bia. Esta não é a cobra que você foi guardar.  Por alguns minutos eu temi que fosse, porque ela estava no carro e poderia ter escapado. Mas felizmente descobri que temos uma segunda coincidência! Benedita é a cobra que Alberto cria há mais de um ano e que sempre escondeu de você temendo que o abandonasse!  

Texto 3

Enviado por Carlos C.

Ocupados, todos, com os prazeres da boa mesa e com o alegre exercício da conversação, ninguém, exceto Bia, percebe aquele vulto impreciso a deslizar lenta e silenciosamente para a sombra que o armário projeta no corredor. Ela assiste a toda a manobra, pasma, e seus olhos anoitecidos, adejando ao redor da mesa, movediços, sem se fixar em nenhum dos comensais, tentam dissimular o espanto.  Sensação de frio nas mãos e na testa, cobertas por fina camada de suor. A conversa dos convidados vai-se tornando um rumor distante, indecifrável. Apenas um rumor. Bia deixa momentaneamente de mastigar - os lábios finos e roxos mortos de tão parados.


Seria ele? mesmo depois de quase um ano que não aparecia? Se fosse, Bia estaria em maus lençóis. Nas vezes em que apareceu, ele nunca saiu antes de provocar estragos. Quando não destruía parte da casa, ele provocava rompimentos irrecuperáveis. O namoro com Francisco tinha sido a maior perda. Além do ciúme por ter flagrado o beijo roubado que Bia não conseguiu evitar, com medo de chamar a atenção dos convidados, Francisco não conseguia aceitar a ideia de que Bia pudesse ter sido casada com um homem tão desequilibrado. Algo errado devia haver com ela também.
Daquela vez os danos poderiam ser bem piores. Embora aquele almoço fosse um encontro de amigos, não era possível esquecer que meses antes, Bia havia assumido um cargo de direção na empresa da família de três dos cinco convidados. Se Eugênio aprontasse, ela sofreria um tremendo desgaste de imagem e sua posição na empresa ficaria bastante vulnerável.

Bia já estava entrando em desespero, quando o telefone tocou. Pronto, pensou, fui salva pelo gongo. Desculpou-se e pediu licença para atender. Certamente era a mãe e podia estar precisando de alguma coisa. Encontrou Eugênio em seu quarto, mexendo nas gavetas. Por um momento pensou em agredi-lo, mas pelo menos daquela vez tinha que encontrar uma estratégia mais inteligente. Se aproximou lentamente e pôs as mãos nos olhos dele. Como ela esperava, Eugênio amoleceu, entrando no jogo. Segurou suas mãos com firmeza e seguiu tateando pelos braços até encontrar os seios. Bia estremeceu com o toque, mas disfarçou sua repulsa. Não podia correr nenhum risco.

– Há quanto tempo eu não sinto você!

– A escolha foi sua. Aliás, o que deu em você hoje? Tá achando que eu sou otário de acreditar nesse amor repentino?

Eugênio se desvencilha das mãos de Bia e a joga na cama de forma agressiva. Embora assustada, Bia intensifica a estratégia de sedução porque não consegue imaginar outra saída.

– Não é amor, é tesão. Quer dizer. É amor, sim, mas é também muito tesão. Eu não consigo transar com outros homens. Sempre que tento fico pensando como seria melhor com você.

– Mas até o ano assado você conseguia...sua vagabunda!

– Isso foi logo depois da separação. Eu queria me sentir livre, aproveitar o que não aproveitei na adolescência porque casamos muito cedo. Mas agora que a novidade passou, tenho sentido muito a sua falta. Estava até pensando em te procurar. Mas tive medo de ser rejeitada.

Eugênio deita em cima da ex-mulher e começa a beijá-la no pescoço. Bia finge que está ficando excitada, sem saber como sair daquela situação que ela mesma criou. Quase instintivamente, começa a suspirar no ouvido do ex-marido.

– Vem, Gene. Me come gostoso. Quero voltar com você. Quero que você venha morar aqui e quero ter um filho seu.

Mais uma vez, foi salva por um golpe de sorte. Bia não sabia, mas tinha pronunciado a palavra mágica. O esforço que ela fizera durante anos para não engravidar tinha sido totalmente desnecessário. Eugênio era estéril. Ao ouvir aquilo, ele parou de beijá-la.

– A...agora não.. não dá mais. Eu... eu ...estou casado com outra.

Antes que Bia pensasse em uma forma de dar prosseguimento àquela farsa, Eugênio se levantou e foi embora. Passou pela sala sem cumprimentar ninguém.

Quando Bia voltou à mesa, os convidados pareciam alheios à sua ausência e estavam prestes a esvaziar a terceira garrafa de vinho.

Ela pediu desculpas mais uma vez e começou a narrar animadamente, a conversa que tivera com a mãe. Dona Anete havia ligado para contar à filha como havia solucionado definitivamente um problema que a atormentava há quase de três anos.     


Conto de Menalton Braff

                                                      O banquete


                                                                   “Atraído pela melodia, Gregor
foi-se arrastando para a frente,
e encompridou a cabeça para
dentro da sala.”
A Metamorfose, Franz Kafka

“A Sra. Hennebeau, muito pálida, cheia de ódio contra
aquela gentalha que estragava um dos seus prazeres,
mantinha-se atrás, lançando olhares oblíquos e enojados,
enquanto Lucie e Jeane, apesar de trêmulas, espiavam
por uma fresta, não querendo perder nada do espetáculo.”
Germinal, Émile Zola

  Ocupados, todos, com os prazeres da boa mesa e com o alegre exercício da conversação, ninguém, exceto Bia, percebe aquele vulto impreciso a deslizar lenta e silenciosamente para a sombra que o armário projeta no corredor. Ela assiste a toda a manobra, pasma, e seus olhos anoitecidos, adejando ao redor da mesa, movediços, sem se fixar em nenhum dos comensais, tentam dissimular o espanto.  Sensação de frio nas mãos e na testa, cobertas por fina camada de suor. A conversa dos convidados vai-se tornando um rumor distante, indecifrável. Apenas um rumor. Bia deixa momentaneamente de mastigar - os lábios finos e roxos mortos de tão parados.

     Cheio de mesuras e protocolos, ao chegar, este desembargador Aristides Aleixo, exageradamente formal para quem está na iminência de se tornar compadre, e agora, depois de algumas taças de vinho, descontrai-se e começa a contar suas anedotas, trovejante como nos tempos de tribunal do júri. Tenta reter o olhar de Bia, com insistência mas sem sucesso, porque ela está distraída; não interrompe, entretanto, sua história, só porque a dona da casa parece preocupada com outros problemas. A anfitriã, do fundo de sua exasperação, recolhe, entre pratos, travessas e terrinas, sobre a mesa, alguma coisa como  padre e confessionário, sem lhe alcançar o enredo. Bem conhece, no entanto, esse tipo de gracejo iconoclasta, que os de sua idade consideravam privilégio de sua geração: quase todos, na juventude, livres-pensadores. Acha que não fica bem, todavia, a um homem com sua posição, contar, à mesa, anedotas picantes, como se estivessem no salão de uma taverna. Sobretudo pelas personagens sagradas que envolvem e que não se devem desrespeitar. Herança ibérica, pensa, este vezo escarninho. Mesmo assim, procura demonstrar interesse (modo de agradar ao pai do futuro genro) sem conseguir: além da porta, imerso nas sombras do corredor, o idiota, imóvel, ameaça a noite com seu sorriso flácido, meio torto e úmido.

Quando, por fim,  todos começam a rir, Bia olha para trás, esconde a seriedade no bojo das mãos, disfarça,  pois já sabe que não poderá imitar os demais e teme parecer ridícula. Na verdade, não sabe o que foi feito do padre nem do confessionário. Enxuga discretamente, no guardanapo, o suor do rosto que lhe ficou nas mãos. Talvez não haja motivo para sustos: encoberto pela sombra, o fardo de sua vida pode muito bem passar despercebido.

  Retoma suas funções de anfitriã, dirigindo os principais movimentos que acontecem à mesa e providenciando para que nada falte aos convidados. A maré das conversas ora flui ora reflui, caótica, formando vários grupos pequenos, por vezes, para depois integrar a todos novamente em um único e grande grupo. Não chega a estar feliz, mas já se sente bem mais confortável. A idéia de que provavelmente o estorvo não seja notado pelos outros a tranqüiliza. Graças a Deus, suspira, tudo não passara de um susto de uns poucos minutos. A conversação retorna ao caminho plano e largo das amenidades, depois da grosseria do desembargador. Ela se deixa embalar por risos discretos e tinir de talheres, símbolos da felicidade que mais preza: companhia dos amigos e mesa farta. Feliz? Não, nem tanto, mas satisfeita com o ágape, em cuja preparação empregara todo o requinte exigido por sua condição social.

O sorriso, entretanto, lhe cai dos lábios, gelado e duro, ao ver os olhos aflitos com que a filha tenta preveni-la do perigo. Bia descobre, alarmada, que ele, o cansaço da vida inteira, a despeito de todas as recomendações e ameaças,  já está escapando da sombra, a um passo da sala de jantar. Aperta ainda mais os lábios finos, enruga a testa, arqueia as sobrancelhas em gestos que não pode fazer com as mãos (mesmo com o risco de parecer grotesca a quem não saiba por que tudo aquilo) para ver se o afugenta para o quarto. A boca semi-aberta, os olhos miúdos estranhamente cintilantes e fixos, ele parece fingir que não entende as ameaças e se mantém no mesmo lugar, plantado. Então Bia se lembra, quase enternecida, de que talvez tenham esquecido o jantar do coitado. Tanto movimento, tantas providências, que o esquecimento não seria impossível.

Ajeita o coque, não por imaginá-lo desarranjado, mas porque precisa ir à cozinha. Levanta-se dizendo, à guisa de desculpa, algumas palavras enroladas, que ninguém entende, contorna a mesa em passo medido e certo, sempre sorrindo para a filha, em quem se fixa, acalme-se, a mamãe sabe o que faz, e desaparece.

- Um pedaço bem grande de bolo -  ordena Bia e, ao espanto da copeira, responde com leve arquear de sobrancelhas e um meio-sorriso  que ela pretende conivente e sedutor.

De volta a seu lugar, suspira aliviada, ajeita o coque, serve-se daquela cassolette de escargots que tanto ama e para a qual, ainda há pouco, não pudera nem olhar, inapetente, e prepara-se para assistir ao epílogo da ridícula tragicomédia a que fora submetida.

Não demora para que apareça na sombra do corredor a copeira em seu uniforme azul-marinho e branco, que lhe é exigido apenas em ocasiões especiais. Traz nas mãos um prato de sobremesa, onde, com toda certeza, há um imenso pedaço de bolo, que Bia não pode ver, mas que adivinha. Está certa de que Arnaldo não o recusará: devorador notório de qualquer tipo de doce. Sem despegar os olhos da sala de jantar, como se estivesse sentindo asco, ele empurra o prato com o antebraço. A Bia parece apenas incoerência de seu comportamento estúpido,  pois não pode imaginar o idiota  atraído pelo brilho dos talheres de prata e pelas peças de porcelana, pela gala dos convidados, belas e saudáveis pessoas, com suas vestes coloridas, pela iluminação abundante a descer em jorros de três lustres onde centenas de pequenas lâmpadas imitam velas com pingentes de brilhantes. Nunca vira, o coitado, espetáculo tão belo, nem entende o significado de tudo aquilo, mas não é com um pedaço de bolo que vão fazê-lo desistir de o contemplar. A copeira insiste passando o bolo perto de seus olhos, a pouca distância de seu nariz, aponta, diz alguma coisa que Bia não consegue ouvir, finalmente, com medo do ronco ameaçador de Arnaldo, seu olhar procura o da patroa na cabeceira da mesa. Ergue os ombros, abre os braços, fiz o que pude!

Os patos à Califórnia são recebidos com aplausos gerais, provocados principalmente pelo modo suntuoso como são apresentados: duas empregadas de uniforme azul-marinho entram na sala de jantar segurando as duas pontas de uma travessa de prata com noventa centímetros de comprimento; entre arranjos de pêssegos, cachos de uvas, cerejas, ameixas e (idéia de Bia) copos-de-leite trançados com rosas príncipe negro, aparecem dois patos dourados, fumegantes ainda, com as   coxas roliças apontadas para o céu.

Apesar da expectativa quanto ao efeito causado pela entrada do prato de resistência, Bia aproveita o tumulto para afastar-se rapidamente pela porta que leva à cozinha. Quer só ver se ele vai desobedecer-lhe. Reaparece no corredor, os lábios finos colados e roxos, a testa enrugada, fiapos de cabelo soltos pendidos para os ombros. Segura com firmeza o braço de Arnaldo, que não demonstra a menor surpresa com a rispidez de seu gesto. Aproxima o rosto de seu ouvido e cochicha-lhe, vem, mas ele nem se volta, absorto na contemplação de um espetáculo que desconhece e com que está deslumbrado. Vem, ela repete um pouco mais enfaticamente, puxando seu braço, para o quarto, já. O idiota faz um ar de aborrecimento, alguma coisa o incomoda, mas não se move, pesado, cravado no chão. Bia sente asco de si mesma ao pensar que em seu corpo, belo e sadio, dentro dele, foi gerado um ser tão ignóbil como aquele. Crava-lhe silenciosamente as unhas no braço: o quarto agora mesmo ou uma semana sem comida, seu porco. Arnaldo solta um grunhido de dor, abafado, mas não encara a mãe.

Aos poucos ela o arrasta pelo corredor, sem nada mais dizer, pois emprega na empresa toda a força de que dispõe.



Quando volta à mesa, restabelecida a ordem cá e lá, ajeita o coque, recolhe os fios soltos de cabelo e responde serenamente que apenas um súbito mal-estar, resíduo de uma gripe mal curada.

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