terça-feira, 20 de maio de 2014

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (99)


János Petöfi

Saltemos algumas páginas que não abordam assuntos primordialmente estéticos, mas continuemos com o mesmo autor (Vítor Manuel de Aguiar e Silva) e sua obra fundamental Teoria da Literatura.

Pág. 220 - "3.6.2. Autor empírico, autor textual, narrador
O autor, enquanto indivíduo empírica e historicamente existente, é sem dúvida, sob os pontos de vista ontológico e semiótico, o primeiro agente e o primordial responsável da enunciação literária.
Entendemos por enunciação literária a operação individual através da qual o autor se apropria não apenas da língua literária , tal como caracterizada em 2.15., mas do sistema semiótico literário, actualizando as suas virtualidades num (p.221) enunciado ou numa sequência de enunciados que conformam o texto literário e assumindo, por conseguinte, a função de instância emissora cuja existência postula, explícita ou implicitamente, a existência de uma instância receptora. Não é indiferente que este indivíduo empírico e histórico assuma a responsabilidade de um acto de enunciação literária na sua juventude ou na sua idade madura, antes ou depois de ter realizado ou sofrido certas experiências existenciais, antes ou depois de ter haurido determinados conhecimentos e de ter efectuado determinadas leituras, encontrando-se, ou não, em relação de discordância, ou mesmo de hostilidade, com os valores ideológicos prevalecentes na comunidade histórico-social em que vive, etc. Sob o ponto de vista semiótico, considerando sempre a semiose na sua dimensão semântica, na sua dimensão sintáctica e na sua dimensão pragmática, todos estes factores se apresentam como dotados de pertinência inquestionável, pois que a actualização, num texto concreto, das virtualidades do sistema semiótico literário pressupõe o conhecimento deste mesmo sistema - e tal conhecimento transforma-se, em todos os sentidos, com o tempo histórico - e visto que o conhecimento do sistema semiótico literário, sobretudo do seu código semântico-pragmático, implica o conhecimento intensional e extensional do mundo natural e de mundos possíveis. Se é exacto, segundo os termos da 'teoria da estrutura do texto e (p.222) da estrutura do mundo' formulada por János Petöfi e geralmente conhecida pelo acrónimo alemão TeSWeST (de Text-struktur-Weltstruktur-Theorie), que o componente de semântica do mundo determina directa ou indirectamente a estrutura e as funções dos outros dois componentes da TeSWeST, o componente da gramática textual e o componente do léxico, torna-se indubitável que as operações semióticas que constituem a enunciação literária e que possibilitam a produção do texto literário não são realizadas por um abstracto operador cibernético actuante no âmbito de uma acronicidade pura, mas por um indivíduo histórica e socialmente modelado e condicionado que opera sobre códigos produzidos histórica e socialmente e que comunica com outros indivíduos também histórica e socialmente modelados e condicionados.

(CONTINUA)

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