O velho
hortelão
Aí vem a moça da creche caminhando
por entre os canteiros, a criança pela mão. Ela não sabe de quantas asas se
forma um anjo, mas consegue ser mais leve que o ar. A criança, quando se tornou
meu neto, jamais imaginaria que viria a ser meu filho, minha última família. O
Sol descamba por trás da moça da creche tirando reflexos vivos de seus cabelos
angelicais. A criança dá pulos para que suas pernas não sejam molestadas pelas
folhas rechonchudas de couve. Elas duas, a moça da creche e a criança, que meu
filho e minha nora me deixaram como filho meu, estão vindo na minha direção,
vêm descendo pelos caminhos estreitos que dividem os canteiros.
A nuvem alivia meus olhos cansados
de sol. É uma nuvem gorda e lenta que me transmite uma sensação de
tranquilidade, porque é silenciosa e densa, e não tem pressa de chegar a lugar
algum. Ela sabe que sua vida é efêmera, que a qualquer momento, mesmo um
momento inesperado, deverá cumprir seu destino inelutável desmanchando-se em
chuva sobre as hortas. A criança parece diminuir de tamanho e suas pernas se
adelgaçam ao passar pelos canteiros de cenoura, sem necessidade de pulos para
se livrar das folhas.
Ele, este meu filho-neto, me
chegou desfrutando de boa saúde, uma criança de pele bem grudada no corpo, com
bom apetite e sempre disposto a gastar a sobra de suas energias. Seus olhos
costumam brilhar, quando acordado, mais que estrelas cadentes, como se tivesse
um faro desenvolvido para abarcar o mundo inteiro. Ao pular por cima das folhas
de couve, as folhas que invadem nosso caminho, ele erguia a cabeça, o queixo
apontando para o céu, leve, leve, porque o esplendor do Sol descambando por
trás da moça o mantinha suspenso e parado no ar. Meu filho, agora, minha toda
família.
O sangue que circula em suas
veias, de tão vermelho parece azul, e é isso que o torna imponderável.
Principalmente quando ele abre as asas. Ao abrir o portão, lá em cima, a moça
da creche apontou-me com o dedo e disse ao Moa qualquer coisa que não consegui
ouvir, tampouco pude ler em seus lábios, o sol esplendendo por trás de sua
cabeça. Quando me chegou, logo depois do enterro, era Moacir, mas não gostei do
nome, que me dá ideia de sofrimento, então resolvi reduzi-lo para Moa, que não
significa nada além de nomear a criança.
Os dois atingem agora a parte do
outeiro onde ficam os canteiros de tomate, e o Moa desprende-se da mão que o
segurava e põe-se a correr na minha direção. Ele não suporta o cheiro do
tomate. E eu sei por quê. Na primeira semana morando comigo, encantado com a
cor e a forma do tomate, era julho e os tomateiros estavam carregados de frutos
maduros, aproveitou-se de uma distração minha e foi deitar debaixo de um deles.
Não sei quanto tempo ali ficou nem quantos tomates comeu, mas estimo que foi
longo o tempo e grande a quantidade devorada. Mais tarde, em casa, a criança
desaguou quase tudo no vaso sanitário. Ficou pálido, suou muito, tive de
fazê-lo sorver umas infusões que preparei. Ele me disse que basta o cheiro do
tomate para sentir o estômago se contorcendo horrorizado. O Moa nunca antes
estivera em uma horta, correndo livre por entre os canteiros.
Passa miando um bando de anus numa
direção que só pode ser o pouso deles, alguma árvore que os acolhe e abriga
durante a noite. As aves são previdentes, mas não por inteligência. É seu instinto
que as obriga a procurar local seguro enquanto a noite não se fecha sobre elas,
enquanto podem guiar-se com recursos próprios. A criança tem suas espertezas,
não conseguiria, entretanto, sobreviver sem a mão de um adulto.
Um último punhado de terra foi
jogado sobre os caixões, então olhei em volta e não descobri uma só pessoa que
pudesse arrimar o menino. Estou velho, estou cansado, pensei, mas a força que
me resta devo empregá-la na proteção deste pequeno ser. Não por ser neto meu,
mas por sua condição de vida incompleta, um ser vivo em formação. Pequeno e
frágil ser. Por isso o fiz meu filho.
A moça da creche atravessa com
passo largo o córrego que nos separa e me vem com o sorriso aberto, o sorriso
de todas as tardes. Com brilhos irisados debaixo de sol ou líquido e um pouco
mais frio em tardes de chuva. Me deixo entrar para o fundo de sua fisionomia,
que me parece repousante, mas tenho de voltar porque lá não cabem minhas
ferramentas, minhas únicas lembranças de um tempo em que não era sozinho. Ela
me cumprimenta com doçura nos olhos cor de mel, dá um beijo na bochecha do Moa
e retoma o caminho agora de frente para um sol ainda mais fraco, bem
derradeiro.
Minha criança corre atrás de sua
amiga, a moça da creche, até metade da ladeira e, na altura dos canteiros de
alface, o menino para de costas para mim. Ele deve estar repartido em sua
capacidade de afeto. É bem provável que a moça tenha vencido a barreira do
afeto profissional, e com sentimento livre, que é o sentimento inútil, sem o imperativo da vida prática, tenha acabado
por conquistar uma parte da criança para si.
Por isso, eu o vejo subir transformado num pequeno arco Iris, mas navega
o espaço em sentido vertical até virar um pequeno ponto amarelo a refletir o
sol em seus últimos alentos, então explode como uma bolha incandescente e, ao
mesmo tempo em que some no céu, reaparece de costas para mim na altura dos
canteiros de alface. Sinto que não me abandonou, pois vira-se para meu lado e
posso adivinhar-lhe no rosto o sorriso com que virá acolher-se junto a mim.
A moça da creche, antes de fechar
o portão atrás de si, acena para nós com o braço erguido, a mão afagando a
testa que nos resta do Sol. Então não há mais como evitar o surdir silencioso
da noite. A criança aproveita um raio de sol retardatário e se debruça na
mureta do poço, sua boca, e olha para o fundo, onde nada vê, fascinado com seus
próprios gritos que do nada sobem, como uma mensagem vinda das sombras.
*
Depois do banho, o cheiro do
sabonete ainda na pele, sentamos para o jantar e meu neto me pede que fale com
ele. Qualquer coisa, ele responde, os lábios abertos e ouvidos atentos, que não
quer esquecer minha voz. Voz de velho. Eu falo sobre o que temos sobre a mesa e
ele acompanha as palavras com olhos gulosos de saber os nomes. Há um ovo frito
em cada prato, arroz e feijão e um pedaço de frango. São nomes que ele conhece
antes de se aborrecer. Por isso, enumero legumes, suas cores e o menino vai
repetindo as palavras: cenoura, beterraba, couve-flor. Ele, este menino, gosta
mais é de palavras. Preciso insistir muito com ele para que coma alguma coisa.
Então invento que ele coma as palavras, e, de cada uma que pronuncio, ele
precisa morder aquela que lhe corresponda. Meu neto aceita a brincadeira e
começamos um jogo em que dirijo sua refeição.
Mas não podemos ficar mastigando a
noite toda, uma noite como todas as outras, isto é, sem muito sabor, por isso
ele me pede que invente outro jogo, e sem muita imaginação para jogos, me ponho
a falar. E digo muitas palavras, algumas que me estavam na memória sem que as
tivesse jamais entregado ao vento. Minha cozinha é também sala de jantar. A luz
fraca, o fogo morto e, à mesa, o rosto ainda brilhando deste filho que me
deram, tudo isso parece um filme que ainda não vi. Para minha sorte, sempre
cultivei legumes, verduras e palavras, tanto verdes quanto maduras.
Então ponho-me a contar algumas
passagens da minha vida. E falo do que me lembro, as lembranças mais antigas, e
falo do que invento, porque recuperar o passado é um modo de refazer muita
coisa da vida, corrigindo e melhorando o próprio desempenho. E falo e falo, falo pausadamente para o
menino que precisa descobrir o mundo, mas que já está à beira do sono. Por
vezes meu filho se agita, abre muito os olhos e me faz alguma pergunta. Ele não
quer perder a corrente que vou arrastando.
Minhas hortaliças atendem todas
por nomes que não inventei, e que fui aprendendo na proporção do meu
crescimento. São nomes brilhantes, alguns, como o manjericão, o agrião; algumas
têm nomes flácidos, e, neste caso estão a alface e a salsa. Nomes de peso
também aparecem, como a batata e a beterraba. Conheço todas pelo nome e pelo
cheiro e é na ciência das verduras e legumes que vou iniciar meu filho. Apesar
de só me chamar de avô, ele não tem escolha. Seu pai agora sou eu.
A criança então me pede que fale
sobre seu pai, e sinto que minhas mãos começam a me atrapalhar. Então ele
acrescenta que o outro pai, o que foi embora e fugiu de sua memória. E mesmo
nos meus olhos, ele observa com uma ruga séria na testa, mesmo nos meus olhos
ele não existe mais.
Também eu, quando consulto a
memória de meus olhos, consigo ver apenas a mancha de cores esmaecidas, e o que
tenho para descrever é o modo como sorria, os gestos lentos e parcos, sua mania
de piscar muito rápido passando a mão pelos cabelos sempre desalinhados. Minhas
lembranças de seu pai, explico, são apenas do invisível, são palavras como
bondade, paciência, o carinho com que tratava aquela mocinha com quem
casou.
O Moa me ouve com olhar religioso
e de viés, porque agora está com a cabeça apoiada no braço esquerdo apoiado em
horizontal sobre o tampo da mesa. Talvez ele durma embalado por minha voz de
velho, um pouco estragada pelos pigarros que não consigo expulsar. O sol, eu
digo, a soalheira. A vida toda trabalhando debaixo de um chapéu que me empasta
os cabelos de suor e que me expõe vez por outra à luz que, em lugar de
iluminar, mais queima que outra coisa. Meu filho pede para que continue a
história de meu filho, o pai dele.
De pijama curto, como convém nesta
época do ano, o menino me encara com a mensagem bem clara de que não deseja
ainda ir para a cama. Então me pergunta se no tempo de seu pai existia uma avó
e se ela também trabalhava na horta. Confirmo, que sim, ela ajudava na horta
quando não estava cuidando da casa. E aponto para a parede da cozinha, bem ao
lado do fogão. Vendo ali? Um pano aberto como um crucifixo, exceto os braços,
uns bordados no corpo, os pontos que a Marina preferia e suas cores, então em
arco, por cima de tudo, bordadas também as palavras “Lar doce lar”, que era o
nosso nos tempos em que nossa família era maior. O Moa quer explicação do
dístico em arco e me atrapalho um pouco, pois me emociona pensar nos tempos em
que a Marina cuidava da casa, cortinas nas janelas, tapetes no piso e nas
paredes, as refeições em horários convenientes, e ainda me ajudava com meus
legumes e minhas verduras. Por causa de estar atrapalhado é que o pigarro é um
ponto de exclamação nesta pausa. Por fim, digo que um lar é doce quando se vive
contente, sem vontade nenhuma de que haja diferenças.
O Moa insiste com suas perguntas e
quer saber se nós somos contentes, assim como vivemos. E acrescenta que
gostaria muito de que a moça da creche viesse morar conosco. Ergue um pouco a
cabeça e com ar concentrado, os olhos com brilho muito sério, declara que
aceitaria casar com ela. E lê, agora com olhos de sono e voz de criança “Lar
doce lar”.
*
É sábado de manhã e abrimos todas
as janelas na esperança de que o dia nos invada com sua brisa fresca num sábado
de manhã, como é uma de nossas necessidades. Primeiro tive de trocar a roupa do
Moa, que apareceu no meu quarto com o uniforme da creche. Bem neto, mesmo. Ou
filho. Não não não, eu resmunguei entre dois dedos de sono, dedos finos,
palavras dedilhadas. Ele procurou mostrar-se abatido, pois não tira mais do baú
de seus projetos o casamento com a moça que o traz pra casa todas as tardes, e
cujo suor impregna sua mão pequena.
Depois de minhas abluções, bastante estrepitosas, que é assim o modo
apropriado de começar um dia divertido, propus ao Moa o arejamento. Nossas
mentes de uma semana, sementes e palavras, estes repolhos, precisam
esvaziar-se, fazendo espaço para pensamentos novos, os que podem nascer de
imprevisto.
Nosso desjejum, à claridade
natural, é simples como se fosse uma folha de alface recém-colhida, ainda viva
e tenra, cheia de ternura. Pão com manteiga e café com leite, o vapor subindo
até sumir na altura do teto. As crianças acordam com apetite. Apetece-lhes o
pão e as palavras cobertas do riso mais doce; apetece-lhes a vida, a brisa, o
céu azul; apetece-lhes a companhia tanto de outras crianças quanto de adultos
com quem deverão operar suas trocas.
Mastigando, ele me olha e espera
até engolir o bocado de pão esmagado. Então me pede:
− Conta, avô.
Ele sempre pede, com sede de
notícias, de informações sobre quem era antes de nascer, ele sempre pede, e eu
nem sempre me lembro de alguma passagem interessante de nossa vida e que valha
a pena contar.
Mas então me lembrei de uma
verdade bem pouco visível e, enquanto dávamos as costas à mesa do café, na
direção da varanda, comecei a contar que antes, sim, antes de ser quem é, ele,
o Moa, estava dividido, que uma de suas metades morava aqui comigo, filho meu.
E ele quis saber notícias da outra metade. Que não tenho muitas, foi minha
resposta. Do meu filho, sim, que era belo, bom e inteligente. Conhecia todas as
plantas e suas qualidades mágicas, as preferências de cada uma, com quem sabia
conversar tudo que tinha aprendido em uma escola de agronomia. Um dia me disse
não querer continuar morando aqui comigo, porque desejava a companhia da moça
por quem já mantinha os pensamentos suspensos, pairando acima das nuvens. E ela
era sua segunda metade. Por isso eles foram morar em outra casa, por querer que
você existisse.
Desço descansado a escada da
varanda seguido por este último filho, o da minha velhice. Ele desce pulando os
degraus e quando fincamos os pés na terra ele me pergunta se ao morar junto com
a moça da creche, eles também vão ter um menino. Eu rio de sua ideia e ele diz
que não entende meu riso. Mas já estamos entre os canteiros de alface e com
movimentos enérgicos dirijo a chuva saída da mangueira para cima dos canteiros.
O Moa insiste com suas perguntas e
aviso que agora não, que ele vá escolher uma brincadeira qualquer, porque
preciso dar de beber a minhas plantas. Ele fica parado, de pernas abertas, me
observando, por fim diz que depois de crescer ele quer ser dono comigo desta
horta.
E desce a ladeira correndo,
cavalgando um cavalo invisível.
*
Sábado já é quase o repouso, a
véspera, para os outros, o geral das pessoas, no sábado, minhas hortaliças
exigem meus cuidados, vidas que dependem de mim. E ontem, no serviço aliviado,
irriguei canteiros, cravei estacas, aprumei umas quantas plantas de pouco
equilíbrio. O resto do tempo, estive atendendo donas de casa ou suas empregadas
em algumas necessidades. Meu neto observava tudo de longe, cansava da
observação, saía às carreiras pelos corredores estreitos entre os canteiros,
seus carreiros, e voltava a nos observar. Nas corridas galopadas, soltava
guinchos e gritos muito animais, que não sei onde ele pode ter aprendido. E
como nos ríamos de suas traquinagens, sentia-se estimulado a continuar, ele
fogoso, animal pequeno explodindo energia.
Agora me olha enquanto faço uma
barba matutina. E branca. Uma barba domingueira. Os tocos de fios desaparecem
na espuma e a criança me pergunta se terá cabelos brancos como os meus quando
ficar do meu tamanho. Não consigo falar muito com as bochechas infladas
suportando o correr da lâmina. Hum, hum é minha resposta de bocca chiusa, que
faz vibrar em cócegas minhas narinas. Ele insiste na pergunta, pois ainda não
sabe a diferença entre hum hum e kum kum, mas tem de esperar até que eu esteja
com a face limpa e lisa, quando respondo com palavras para sua satisfação: sim,
as pessoas do meu tamanho e com a minha idade costumam ter os cabelos
diferentes marcando o tempo que já passaram pela vida. Meu neto se alegra e me
pede para usar o aparelho de barba que acabo de lavar debaixo do jorro d’água
da torneira.
Quando digo que vai levar ainda
bastante tempo até que ele precise passar por este desconforto, ele me olha
muito sério e pergunta se antes ele poderá casar com sua Julieta. Sinto vontade
de rir, mas ele está muito sério, então me posiciono como avô, um avô/pai, não
importa, com o dever de tomá-lo pela mão nas veredas mais difíceis de seu
caminho.
Hoje é dia de maior folga, mesmo
assim, saímos os dois para a horta na hora em que o sol começa a esquentar,
pois precisamos dar de beber a estas plantas. Sendo ainda cedo, recebemos como
um presente a brisa que circula por cima dos canteiros antes de se retirar
expulsa pelo sol.
E é bem assim: a criança corre no
rastro do esguicho d’água até a cerca do vizinho. Ele desconhecia o sentido da
vizinhança, pois a divisa é por demais de mais pra lá, além dos últimos
canteiros, por isso fica encantado ao ver que uma cabeça embrulhada em panos
sacode uma das mãos e joga grãos de milho para as galinhas. Novamente ele ri
com muitos dentes, pois o contentamento não pretende boca fechada: a carranca.
Uma gente do outro lado da cerca,
as pessoas, tenho de explicar. Nós damos água e a mulher dá milho. Ele quer
saber se galinha também precisa de água. Ah, sim, a toda planta e a todo animal
a água é indispensável. Então ele sente sede e vem tomar água no bico da
mangueira, molhando a roupa num divertimento.
Minha repreensão é inócua, pois o
Moa continua molhando o rosto com o brilho dos respingos e, de olhos fechados,
a boca escancarada, quase se desmancha em risos. Molha a roupa, seu macacão, e
mergulha no prazer da brincadeira. Preciso terminar logo esta rega para tomar
conta de meu neto molhado.
Ele volta à cerca e espia pelas
frestas entre as ripas, mas agora só vê galinhas ciscando e cantarolando aquele
anúncio prolongado, verdadeiro cacarejo, de que hoje teremos ovo. Com as mãos
segurando duas varas verticais da cerca, ele encosta a testa na madeira coberta
de musgo e limo, o coração aos saltos por causa daquela alegria das
descobertas: as aves em sua vida doméstica. O Moa grita e me chama, querendo
compartilhar. O sol tira fagulhas de seus cabelos molhados. Daqui a pouco vou
lá fingir minha admiração, fazer par com ele.
*
Mas este menino está todo
encharcado, vizinho, esta criança. A vizinha grita com pulmões, pois eu já ando
por aqui, do outro lado da horta. Então devolvo os gritos chamando meu neto,
que não desgruda a testa da cerca a encantar as galinhas com seu olhar deslumbrado.
Tiro da cabeça o chapéu com a copa úmida por dentro e com ele no alto faço
gestos largos, de meia lua, que o menino venha, este meu neto, o que é minha
família. Insisto, com a voz e o braço, e brado severo no exercício da minha
autoridade. E como de nada adianta meu esforço, fecho a mangueira e vou ver por
que reclama esta mulher com a cabeça embrulhada num pano.
A vizinha fala sem parar, sua voz
exaltada contra mim e na minha direção, porque o menino, ela diz, esta criança,
seu rosto, então não se vê? molhada como está, talvez até com febre.
Um cumprimento de perto a que ela
responde com os dois sulcos na testa acima de olhos furiosos. Então não vê?
Tudo isso porque passei de idades, meu tempo se foi. Ralho com meu neto e digo
que vá trocar já já de roupa e botar uns sapatos, e consulto com mão ápera sua
testa e suas faces, rosadas, sim, mas febre nenhuma. Vá logo, Moa.
A criança abandona as galinhas e
sai correndo por entre os canteiros, seus carreiros, dando pulos, cabriolando,
pois carregava agora consigo mais um conhecimento, que eram algumas galinhas
ciscando e outras num cacarejo muito musical.
O grito e o tombo me chegam
juntos, pelo ar que se agita e que ultrapassa os galhos mais altos das árvores.
Corro pisando por cima dos canteiros, em linha reta, até encontrar meu neto
caído com o sangue esguichando de seu pé preso por um dente poderoso do
ancinho. Mas quem foi que deixou este
trambolho aqui, de boca aberta para o céu? A vizinha, que trepada na cerca
adivinha tudo, corre dizendo que vai chamar um táxi.
Nenhum de nós dois troca de roupa
e como estamos somos largados à porta do saguão do hospital. A maca nos leva, a
mim, meu neto e o ancinho, para a sala de pronto socorro. Os cheiros misturados
me nauseiam e ameaço voltar à rua para respirar um pouco, um ar sem esta
contaminação, mas o Moa grita ainda mais alto. A injeção que a enfermeira lhe
aplicou demora a fazer efeito. Por fim, apenas soluça, o rosto inchado e úmido
das lágrimas, tantas, e adormece.
O dente do ancinho, depois de algumas
manobras de bisturi, é ejetado e sai sanguinolento, ameaçador. Limpeza, pontos,
curativo, a tudo assisto com o estômago revoltado contra os diversos cheiros
que se misturam, neste ar hospitalar. E cada vez que mexem no pé do Moa, meu pé
se encolhe de dor.
*
Hoje de manhã, a moça da creche
passou por aqui para pegar o menino, e a levei até o quarto, onde ele
permanecia na cama, o pé todo enfaixado: ele não podia andar. Os dois
confabularam aos cochichos enquanto os observava da porta. Por fim, ela saiu
sozinha para cumprir sua jornada.
À tarde, na saída do serviço, ela
foi me encontrar preparando umas encomendas de verduras e legumes, ali embaixo.
Então subimos para casa sem conversar durante o caminho porque meu coração
estava batendo muito devagar, talvez por causa do frio que eu sentia no peito.
A moça da creche escanchou meu
neto em sua ilharga, bem seguro com seu braço esquerdo e com a mão direita ela
segurou a alça da mala com que o menino veio parar na minha casa. Na porta ela
se voltou, me encarando muito séria, mas amorosa, e me disse: Agora ele é meu.
Saí para o quintal atrás dos dois
e, sentado neste cepo, os vi na subida contra o sol, que brilhava ainda um
pouco, mas sem alegria nenhuma.
Agora já está escuro, não tenho,
contudo, coragem alguma para enfrentar esta casa vazia.
***

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