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sexta-feira, 3 de junho de 2016

UM CONTO PARA O SEU FIM DE SEMANA

Lúcia, a cortesã

 Lúcia era seu nome de guerra. Na pia batismal chamaram-lhe Maria da Glória, nome que usou até os dezessete anos, época em que as circunstâncias de sua vida forçaram-na a esquecer sua madrinha, a Nossa Senhora da Glória.

Até aquela idade, teve uma vida comum, de menina que estuda apenas o suficiente enquanto espera o amadurecimento para tornar-se esposa e mãe, uma dona de casa para ser acrescentada como um número nas estatísticas demográficas. Na escola, durante o Ensino Médio, experimentou cigarro e sentiu a boca muito amarga, ficou duas ou três vezes com meninos da classe, conhecendo alguns amassos masculinos em exercício de maturidade. Repetiu, até então, o que via e ouvia em sua volta. Nunca tivera vocação para rebeldias além daquelas de ficar um almoço sem comer, para a aflição da mãe, por não lhe terem permitido passar o fim de semana em excursão com os colegas de classe.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA

Anoitecendo (conto inédito)


Mais de duas horas aqui sentados neste barranco de rio sem qualquer sinal de vida, qualquer mensagem, as boias ali à toa na superfície da água, nos encaramos desistentes. As promessas não se cumpriam, apesar de nossa paciente insistência. O sol, estilhaçado e frio, cai sobre o remanso de onde esperávamos alguma notícia. É um momento meio triste, pois o dia definha irreversível e com alguma lentidão: morrente.

Sabe o quê, a gente, pra não perder a viagem, ainda pode nadar um pouco. E as roupas começam a voar para cima dos arbustos. Mas eu não sei nadar muito bem, alega meu amigo para justificar sua relutância

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA

No cruzamento    


Aquele era o único recanto da cidade que nestes últimos cinquenta anos tinha-se mantido sem mudança. Por ali, desde garoto eu passava todos os dias mais ou menos a mesma hora. Em dias de chuva protegido por uma capa impermeável e um capuz pontudo e alto, em dias de sol muito quente, o paletó pendurado às costas preso por um dedo. No cruzamento de duas ruas tranquilas, de pouco movimento, os vértices que se formavam em esquinas, as quatro, eram ângulos de noventa graus.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA

Gritos e risadas
(conto inédito)

Daqui dessa distância posso ver um grupo de crianças brincando, mas estou longe demais para perceber qual é a brincadeira. Elas pulam e o movimento de seus braços parece jogar alguma coisa para o alto. Também não consigo ouvir seus gritos e risadas; posso, contudo, muito bem supô-los.
Com os pés enterrados na areia, não saio do lugar e algumas ondas me atingem as panturrilhas que se regozijam com o frio da água.
Além das crianças e mais perto dos cômoros um pouco afastados do mar, uma canoa emborcada, uma canoa escura que deve ter sofrido sol e chuva de muitas estações. Daqui a impressão que me dá é a de uma carcaça de baleia, mas de uma baleia já muito morta que mantém a pele seca recobrindo seu arcabouço. A distância dá ao barco um aspecto de brinquedo infantil.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA

A última viagem


Por obsolescência, dizia o jornalista lá pela metade da matéria. Será uma despedida reverente, esta última viagem, pelos cinquenta anos de serviços da locomotiva 524. A 524 levara em sua vida pessoas da cidade para outras cidades, pessoas que atravessaram oceanos, cortaram os céus, circundaram o mundo.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA

Um passageiro estranho (conto inédito)

Na madrugada fria de Curitiba embarquei no ônibus que vinha de Porto Alegre com destino a São Paulo. Encaixei meu corpo na poltrona, a cortina fechada, e comecei a contar ovelhinhas. Não sei quantas contei porque muitas delas refugavam a cerca que deveriam ultrapassar com seu pulo, enquanto outras misturavam-se com os assuntos que naquele dia tinham ocupado meu tempo e minha mente. Eu estava praticamente derrotado porque meu cliente, relapso, não tivera o cuidado de apresentar provas e testemunhas convincentes. Mas cabe recurso, adormeci pensando, e com uma fila de ovelhas no interior de meus olhos.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

CONTOS CORRENTES

O convite

Ao aceitar o convite, Carolina teve um estremecimento de alegria. Há muito tempo nutria aquela vontade na ponta dos olhos, por onde entravam as cenas de uma festa, e mesmo o som das músicas, mas principalmente das palavras felizes e dos risos. Era assim o salão que afagava com seu pensamento: ambiente de muita alegria. De uma coisa Carolina tinha consciência de que necessitava – de alegria.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

CONTOS CORRENTES

Dois plátanos (conto inédito de Menalton Braff)

Toca esperar. Ainda bem que alguma sombra, meus olhos cansados de sol. Lá no alto algum remendo na pista, e os carros vêm passando. Em lenta fila eles passam. Um caminhão, cinco automóveis, um intervalo, mas já vem aparecendo outro caminhão. E muitos carros atrás. Até cheiro de piche. Ainda bem que umas poucas horas nos separam. Nestes três dias de viagem tive tempo de ensaiar várias vezes como será nosso reencontro. Mas principalmente busquei na imaginação o semblante ao mesmo tempo surpreso e incrédulo dos dois ao abrirem a porta. A expressão de alegria? Ali, de pé no patamar, na frente da porta, parado, o susto. Meu pai, disfarçando a emoção, como sempre, isto é hora de chegar em casa, garoto!
Esta estrada, quando a usei pela última vez, era de terra. Com chuva, nem caminhão passava. Beleza de asfalto. Fui atrás do progresso e o progresso chegou sem mim aqui. O mato das margens sumido. Agora plantação, tudo cultivado, então a pobreza ficou no passado?
Que eu vou ali, ganho algum e já volto. Nas minhas costas eu podia adivinhar as lágrimas deles, ou não, mas também a esperança de que eu cumprisse minha promessa.
Eu só ia buscar o futuro, onde ele estivesse. Quando passei pelos plátanos, em volta dos quais me criei ensaiando a vida, tive a tentação de parar, mas apenas virei a cabeça e recebi como uma bênção os acenos que me fizeram, suas despedidas.
Não que não ajudassem, estes braços. Nós sabíamos. Mas havia oportunidade de melhor emprego para eles. E o contrato de um diarista por qualquer bagatela quando o progresso era apenas uma palavra que as pessoas disponíveis pronunciavam com a boca cheia de esperança.
Cansado de esperar, então parti.
Chegou o bastão, por isso todos começaram a acelerar, os motores roncando. Não fosse esse calor, um sol desvairado, não teria tanta pressa de chegar. Umas três horas. Quando passei por esta estrada na ida, era de terra, alguns trechos de areia grossa, uns córregos cortando o caminho. Nossa fila em movimento. Com este asfalto, talvez até menos do que três horas.
Sozinho eu sei que não, ele não daria conta, mas sempre algum diarista. Meu destino não podia ter sido amarrado àquela terra pobre, naqueles morros pedregosos. Roçadinho de milho, uma coivara de feijão, flor de piretro nas tiras de terra entre as pedras, uns pés de mamonas e, lá embaixo, perto do córrego, aquela faixa estreita de arroz. Que mais? Ah, os bichos miúdos no terreiro, vivendo uma vida como permitia a natureza. E uns escassos animais de melhor estatura.
Aí vem a caçamba deles empurrando a gente para o acostamento. Ainda não se vê o bloqueio lá do alto.
Ou vão logo vir com acusações, este tempo todo.
Bem, se eles estão pensando que desde o início foi tudo muito fácil pra mim, eles estão é muito enganados. Lavoura dos dois lados. E era tudo mato sem serventia, um carrascal que até cobra evitava. E assim na beira da estrada, mas também na subida dos morros. Tudo cultivado. Os anos passaram por aqui. Nem imaginam, eles. As durezas por que passei nos primeiros tempos. Os arrependimentos que tive de engolir a seco.
Na descida longa em boa velocidade, o ar-condicionado me refresca as mãos e o rosto. Cá no sopé, a placa. Entramos em novo município. Não, o último não, mais umas três horas, acho que devo ainda atravessar, já não me lembro mais, dois ou três até chegar em casa.
Não é um retorno definitivo. Vão ficar decepcionados, mas não posso passar de um mês, as obrigações à minha espera. A gente vai assumindo, sem perceber vai acumulando, bem, mas é pista simples, e quando vê, vive em função do trabalho. Mas se não fosse assim? Cara doido,  ultrapassou o caminhão na faixa contínua, é pista simples e tenho de diminuir a marcha, como eles?, uns sacos de mamona e outros de piretro, umas notinhas embrulhadas num lenço e um par de sapatos no fim do ano. Tudo asfaltado, pois não é que o progresso?!
As portas que eu tive de arrombar, então, nisso ninguém pensa? Os anos. Não podia contar como vivia, seria pura tristeza. Apesar de tudo. Sim, porque com um diarista, e a mamãe ajudando um pouco mais, até melhor do que eu, iam vivendo. Mas quando parti, isso sim, jurei que só voltava em visita de resgate. O arrimo da velhice.
Agora sim, agora posso acelerar.
Lutei sozinho e me fiz. Hoje volto feito. Quem sabe comigo. Vendemos tudo, que não é grande coisa. Acho que vou propor como solução. Comigo. Vão viver muito melhor.
Quantos quilômetros? Não vi. Umas duas horas, duas e pouco.
Vou chegar ainda dia, nem almoço, porque quero chegar ainda dia claro. Será que vão me reconhecer? No patamar, parado, na frente da porta aberta. Isso é hora de chegar em casa, menino? Ele. Talvez não me reconheçam. Um bigode cheio e alguns cabelos brancos, pelo menos no primeiro instante podem não me reconhecer, e isso porque não me esperam e acho até que nem acreditam neste retorno. Por pouco tempo, claro, mas é um retorno. Pra trás ficaram mil obrigações à minha espera. Outra placa, mais um município. Não me lembro muito bem: uns dois, não mais que isso.
Na verdade, nem mesmo eu me lembro da minha voz antiga, que era minha voz ainda nova. Se até a fisionomia dos dois, com o tempo, foi-se desmanchando, amarelando, até virar duas manchas ocupando minha memória. Se já quase não me lembro de como eram, vai ser difícil imaginar como são hoje. Mas a casa, sim, e os dois plátanos plantados na frente, dois guardas atentos. Olhei pra trás e me acenaram uma despedida. Trabalhar mais, não, vou proibir. Olhe aqui, meu pai, o senhor já trabalhou na vida até demais, agora chega.
A placa do município onde nasci. Tenho de segurar o coração pelos pulsos senão ele dispara. Aqui devo reconhecer até as árvores da beira da estrada. Meu município. E o Sol ainda está alto. Fui eu mesmo quem sugeri: um diarista. Tanta gente se oferecendo. Então não se pode dizer que foi um abandono. O asfalto vai na direção da cidade. Eu fico antes, mas não consigo me lembrar. As árvores que eu conhecia, que muitas vezes cumprimentei, elas sumiram? Ah, sim, dois quilômetros depois da ponte.
Agora entro à esquerda porque só pode ser esta estradinha de terra. Vai para onde?, eu perguntava quando era criança. Vai parar onde? E minha mãe dizia, Estrada não tem fim, ela não para. Aquele umbuzeiro velho, ainda de pé. Mas e a porteira?
O caminho que leva até a casa tomado pelo mato. Um frio na espinha. E lá na frente, agora sim, já dá pra ver, os dois plátanos com suas folhas pálidas e espalmadas. Depois deles a casa, depois de dois guardas decrépitos.
Desço do carro sem conseguir respirar: uma pressão. A porta da frente caída, a escada desfeita e telhas quebradas. Aonde foi que cheguei, meu Deus! Onde as galinhas e porcos, onde a horta da minha mãe, o bigode do meu pai?
As janelas todas abertas, o mato cobrindo as passagens. Mas o que foi isso? Este ar  escuro aqui dentro com cheiro de mofo.


sexta-feira, 16 de outubro de 2015

UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA

Retomamos a coluna "Um conto para seu fim de semana" com um texto inédito de Menalton Braff.

O QUARTO ESCURO


Quando o pai chegou do serviço, no meio da tarde, com sua altura pisando sobre sua sombra alongada, a mãe veio a seu encontro protegida por um avental manchado de água, com a boca cheia de notícias. Seu olhar derramava tristeza, mas também severidade. Não aguento mais com a vida deste menino, ela resumia com voz aguda de navalha todas as emoções do dia.

O pai, que arrastava uma sombra encurvada, ouviu em silêncio que a mãe não aguentava mais com a vida daquele menino, e as palavras da mãe endureciam os músculos do rosto de seu marido, que, aos poucos, tornavam-se rígidos, colorindo-se de granito.

Não me obedece mais, ele, esse aí.

O pai enxugou a testa na manga da camisa e olhou, do alto de sua altura olhou com olhos cheios de trevas.

Onde?, ele perguntou depois de ouvir a história toda.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA

Conto inédito
 

Abundância de estrelas no céu                   

 
Seus duros pés fincados na plataforma cresciam dormentes de espera. Envolto pela multidão, era quase impossível mover-se do lugar. O reflexo do Sol a meio céu borrava com esplendores, para olhos cansados de ver como eram os seus, o letreiro dos ônibus ─ o destino que prometiam. Ao lado, de mochila às costas, o menino exibia as habilidades recém-adquiridas, gritando para a mãe o nome de bairros próximos e distantes. Sem exagero de gratidão, porque era inconsciente, Noé valia-se daquela ajuda enquanto se esforçava para mudar a posição dos pés enraizados e presos dentro de botas secas.

O menino gritou Paraíso como um alívio alegre, e a mãe sorriu. Antes que o ônibus parasse, corpos suados disputaram o espaço à beira da plataforma. Entre eles, a mãe com o filho preso pela mão. Noé reparou que ela usava uma saia fina e florida, diminuindo seu peso, então resolveu sentir calor. Com os braços em cruz no peito, pegou a blusa pela borda inferior e a retirou por cima da cabeça. Agora sim, ele respirou, agora seu corpo estava muito melhor. Mas o ônibus já partia e ele começou a sentir saudade do menino que sabia ler e de sua mãe que usava uma saia fina e florida.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA

CONTO INÉDITO: Este conto foi escrito durante o Natal. Escrevê-lo foi a minha celebração. A celebração na qual me encontro.         

 

O velho hortelão


Aí vem a moça da creche caminhando por entre os canteiros, a criança pela mão. Ela não sabe de quantas asas se forma um anjo, mas consegue ser mais leve que o ar. A criança, quando se tornou meu neto, jamais imaginaria que viria a ser meu filho, minha última família. O Sol descamba por trás da moça da creche tirando reflexos vivos de seus cabelos angelicais. A criança dá pulos para que suas pernas não sejam molestadas pelas folhas rechonchudas de couve. Elas duas, a moça da creche e a criança, que meu filho e minha nora me deixaram como filho meu, estão vindo na minha direção, vêm descendo pelos caminhos estreitos que dividem os canteiros.

A nuvem alivia meus olhos cansados de sol. É uma nuvem gorda e lenta que me transmite uma sensação de tranquilidade, porque é silenciosa e densa, e não tem pressa de chegar a lugar algum. Ela sabe que sua vida é efêmera, que a qualquer momento, mesmo um momento inesperado, deverá cumprir seu destino inelutável desmanchando-se em chuva sobre as hortas. A criança parece diminuir de tamanho e suas pernas se adelgaçam ao passar pelos canteiros de cenoura, sem necessidade de pulos para se livrar das folhas.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA

* Conto inédito.

Anoitecendo 
Mais de duas horas aqui sentados neste barranco de rio sem qualquer sinal de vida, qualquer mensagem, as boias ali à toa na superfície da água, nos encaramos desistentes. As promessas não se cumpriam, apesar de nossa paciente insistência. O sol, estilhaçado e frio, cai sobre o remanso de onde esperávamos alguma notícia. É um momento meio triste, pois o dia definha irreversível e com alguma lentidão: morrente.

Sabe o quê, a gente, pra não perder a viagem, ainda pode nadar um pouco. E as roupas começam a voar para cima dos arbustos. Mas eu não sei nadar muito bem, alega meu amigo para justificar sua relutância em se jogar na água. Mesmo assim, já está pelado, a pele branca arrepiando-se com a brisa que desce das copas escuras, então arroja seu corpo de pele branca na direção da água e levanta um turbilhão de pingos que aproveitam os restos do dia para brilhar no espaço antes de se misturar novamente ao sorvedouro. A água é quase sempre uma alegria do corpo: o prazer despudorado.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA

Conto inédito

Quatro anos depois

Ontem, depois de quatro anos, resolvi visitar meu túmulo. Era noite e o cemitério, com seus ricos jazigos alternados com pobres sepulturas rasas, não me assustaram, apesar da hora. E do silêncio perturbado apenas pelas asas do vento roçando o alto dos ciprestes. Preferi uma visita noturna, na esperança de não ser atrapalhado por ninguém: funcionários e sobreviventes. As aleias de saibro grosso estavam desertas e fracamente iluminadas por uns raios meio azulados, o luar.

Por sorte meus passos são silenciosos, e isso me evitava o cuidado com a possibilidade de acordar alguém, de sorte que pude caminhar tranquilo, olhando os nomes gravados nas lápides, alguns conhecidos, que me faziam lembrar fatos de minha vida. Uns tantos túmulos me encheram de inveja, pelo zelo dos familiares: isso era respeito à memória de seus mortos. Outros, não. Percebi, no desleixo em que estavam mergulhados, o alívio com a partida do ente querido. Seu olvido.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA

Conto do livro inédito O peso da gravata

Imperador de papel


Como a descoberta tardia de uma vocação. Ou a descoberta tardia de uma vocação. Talvez o encontro, finalmente, de um si mesmo em potência, latente, que, latejante, vem a furo. Um ser tem escolha de si, do modo como será? Ninguém nasce pronto, forma acabada, mas por isso tem poder de escolha? Nos lugares de sombras, onde o sol jamais, e a umidade, como saber o que existe, se espelho algum desce ao fundo?
Minha culpa, entretanto. Não um pecado, pois já cataloguei minhas descrenças; tampouco um crime, que um crime exige uma ação qualquer. Ou sua omissão. Apenas o exercício da função para a qual me chamaram. Isso pode ser a colisão quase milagrosa de dois corpos na imensidão do universo, mas não há culpa.
Tínhamos decidido, costume antigo, jantar juntos depois da estréia. Na calçada, em frente ao teatro e enquanto as luzes se apagavam, ficamos atônitos com o que vimos.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA.

Conto inédito

Quatro anos depois


Ontem, depois de quatro anos, resolvi visitar meu túmulo. Era noite e o cemitério, com seus ricos jazigos alternados com pobres sepulturas rasas, não me assustaram, apesar da hora. E do silêncio perturbado apenas pelas asas do vento roçando o alto dos ciprestes. Preferi uma visita noturna, na esperança de não ser atrapalhado por ninguém: funcionários e sobreviventes. As aleias de saibro grosso estavam desertas e fracamente iluminadas por uns raios meio azulados, o luar.

Por sorte meus passos são silenciosos, e isso me evitava o cuidado com a possibilidade de acordar alguém, de sorte que pude caminhar tranquilo, olhando os nomes gravados nas lápides, alguns conhecidos, que me faziam lembrar fatos de minha vida. Uns tantos túmulos me encheram de inveja, pelo zelo dos familiares: isso era respeito à memória de seus mortos. Outros, não. Percebi, no desleixo em que estavam mergulhados, o alívio com a partida do ente querido. Seu olvido.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA

O conto a seguir faz parte do livro "O peso da gravata e outros contos", ainda inédito.

O violinista


A porta do clube era um clarão de festa sobre o escuro da noite garoenta, quando atravessei a rua muito perpendicular e apressado, pisando por cima de sua umidade. Mal atingi a calçada, o lado de lá, me dei conta de uma certa inflexão familiar naquele som que escapava pelas aberturas do saguão. Não pela melodia, uma ária plangente e bela, executada com bastante freqüência por muitos violinistas. Não. O que me parecia familiar era a execução. Eu conhecia apenas um violinista capaz de arrancar tais soluços das notas mais graves de seu instrumento, que se alternavam com gritos agudos e lancinantes. Em suas mãos, o instrumento tinha alma.
Só então me lembrei de que há mais de seis meses, desde a crise da Orquestra Sinfônica, não tinha tido notícias do Antenor Braga, seu jovem spala. Várias vezes fui visitá-lo no camarim e o encontrava sempre estudando como se fosse aquela sua primeira apresentação. Em minhas críticas no Diário, não me cansava de elogiar o talento que o jovem aliava a um estudo muito sério. Não sei se me culpo a mim ou à vida que levo pelo esquecimento, mas a verdade é que durante este tempo todo muito poucas vezes pensei no meu amigo.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA

*O conto a seguir pertence ao livro, ainda inédito, "O peso da gravata e outros contos".

Imperador de papel


Como a descoberta tardia de uma vocação. Ou a descoberta tardia de uma vocação. Talvez o encontro, finalmente, de um si mesmo em potência, latente, que, latejante, vem a furo. Um ser tem escolha de si, do modo como será? Ninguém nasce pronto, forma acabada, mas por isso tem poder de escolha? Nos lugares de sombras, onde o sol jamais, e a umidade, como saber o que existe, se espelho algum desce ao fundo?
Minha culpa, entretanto. Não um pecado, pois já cataloguei minhas descrenças; tampouco um crime, que um crime exige uma ação qualquer. Ou sua omissão. Apenas o exercício da função para a qual me chamaram. Isso pode ser a colisão quase milagrosa de dois corpos na imensidão do universo, mas não há culpa.
Tínhamos decidido, costume antigo, jantar juntos depois da estréia. Na calçada, em frente ao teatro e enquanto as luzes se apagavam, ficamos atônitos com o que vimos.


sexta-feira, 22 de agosto de 2014

UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA

*O conto a seguir faz parte da coletânea, ainda inédita, "O peso da gravata" e outros contos.

O peso da gravata

 As três notas curtas e uma longa, da Quinta: torpedo. Gonçalo segura o volante com a mão esquerda, liberando a direita para ver que porra de mensagem é esta agora: não esquecer a recepção logo mais às cinco. Joga o aparelho no banco do carona e bate com a mão espalmada na testa: droga, droga, droga! Mais de uma hora pajeando o diretor da Região Sul no aeroporto.
É a terceira vez que manuseia o celular no trajeto curto até o escritório. O aniversário da filha, não se atrasar. A menina em crise, Gonçalo, qualquer hora escapa do controle. Desde quando esta náusea por ouvir a voz da mulher? Depois a secretária. O pessoal da Espanha, doutor Gonçalo, na sala da recepção olhando para o relógio. Muito sérios estes espanhóis, com suas pestanas bastas e as caras de toureiros. Não, medo não, mas eles disseram que embarcam ainda hoje, o senhor está entendendo, doutor Gonçalo? Ainda hoje, e não param de olhar para seus relógios suíços.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA

* Conto que integra a coletânea  inédita "O peso da gravata e outros contos".

Jardim Europa

 Primeiro, Sebastião esticou os braços sonolentos com firmeza, abarcando a saleta da portaria, de parede a parede - sua largura. O gesto forte e rude abriu-lhe em caverna a cavidade do peito de pelame crespo e a boca redonda com dentes muito brancos. Desde o início da noite, vinha mantendo os vidros todos fechados, por isso o ar pareceu-lhe insuficiente e de baixa qualidade: um ar raro. Apesar daquele desfrute da tontura boa, estrelada. Só então, com os olhos bem despertos, resolveu atender aos apelos cada vez mais nítidos do telefone.
Enquanto erguia o aparelho, olhou para o relógio ponto: uma hora ainda para entregar o posto ao porteiro que viria da cidade para rendê-lo. O dia prometia nascer, mas não dava muita certeza, pois não passava de uma barra esbranquiçada que o vigia adivinhava por cima do muro - seu exíguo horizonte. Apesar da noite persistente, achou estranho ninguém ter pedido passagem até aquela hora. A manhã era preparada, ali dentro do condomínio, por um batalhão de funcionários.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA

Paraíso prometido
(conto inédito)

Mas e eu, ela pensava em língua estrangeira na escuridão interrompida apenas pela vela de luz precária. Em seus olhos o ódio pela última pessoa do mundo a mais de quarenta quilômetros. Suas mãos tremiam feridas enquanto o velho molhava a barba com lágrimas antigas. Nem morrer em paz se pode neste inferno, ele dissera ao ser derramado no chão batido da choça. Nem morrer e as lágrimas desciam mornas para a barba crespa. Mas e eu, gritava seu pensamento adolescente, e seu rosto jovem duro se estriava de lágrimas anoitecidas.

O banquinho de três pernas foi posto de pé, e Gustavo sentou-se alisando a corda de embira que ainda abraçava seu pescoço. Gustavo, inteiramente envelhecido, desistente, sem direito algum, nem ao menos o de morrer. A coleira, de tão rústica, machucava os olhos e a tristeza da filha. Mas e eu, seu pensamento continuava insistindo, cada vez mais baixo.

Faltavam ainda algumas horas para o dia, e os catres ficaram esfriando, mudos e com cheiro forte de corpos doloridos de trabalho.