Até aquela idade, teve uma vida comum, de menina que estuda apenas o suficiente enquanto espera o amadurecimento para tornar-se esposa e mãe, uma dona de casa para ser acrescentada como um número nas estatísticas demográficas. Na escola, durante o Ensino Médio, experimentou cigarro e sentiu a boca muito amarga, ficou duas ou três vezes com meninos da classe, conhecendo alguns amassos masculinos em exercício de maturidade. Repetiu, até então, o que via e ouvia em sua volta. Nunca tivera vocação para rebeldias além daquelas de ficar um almoço sem comer, para a aflição da mãe, por não lhe terem permitido passar o fim de semana em excursão com os colegas de classe.
Blog de Literatura do escritor Menalton Braff, autor de 26 livros e vencedor do Prêmio Jabuti 2000.
Páginas
- ALÉM DO RIO DOS SINOS
- AMOR PASSAGEIRO
- Noite Adentro
- O Peso da Gravata
- Castelo de Areia
- Pouso do Sossego
- Bolero de Ravel
- Gambito
- O fantasma da segundona
- O casarão da Rua do Rosário
- Tapete de Silêncio
- À sombra do cipreste
- Antes da meia-noite
- Castelos de papel
- A coleira no pescoço
- Mirinda
- A Muralha de Adriano
- Janela aberta
- A esperança por um fio
- Na teia do sol
- Que enchente me carrega?
- Moça com chapéu de palha
- Como peixe no aquário
- Copo vazio
- No fundo do quintal
- Na força de mulher
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sexta-feira, 3 de junho de 2016
UM CONTO PARA O SEU FIM DE SEMANA
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016
UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA
Mais de duas horas aqui sentados neste barranco de rio sem qualquer sinal de vida, qualquer mensagem, as boias ali à toa na superfície da água, nos encaramos desistentes. As promessas não se cumpriam, apesar de nossa paciente insistência. O sol, estilhaçado e frio, cai sobre o remanso de onde esperávamos alguma notícia. É um momento meio triste, pois o dia definha irreversível e com alguma lentidão: morrente.
Sabe o quê, a gente, pra não perder a viagem, ainda pode nadar um pouco. E as roupas começam a voar para cima dos arbustos. Mas eu não sei nadar muito bem, alega meu amigo para justificar sua relutância
sexta-feira, 4 de dezembro de 2015
UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA
No cruzamento
Aquele era o único recanto da cidade que nestes últimos
cinquenta anos tinha-se mantido sem mudança. Por ali, desde garoto eu passava
todos os dias mais ou menos a mesma hora. Em dias de chuva protegido por uma
capa impermeável e um capuz pontudo e alto, em dias de sol muito quente, o
paletó pendurado às costas preso por um dedo. No cruzamento de duas ruas
tranquilas, de pouco movimento, os vértices que se formavam em esquinas, as
quatro, eram ângulos de noventa graus.
sexta-feira, 20 de novembro de 2015
UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA
Daqui dessa distância posso ver um grupo de crianças
brincando, mas estou longe demais para perceber qual é a brincadeira. Elas
pulam e o movimento de seus braços parece jogar alguma coisa para o alto.
Também não consigo ouvir seus gritos e risadas; posso, contudo, muito bem supô-los.
Com os pés enterrados na areia, não saio do lugar e algumas
ondas me atingem as panturrilhas que se regozijam com o frio da água.
Além das crianças e mais perto dos cômoros um pouco
afastados do mar, uma canoa emborcada, uma canoa escura que deve ter sofrido
sol e chuva de muitas estações. Daqui a impressão que me dá é a de uma carcaça
de baleia, mas de uma baleia já muito morta que mantém a pele seca recobrindo
seu arcabouço. A distância dá ao barco um aspecto de brinquedo infantil.
sexta-feira, 13 de novembro de 2015
UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA
A última viagem
Por obsolescência, dizia o jornalista lá pela
metade da matéria. Será uma despedida reverente, esta última viagem, pelos
cinquenta anos de serviços da locomotiva 524. A 524 levara em sua vida pessoas
da cidade para outras cidades, pessoas que atravessaram oceanos, cortaram os
céus, circundaram o mundo.
sexta-feira, 6 de novembro de 2015
UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA
Um passageiro estranho (conto inédito)
Na madrugada fria de Curitiba embarquei no ônibus que vinha
de Porto Alegre com destino a São Paulo. Encaixei meu corpo na poltrona, a
cortina fechada, e comecei a contar ovelhinhas. Não sei quantas contei porque
muitas delas refugavam a cerca que deveriam ultrapassar com seu pulo, enquanto
outras misturavam-se com os assuntos que naquele dia tinham ocupado meu tempo e
minha mente. Eu estava praticamente derrotado porque meu cliente, relapso, não
tivera o cuidado de apresentar provas e testemunhas convincentes. Mas cabe
recurso, adormeci pensando, e com uma fila de ovelhas no interior de meus
olhos. sexta-feira, 30 de outubro de 2015
CONTOS CORRENTES
O convite
Ao aceitar o convite, Carolina teve um
estremecimento de alegria. Há muito tempo nutria aquela vontade na ponta dos
olhos, por onde entravam as cenas de uma festa, e mesmo o som das músicas, mas
principalmente das palavras felizes e dos risos. Era assim o salão que afagava
com seu pensamento: ambiente de muita alegria. De uma coisa Carolina tinha
consciência de que necessitava – de alegria.
sexta-feira, 23 de outubro de 2015
CONTOS CORRENTES
Dois plátanos (conto inédito de Menalton Braff)
Toca esperar. Ainda bem que alguma sombra, meus
olhos cansados de sol. Lá no alto algum remendo na pista, e os carros vêm
passando. Em lenta fila eles passam. Um caminhão, cinco automóveis, um
intervalo, mas já vem aparecendo outro caminhão. E muitos carros atrás. Até
cheiro de piche. Ainda bem que umas poucas horas nos separam. Nestes três dias
de viagem tive tempo de ensaiar várias vezes como será nosso reencontro. Mas
principalmente busquei na imaginação o semblante ao mesmo tempo surpreso e
incrédulo dos dois ao abrirem a porta. A expressão de alegria? Ali, de pé no
patamar, na frente da porta, parado, o susto. Meu pai, disfarçando a emoção,
como sempre, isto é hora de chegar em casa, garoto!
Esta estrada, quando a usei pela última vez, era de
terra. Com chuva, nem caminhão passava. Beleza de asfalto. Fui atrás do
progresso e o progresso chegou sem mim aqui. O mato das margens sumido. Agora
plantação, tudo cultivado, então a pobreza ficou no passado?
Que eu vou ali, ganho algum e já volto. Nas minhas
costas eu podia adivinhar as lágrimas deles, ou não, mas também a esperança de
que eu cumprisse minha promessa.
Eu só ia buscar o futuro, onde ele estivesse.
Quando passei pelos plátanos, em volta dos quais me criei ensaiando a vida,
tive a tentação de parar, mas apenas virei a cabeça e recebi como uma bênção os
acenos que me fizeram, suas despedidas.
Não que não ajudassem, estes braços. Nós sabíamos.
Mas havia oportunidade de melhor emprego para eles. E o contrato de um diarista
por qualquer bagatela quando o progresso era apenas uma palavra que as pessoas
disponíveis pronunciavam com a boca cheia de esperança.
Cansado de esperar, então parti.
Chegou o bastão, por isso todos começaram a
acelerar, os motores roncando. Não fosse esse calor, um sol desvairado, não
teria tanta pressa de chegar. Umas três horas. Quando passei por esta estrada
na ida, era de terra, alguns trechos de areia grossa, uns córregos cortando o
caminho. Nossa fila em movimento. Com este asfalto, talvez até menos do que
três horas.
Sozinho eu sei que não, ele não daria conta, mas
sempre algum diarista. Meu destino não podia ter sido amarrado àquela terra
pobre, naqueles morros pedregosos. Roçadinho de milho, uma coivara de feijão,
flor de piretro nas tiras de terra entre as pedras, uns pés de mamonas e, lá
embaixo, perto do córrego, aquela faixa estreita de arroz. Que mais? Ah, os
bichos miúdos no terreiro, vivendo uma vida como permitia a natureza. E uns
escassos animais de melhor estatura.
Aí vem a caçamba deles empurrando a gente para o
acostamento. Ainda não se vê o bloqueio lá do alto.
Ou vão logo vir com acusações, este tempo todo.
Bem, se eles estão pensando que desde o início foi
tudo muito fácil pra mim, eles estão é muito enganados. Lavoura dos dois lados.
E era tudo mato sem serventia, um carrascal que até cobra evitava. E assim na
beira da estrada, mas também na subida dos morros. Tudo cultivado. Os anos
passaram por aqui. Nem imaginam, eles. As durezas por que passei nos primeiros
tempos. Os arrependimentos que tive de engolir a seco.
Na descida longa em boa velocidade, o ar-condicionado
me refresca as mãos e o rosto. Cá no sopé, a placa. Entramos em novo município.
Não, o último não, mais umas três horas, acho que devo ainda atravessar, já não
me lembro mais, dois ou três até chegar em casa.
Não é um retorno definitivo. Vão ficar
decepcionados, mas não posso passar de um mês, as obrigações à minha espera. A
gente vai assumindo, sem perceber vai acumulando, bem, mas é pista simples, e
quando vê, vive em função do trabalho. Mas se não fosse assim? Cara doido, ultrapassou o caminhão na faixa contínua, é
pista simples e tenho de diminuir a marcha, como eles?, uns sacos de mamona e
outros de piretro, umas notinhas embrulhadas num lenço e um par de sapatos no
fim do ano. Tudo asfaltado, pois não é que o progresso?!
As portas que eu tive de arrombar, então, nisso
ninguém pensa? Os anos. Não podia contar como vivia, seria pura tristeza.
Apesar de tudo. Sim, porque com um diarista, e a mamãe ajudando um pouco mais,
até melhor do que eu, iam vivendo. Mas quando parti, isso sim, jurei que só
voltava em visita de resgate. O arrimo da velhice.
Agora sim, agora posso acelerar.
Lutei sozinho e me fiz. Hoje volto feito. Quem sabe
comigo. Vendemos tudo, que não é grande coisa. Acho que vou propor como
solução. Comigo. Vão viver muito melhor.
Quantos quilômetros? Não vi. Umas duas horas, duas
e pouco.
Vou chegar ainda dia, nem almoço, porque quero
chegar ainda dia claro. Será que vão me reconhecer? No patamar, parado, na
frente da porta aberta. Isso é hora de chegar em casa, menino? Ele. Talvez não
me reconheçam. Um bigode cheio e alguns cabelos brancos, pelo menos no primeiro
instante podem não me reconhecer, e isso porque não me esperam e acho até que
nem acreditam neste retorno. Por pouco tempo, claro, mas é um retorno. Pra trás
ficaram mil obrigações à minha espera. Outra placa, mais um município. Não me
lembro muito bem: uns dois, não mais que isso.
Na verdade, nem mesmo eu me lembro da minha voz
antiga, que era minha voz ainda nova. Se até a fisionomia dos dois, com o
tempo, foi-se desmanchando, amarelando, até virar duas manchas ocupando minha
memória. Se já quase não me lembro de como eram, vai ser difícil imaginar como
são hoje. Mas a casa, sim, e os dois plátanos plantados na frente, dois guardas
atentos. Olhei pra trás e me acenaram uma despedida. Trabalhar mais, não, vou
proibir. Olhe aqui, meu pai, o senhor já trabalhou na vida até demais, agora
chega.
A placa do município onde nasci. Tenho de segurar o
coração pelos pulsos senão ele dispara. Aqui devo reconhecer até as árvores da
beira da estrada. Meu município. E o Sol ainda está alto. Fui eu mesmo quem
sugeri: um diarista. Tanta gente se oferecendo. Então não se pode dizer que foi
um abandono. O asfalto vai na direção da cidade. Eu fico antes, mas não consigo
me lembrar. As árvores que eu conhecia, que muitas vezes cumprimentei, elas
sumiram? Ah, sim, dois quilômetros depois da ponte.
Agora entro à esquerda porque só pode ser esta
estradinha de terra. Vai para onde?, eu perguntava quando era criança. Vai
parar onde? E minha mãe dizia, Estrada não tem fim, ela não para. Aquele
umbuzeiro velho, ainda de pé. Mas e a porteira?
O caminho que leva até a casa tomado pelo mato. Um
frio na espinha. E lá na frente, agora sim, já dá pra ver, os dois plátanos com
suas folhas pálidas e espalmadas. Depois deles a casa, depois de dois guardas
decrépitos.
Desço do carro sem conseguir respirar: uma pressão.
A porta da frente caída, a escada desfeita e telhas quebradas. Aonde foi que
cheguei, meu Deus! Onde as galinhas e porcos, onde a horta da minha mãe, o
bigode do meu pai?
As janelas todas abertas, o mato cobrindo as
passagens. Mas o que foi isso? Este ar
escuro aqui dentro com cheiro de mofo.
sexta-feira, 16 de outubro de 2015
UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA
Retomamos a coluna "Um conto para seu fim de semana" com um texto inédito de Menalton Braff.
O QUARTO ESCURO
Quando o pai chegou do serviço, no meio da tarde, com sua altura pisando sobre sua sombra alongada, a mãe veio a seu encontro protegida por um avental manchado de água, com a boca cheia de notícias. Seu olhar derramava tristeza, mas também severidade. Não aguento mais com a vida deste menino, ela resumia com voz aguda de navalha todas as emoções do dia.
O pai, que arrastava uma sombra encurvada, ouviu em silêncio que a mãe não aguentava mais com a vida daquele menino, e as palavras da mãe endureciam os músculos do rosto de seu marido, que, aos poucos, tornavam-se rígidos, colorindo-se de granito.
Não me obedece mais, ele, esse aí.
O pai enxugou a testa na manga da camisa e olhou, do alto de sua altura olhou com olhos cheios de trevas.
Onde?, ele perguntou depois de ouvir a história toda.
O QUARTO ESCUROQuando o pai chegou do serviço, no meio da tarde, com sua altura pisando sobre sua sombra alongada, a mãe veio a seu encontro protegida por um avental manchado de água, com a boca cheia de notícias. Seu olhar derramava tristeza, mas também severidade. Não aguento mais com a vida deste menino, ela resumia com voz aguda de navalha todas as emoções do dia.
O pai, que arrastava uma sombra encurvada, ouviu em silêncio que a mãe não aguentava mais com a vida daquele menino, e as palavras da mãe endureciam os músculos do rosto de seu marido, que, aos poucos, tornavam-se rígidos, colorindo-se de granito.
Não me obedece mais, ele, esse aí.
O pai enxugou a testa na manga da camisa e olhou, do alto de sua altura olhou com olhos cheios de trevas.
Onde?, ele perguntou depois de ouvir a história toda.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA
Abundância de estrelas no céu
Seus duros pés fincados na plataforma cresciam dormentes de espera.
Envolto pela multidão, era quase impossível mover-se do lugar. O reflexo do Sol
a meio céu borrava com esplendores, para olhos cansados de ver como eram os
seus, o letreiro dos ônibus ─ o destino que prometiam. Ao lado, de mochila às
costas, o menino exibia as habilidades recém-adquiridas, gritando para a mãe o
nome de bairros próximos e distantes. Sem exagero de gratidão, porque era
inconsciente, Noé valia-se daquela ajuda enquanto se esforçava para mudar a
posição dos pés enraizados e presos dentro de botas secas.
O menino gritou Paraíso como um alívio alegre, e a mãe sorriu. Antes que
o ônibus parasse, corpos suados disputaram o espaço à beira da plataforma.
Entre eles, a mãe com o filho preso pela mão. Noé reparou que ela usava uma
saia fina e florida, diminuindo seu peso, então resolveu sentir calor. Com os
braços em cruz no peito, pegou a blusa pela borda inferior e a retirou por cima
da cabeça. Agora sim, ele respirou, agora seu corpo estava muito melhor. Mas o
ônibus já partia e ele começou a sentir saudade do menino que sabia ler e de
sua mãe que usava uma saia fina e florida.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2014
UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA
CONTO INÉDITO: Este conto foi escrito durante o Natal. Escrevê-lo foi a minha celebração. A celebração na qual me encontro.
O velho
hortelão
Aí vem a moça da creche caminhando
por entre os canteiros, a criança pela mão. Ela não sabe de quantas asas se
forma um anjo, mas consegue ser mais leve que o ar. A criança, quando se tornou
meu neto, jamais imaginaria que viria a ser meu filho, minha última família. O
Sol descamba por trás da moça da creche tirando reflexos vivos de seus cabelos
angelicais. A criança dá pulos para que suas pernas não sejam molestadas pelas
folhas rechonchudas de couve. Elas duas, a moça da creche e a criança, que meu
filho e minha nora me deixaram como filho meu, estão vindo na minha direção,
vêm descendo pelos caminhos estreitos que dividem os canteiros.
O velho
hortelão
Aí vem a moça da creche caminhando
por entre os canteiros, a criança pela mão. Ela não sabe de quantas asas se
forma um anjo, mas consegue ser mais leve que o ar. A criança, quando se tornou
meu neto, jamais imaginaria que viria a ser meu filho, minha última família. O
Sol descamba por trás da moça da creche tirando reflexos vivos de seus cabelos
angelicais. A criança dá pulos para que suas pernas não sejam molestadas pelas
folhas rechonchudas de couve. Elas duas, a moça da creche e a criança, que meu
filho e minha nora me deixaram como filho meu, estão vindo na minha direção,
vêm descendo pelos caminhos estreitos que dividem os canteiros.
A nuvem alivia meus olhos cansados
de sol. É uma nuvem gorda e lenta que me transmite uma sensação de
tranquilidade, porque é silenciosa e densa, e não tem pressa de chegar a lugar
algum. Ela sabe que sua vida é efêmera, que a qualquer momento, mesmo um
momento inesperado, deverá cumprir seu destino inelutável desmanchando-se em
chuva sobre as hortas. A criança parece diminuir de tamanho e suas pernas se
adelgaçam ao passar pelos canteiros de cenoura, sem necessidade de pulos para
se livrar das folhas.
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sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA
* Conto inédito.
Anoitecendo
Mais de duas horas aqui sentados
neste barranco de rio sem qualquer sinal de vida, qualquer mensagem, as boias
ali à toa na superfície da água, nos encaramos desistentes. As promessas não se
cumpriam, apesar de nossa paciente insistência. O sol, estilhaçado e frio, cai
sobre o remanso de onde esperávamos alguma notícia. É um momento meio triste,
pois o dia definha irreversível e com alguma lentidão: morrente.
Sabe o quê, a gente, pra não
perder a viagem, ainda pode nadar um pouco. E as roupas começam a voar para
cima dos arbustos. Mas eu não sei nadar muito bem, alega meu amigo para
justificar sua relutância em se jogar na água. Mesmo assim, já está pelado, a
pele branca arrepiando-se com a brisa que desce das copas escuras, então arroja
seu corpo de pele branca na direção da água e levanta um turbilhão de pingos
que aproveitam os restos do dia para brilhar no espaço antes de se misturar
novamente ao sorvedouro. A água é quase sempre uma alegria do corpo: o prazer
despudorado.
sexta-feira, 7 de novembro de 2014
UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA
Conto inédito
Quatro anos depois
Ontem, depois de quatro anos, resolvi visitar meu túmulo.
Era noite e o cemitério, com seus ricos jazigos alternados com pobres
sepulturas rasas, não me assustaram, apesar da hora. E do silêncio perturbado
apenas pelas asas do vento roçando o alto dos ciprestes. Preferi uma visita
noturna, na esperança de não ser atrapalhado por ninguém: funcionários e
sobreviventes. As aleias de saibro grosso estavam desertas e fracamente
iluminadas por uns raios meio azulados, o luar.
Por sorte meus passos são silenciosos, e isso me evitava o
cuidado com a possibilidade de acordar alguém, de sorte que pude caminhar
tranquilo, olhando os nomes gravados nas lápides, alguns conhecidos, que me
faziam lembrar fatos de minha vida. Uns tantos túmulos me encheram de inveja,
pelo zelo dos familiares: isso era respeito à memória de seus mortos. Outros,
não. Percebi, no desleixo em que estavam mergulhados, o alívio com a partida do
ente querido. Seu olvido.
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA
Conto do livro inédito O peso da gravata
Imperador de papel
Como a descoberta tardia de uma
vocação. Ou a descoberta tardia de uma vocação. Talvez o encontro, finalmente,
de um si mesmo em potência, latente, que, latejante, vem a furo. Um ser tem
escolha de si, do modo como será? Ninguém nasce pronto, forma acabada, mas por
isso tem poder de escolha? Nos lugares de sombras, onde o sol jamais, e a
umidade, como saber o que existe, se espelho algum desce ao fundo?
Minha culpa, entretanto. Não um
pecado, pois já cataloguei minhas descrenças; tampouco um crime, que um crime
exige uma ação qualquer. Ou sua omissão. Apenas o exercício da função para a
qual me chamaram. Isso pode ser a colisão quase milagrosa de dois corpos na
imensidão do universo, mas não há culpa.
Tínhamos decidido, costume antigo,
jantar juntos depois da estréia. Na calçada, em frente ao teatro e enquanto as
luzes se apagavam, ficamos atônitos com o que vimos.
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sexta-feira, 12 de setembro de 2014
UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA.
Conto inédito
Quatro anos depois
Ontem, depois de quatro anos, resolvi visitar meu túmulo.
Era noite e o cemitério, com seus ricos jazigos alternados com pobres
sepulturas rasas, não me assustaram, apesar da hora. E do silêncio perturbado
apenas pelas asas do vento roçando o alto dos ciprestes. Preferi uma visita
noturna, na esperança de não ser atrapalhado por ninguém: funcionários e
sobreviventes. As aleias de saibro grosso estavam desertas e fracamente
iluminadas por uns raios meio azulados, o luar.
Por sorte meus passos são silenciosos, e isso me evitava o
cuidado com a possibilidade de acordar alguém, de sorte que pude caminhar
tranquilo, olhando os nomes gravados nas lápides, alguns conhecidos, que me
faziam lembrar fatos de minha vida. Uns tantos túmulos me encheram de inveja,
pelo zelo dos familiares: isso era respeito à memória de seus mortos. Outros,
não. Percebi, no desleixo em que estavam mergulhados, o alívio com a partida do
ente querido. Seu olvido.
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA
O violinista
A
porta do clube era um clarão de festa sobre o escuro da noite garoenta, quando
atravessei a rua muito perpendicular e apressado, pisando por cima de sua
umidade. Mal atingi a calçada, o lado de lá, me dei conta de uma certa inflexão
familiar naquele som que escapava pelas aberturas do saguão. Não pela melodia,
uma ária plangente e bela, executada com bastante freqüência por muitos
violinistas. Não. O que me parecia familiar era a execução. Eu conhecia apenas
um violinista capaz de arrancar tais soluços das notas mais graves de seu
instrumento, que se alternavam com gritos agudos e lancinantes. Em suas mãos, o
instrumento tinha alma.
Só
então me lembrei de que há mais de seis meses, desde a crise da Orquestra Sinfônica,
não tinha tido notícias do Antenor Braga, seu jovem spala. Várias vezes
fui visitá-lo no camarim e o encontrava sempre estudando como se fosse aquela
sua primeira apresentação. Em minhas críticas no Diário, não me cansava de elogiar
o talento que o jovem aliava a um estudo muito sério. Não sei se me culpo a mim
ou à vida que levo pelo esquecimento, mas a verdade é que durante este tempo
todo muito poucas vezes pensei no meu amigo.
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA
*O conto a seguir pertence ao livro, ainda inédito, "O peso da gravata e outros contos".
Imperador de papel
Como a descoberta tardia de uma
vocação. Ou a descoberta tardia de uma vocação. Talvez o encontro, finalmente,
de um si mesmo em potência, latente, que, latejante, vem a furo. Um ser tem
escolha de si, do modo como será? Ninguém nasce pronto, forma acabada, mas por
isso tem poder de escolha? Nos lugares de sombras, onde o sol jamais, e a
umidade, como saber o que existe, se espelho algum desce ao fundo?
Minha culpa, entretanto. Não um
pecado, pois já cataloguei minhas descrenças; tampouco um crime, que um crime
exige uma ação qualquer. Ou sua omissão. Apenas o exercício da função para a
qual me chamaram. Isso pode ser a colisão quase milagrosa de dois corpos na
imensidão do universo, mas não há culpa.
Tínhamos decidido, costume antigo,
jantar juntos depois da estréia. Na calçada, em frente ao teatro e enquanto as
luzes se apagavam, ficamos atônitos com o que vimos.
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UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA
*O conto a seguir faz parte da coletânea, ainda inédita, "O peso da gravata" e outros contos.
As três notas curtas e uma longa,
da Quinta: torpedo. Gonçalo segura o volante com a mão esquerda, liberando a
direita para ver que porra de mensagem é esta agora: não esquecer a recepção
logo mais às cinco. Joga o aparelho no banco do carona e bate com a mão espalmada
na testa: droga, droga, droga! Mais de uma hora pajeando o diretor da Região
Sul no aeroporto.
O peso da gravata
É a terceira vez que manuseia o
celular no trajeto curto até o escritório. O aniversário da filha, não se
atrasar. A menina em crise, Gonçalo, qualquer hora escapa do controle. Desde
quando esta náusea por ouvir a voz da mulher? Depois a secretária. O pessoal da
Espanha, doutor Gonçalo, na sala da recepção olhando para o relógio. Muito
sérios estes espanhóis, com suas pestanas bastas e as caras de toureiros. Não,
medo não, mas eles disseram que embarcam ainda hoje, o senhor está entendendo,
doutor Gonçalo? Ainda hoje, e não param de olhar para seus relógios suíços.
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA
* Conto que integra a coletânea inédita "O peso da gravata e outros contos".
Jardim Europa
Enquanto erguia o aparelho, olhou
para o relógio ponto: uma hora ainda para entregar o posto ao porteiro que
viria da cidade para rendê-lo. O dia prometia nascer, mas não dava muita
certeza, pois não passava de uma barra esbranquiçada que o vigia adivinhava por
cima do muro - seu exíguo horizonte. Apesar da noite persistente, achou estranho
ninguém ter pedido passagem até aquela hora. A manhã era preparada, ali dentro
do condomínio, por um batalhão de funcionários.
sexta-feira, 27 de junho de 2014
UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA
(conto inédito)
Mas e eu, ela pensava em língua estrangeira na escuridão
interrompida apenas pela vela de luz precária. Em seus olhos o ódio pela última
pessoa do mundo a mais de quarenta quilômetros. Suas mãos tremiam feridas
enquanto o velho molhava a barba com lágrimas antigas. Nem morrer em paz se
pode neste inferno, ele dissera ao ser derramado no chão batido da choça. Nem
morrer e as lágrimas desciam mornas para a barba crespa. Mas e eu, gritava seu
pensamento adolescente, e seu rosto jovem duro se estriava de lágrimas
anoitecidas.
O banquinho de três pernas foi posto de pé, e Gustavo
sentou-se alisando a corda de embira que ainda abraçava seu pescoço. Gustavo,
inteiramente envelhecido, desistente, sem direito algum, nem ao menos o de
morrer. A coleira, de tão rústica, machucava os olhos e a tristeza da filha.
Mas e eu, seu pensamento continuava insistindo, cada vez mais baixo.
Faltavam ainda algumas horas para o dia, e os catres ficaram
esfriando, mudos e com cheiro forte de corpos doloridos de trabalho.
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