A entrevista a seguir foi concedida a Vitor Diel, do veículo "Literatura RS", página do Facebook que veicula notícias e agenda de eventos sobre a literatura produzida e editada no Rio Grande do Sul.
Com 21 livros publicados e dois outros no prelo, Menalton Braff é um
escritor brasileiro em busca de um resgate pela sua origem gaúcha. Nascido em
Taquara, em 1938, Menalton reside em São Paulo desde 1965, embora sinta-se
"gaúcho como os que mais o são", em suas palavras. Foi São Paulo a
terra que viu sua literatura florescer, crescer e acumular prêmios e
indicações. Vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura na categoria "Livro do
Ano - Ficção", em 2000; frequente finalista e semifinalista do Prêmio
Portugal Telecom de Literatura; finalista do Prêmio São Paulo de Literatura por
mais de uma vez; selecionado pelo PNBE em 2010; Menção Honrosa no 50º Prêmio
Casa de las Américas, em Havana; o ex-professor de literatura Menalton tem um
currículo admirável. Nesta entrevista, o autor fala sobre obra, mercado,
escrita, Brasil e Rio Grande do Sul. Confira!
P: Você acha que sua residência em São Paulo há tantos anos o afasta do
círculo literário de sua terra natal?
R: Claro que até certo ponto fico alheio aos acontecimentos e notícias
da Porto Alegre literária. Mas tenho por aí alguns amigos, como o Luís Dill, o
Caio Riter, a Cíntia Moscovich, o Charles Kiefer, o Henrique Schneider, o Jari
da Rocha. As notícias que me chegam são escassas, então fico meio solteiro
nesta história.
P: Suas primeiras obras foram publicadas em 1984, ano seguido de um
hiato que se estendeu até os anos 2000, quando sua produção estourou em prêmios
e indicações. Por que esse intervalo?
R: Foi o tempo do aprendizado. Muita leitura de textos metaliterários e
textos literários. Foram mais de dez anos em que pouco escrevi, mas devorei o
que pude de teoria e literatura. E o que escrevia, quase tudo, jogava no lixo,
inconformado com a qualidade. Ou não tinha consciência de que era um intervalo,
nem me via publicando o que quer que seja. Mas sentia angústia pelo muito que
não conhecia de técnicas narrativas, de teoria da literatura, e de obras
literárias. Lia muito e com paixão, mas não imaginava o que eram as obras
fundamentais da literatura universal.
P: Você publicou por diversas editoras de alcance nacional, como FTD,
Bertrand Brasil, Nova Fronteira e Global. Como você construiu essa aproximação
com tantas casas editoriais?
R: Eu trabalhei quase o tempo todo com agentes
literários, que encaminhavam meus livros de acordo com seus conhecimentos das
linhas editoriais. E isso tudo só foi possível depois de, publicado por uma
pequena editora de Ribeirão Preto –
que não existe mais – ter conquistado um Jabuti.
P: Há mais São Paulo ou Rio Grande do Sul no espírito de sua obra?
R: Segundo me parece, e não sou o melhor analista de minha obra, não há
São Paulo nem Rio Grande do Sul. Como um ser desenraizado, minha tendência foi
quase sempre não marcar tempo tampouco espaço: acronotopia, se é possível o
termo de gosto bakhtiniano.
P: Como você avalia o mercado editorial do Brasil no momento?
R: Difícil. No Brasil lê-se pouco e mal, muito mal. As livrarias
entopem suas prateleiras com auto-ajuda, Best Sellers de gosto duvidoso, e isso
por uma razão muito simples: literatura, mas literatura mesmo, quase não se lê.
As edições de escritores brasileiros são pequenas e demoram muito para desovar.
Se o público não procura literatura, e falo em literatura como alta literatura
segundo o conceito da professora Leyla Perrone-Moisés, ninguém quer arriscar
seu capital com um artigo de pequeníssimo mercado. Mas então resta uma
pergunta: fazer o quê, para reverter a situação? Não sei se a situação é
reversível, mas nós, a maioria dos escritores brasileiros de literatura,
continuamos escrevendo porque isso é um modo de nos mantermos vivos, de sentir
que ainda há vida em nossas veias.
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