quinta-feira, 7 de maio de 2015

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (137)

Alfredo Bosi
Vínhamos comentando a questão dos gêneros em literatura, como parte da estética literária, mas vamos fazer um intervalo para introduzir alguns parágrafos do capítulo 13 - Estudos literários na era dos extremos, do livro Literatura e resistência, do professor Alfredo Bosi.
"... o que me interessa agora é a expressão em si mesma, era dos extremos, no que ela coincide com o sentimento que me despertam as Letras nos últimos anos. Letras, aqui, no sentido amplo e compreensivo de ficção e crítica literária.
O que estaria acontecendo com a cultura letrada no universo aparentemente caótico que se dá aos nossos olhos neste fim de milênio? (...) Haverá algum método nesta loucura?
(...) Talvez o eixo que tem como pólos o indivíduo-massa e o indivíduo diferenciado. E aqui é possível combinar antigas observações da Sociologia da Literatura e novas intuições da Estética da Recepção, ambas voltadas para entender a relação entre o escritor e o público.





O indivíduo-massa, a personalidade construída a partir da generalização da mercadoria, quando entra no universo da escrita (o que é um fenômeno deste século), o faz com vistas ao seu destinatário, que é o leitor-massa, faminto de uma literatura que seja especular e espetacular. Autor e leitor perseguem a representação do show da vida, incrementado e amplificado. Autor-massa e leitor-massa buscam a projeção direta do prazer ou do terror, do paraíso do consumo ou do inferno do crime - uma literatura transparente, no limite sem mediações, uma literatura de efeitos imediatos e especiais, que se equipare ao cinema documentário, ao jornal televisivo, à reportagem ao vivo. Uma explosão de imediatidade e uma correlata implosão do descritivismo estilizado que a escrita realista, vinda dos ideais literários do século XIX, construiu como mímesis da realidade histórica. Lembro, a propósito, a observação de Alberto Moravia sobre o impacto do cinema em toda a cultura letrada do século XX: o filme, imagem em movimento, teria tornado supérflua, para não dizer indigesta, a descrição miúda dita realista, que era a honra dos estilistas que precederam as vanguardas do começo deste século. Moravia chega a dizer que, na era do cinema, se tornou obsoleto o estilo com que Balzac abriu o Père Goriot descrevendo longamente a pensão burguesa que vai servir de teatro ao romance. Uma cena de um minuto supriria, no cinema, o que o romancista levou mais de uma dezena de páginas para compor e comunicar ao seu leitor. Pessoalmente, relendo Balzac, não concordo com o juízo de Moravia, mas não posso deixar de entendê-lo. A literatura da era do cinema e, hoje, da televisão e dos meios eletrônicos dispensaria as mediações literárias tradicionais e nos lançaria diretamente no mundo das imagens suscitadoras de efeitos imediatos. Brutalmente, fulminantemente."

(CONTINUA)

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