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sexta-feira, 23 de outubro de 2015

CONTOS CORRENTES

Dois plátanos (conto inédito de Menalton Braff)

Toca esperar. Ainda bem que alguma sombra, meus olhos cansados de sol. Lá no alto algum remendo na pista, e os carros vêm passando. Em lenta fila eles passam. Um caminhão, cinco automóveis, um intervalo, mas já vem aparecendo outro caminhão. E muitos carros atrás. Até cheiro de piche. Ainda bem que umas poucas horas nos separam. Nestes três dias de viagem tive tempo de ensaiar várias vezes como será nosso reencontro. Mas principalmente busquei na imaginação o semblante ao mesmo tempo surpreso e incrédulo dos dois ao abrirem a porta. A expressão de alegria? Ali, de pé no patamar, na frente da porta, parado, o susto. Meu pai, disfarçando a emoção, como sempre, isto é hora de chegar em casa, garoto!
Esta estrada, quando a usei pela última vez, era de terra. Com chuva, nem caminhão passava. Beleza de asfalto. Fui atrás do progresso e o progresso chegou sem mim aqui. O mato das margens sumido. Agora plantação, tudo cultivado, então a pobreza ficou no passado?
Que eu vou ali, ganho algum e já volto. Nas minhas costas eu podia adivinhar as lágrimas deles, ou não, mas também a esperança de que eu cumprisse minha promessa.
Eu só ia buscar o futuro, onde ele estivesse. Quando passei pelos plátanos, em volta dos quais me criei ensaiando a vida, tive a tentação de parar, mas apenas virei a cabeça e recebi como uma bênção os acenos que me fizeram, suas despedidas.
Não que não ajudassem, estes braços. Nós sabíamos. Mas havia oportunidade de melhor emprego para eles. E o contrato de um diarista por qualquer bagatela quando o progresso era apenas uma palavra que as pessoas disponíveis pronunciavam com a boca cheia de esperança.
Cansado de esperar, então parti.
Chegou o bastão, por isso todos começaram a acelerar, os motores roncando. Não fosse esse calor, um sol desvairado, não teria tanta pressa de chegar. Umas três horas. Quando passei por esta estrada na ida, era de terra, alguns trechos de areia grossa, uns córregos cortando o caminho. Nossa fila em movimento. Com este asfalto, talvez até menos do que três horas.
Sozinho eu sei que não, ele não daria conta, mas sempre algum diarista. Meu destino não podia ter sido amarrado àquela terra pobre, naqueles morros pedregosos. Roçadinho de milho, uma coivara de feijão, flor de piretro nas tiras de terra entre as pedras, uns pés de mamonas e, lá embaixo, perto do córrego, aquela faixa estreita de arroz. Que mais? Ah, os bichos miúdos no terreiro, vivendo uma vida como permitia a natureza. E uns escassos animais de melhor estatura.
Aí vem a caçamba deles empurrando a gente para o acostamento. Ainda não se vê o bloqueio lá do alto.
Ou vão logo vir com acusações, este tempo todo.
Bem, se eles estão pensando que desde o início foi tudo muito fácil pra mim, eles estão é muito enganados. Lavoura dos dois lados. E era tudo mato sem serventia, um carrascal que até cobra evitava. E assim na beira da estrada, mas também na subida dos morros. Tudo cultivado. Os anos passaram por aqui. Nem imaginam, eles. As durezas por que passei nos primeiros tempos. Os arrependimentos que tive de engolir a seco.
Na descida longa em boa velocidade, o ar-condicionado me refresca as mãos e o rosto. Cá no sopé, a placa. Entramos em novo município. Não, o último não, mais umas três horas, acho que devo ainda atravessar, já não me lembro mais, dois ou três até chegar em casa.
Não é um retorno definitivo. Vão ficar decepcionados, mas não posso passar de um mês, as obrigações à minha espera. A gente vai assumindo, sem perceber vai acumulando, bem, mas é pista simples, e quando vê, vive em função do trabalho. Mas se não fosse assim? Cara doido,  ultrapassou o caminhão na faixa contínua, é pista simples e tenho de diminuir a marcha, como eles?, uns sacos de mamona e outros de piretro, umas notinhas embrulhadas num lenço e um par de sapatos no fim do ano. Tudo asfaltado, pois não é que o progresso?!
As portas que eu tive de arrombar, então, nisso ninguém pensa? Os anos. Não podia contar como vivia, seria pura tristeza. Apesar de tudo. Sim, porque com um diarista, e a mamãe ajudando um pouco mais, até melhor do que eu, iam vivendo. Mas quando parti, isso sim, jurei que só voltava em visita de resgate. O arrimo da velhice.
Agora sim, agora posso acelerar.
Lutei sozinho e me fiz. Hoje volto feito. Quem sabe comigo. Vendemos tudo, que não é grande coisa. Acho que vou propor como solução. Comigo. Vão viver muito melhor.
Quantos quilômetros? Não vi. Umas duas horas, duas e pouco.
Vou chegar ainda dia, nem almoço, porque quero chegar ainda dia claro. Será que vão me reconhecer? No patamar, parado, na frente da porta aberta. Isso é hora de chegar em casa, menino? Ele. Talvez não me reconheçam. Um bigode cheio e alguns cabelos brancos, pelo menos no primeiro instante podem não me reconhecer, e isso porque não me esperam e acho até que nem acreditam neste retorno. Por pouco tempo, claro, mas é um retorno. Pra trás ficaram mil obrigações à minha espera. Outra placa, mais um município. Não me lembro muito bem: uns dois, não mais que isso.
Na verdade, nem mesmo eu me lembro da minha voz antiga, que era minha voz ainda nova. Se até a fisionomia dos dois, com o tempo, foi-se desmanchando, amarelando, até virar duas manchas ocupando minha memória. Se já quase não me lembro de como eram, vai ser difícil imaginar como são hoje. Mas a casa, sim, e os dois plátanos plantados na frente, dois guardas atentos. Olhei pra trás e me acenaram uma despedida. Trabalhar mais, não, vou proibir. Olhe aqui, meu pai, o senhor já trabalhou na vida até demais, agora chega.
A placa do município onde nasci. Tenho de segurar o coração pelos pulsos senão ele dispara. Aqui devo reconhecer até as árvores da beira da estrada. Meu município. E o Sol ainda está alto. Fui eu mesmo quem sugeri: um diarista. Tanta gente se oferecendo. Então não se pode dizer que foi um abandono. O asfalto vai na direção da cidade. Eu fico antes, mas não consigo me lembrar. As árvores que eu conhecia, que muitas vezes cumprimentei, elas sumiram? Ah, sim, dois quilômetros depois da ponte.
Agora entro à esquerda porque só pode ser esta estradinha de terra. Vai para onde?, eu perguntava quando era criança. Vai parar onde? E minha mãe dizia, Estrada não tem fim, ela não para. Aquele umbuzeiro velho, ainda de pé. Mas e a porteira?
O caminho que leva até a casa tomado pelo mato. Um frio na espinha. E lá na frente, agora sim, já dá pra ver, os dois plátanos com suas folhas pálidas e espalmadas. Depois deles a casa, depois de dois guardas decrépitos.
Desço do carro sem conseguir respirar: uma pressão. A porta da frente caída, a escada desfeita e telhas quebradas. Aonde foi que cheguei, meu Deus! Onde as galinhas e porcos, onde a horta da minha mãe, o bigode do meu pai?
As janelas todas abertas, o mato cobrindo as passagens. Mas o que foi isso? Este ar  escuro aqui dentro com cheiro de mofo.


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