Dois plátanos (conto inédito de Menalton Braff)
Toca esperar. Ainda bem que alguma sombra, meus
olhos cansados de sol. Lá no alto algum remendo na pista, e os carros vêm
passando. Em lenta fila eles passam. Um caminhão, cinco automóveis, um
intervalo, mas já vem aparecendo outro caminhão. E muitos carros atrás. Até
cheiro de piche. Ainda bem que umas poucas horas nos separam. Nestes três dias
de viagem tive tempo de ensaiar várias vezes como será nosso reencontro. Mas
principalmente busquei na imaginação o semblante ao mesmo tempo surpreso e
incrédulo dos dois ao abrirem a porta. A expressão de alegria? Ali, de pé no
patamar, na frente da porta, parado, o susto. Meu pai, disfarçando a emoção,
como sempre, isto é hora de chegar em casa, garoto!
Esta estrada, quando a usei pela última vez, era de
terra. Com chuva, nem caminhão passava. Beleza de asfalto. Fui atrás do
progresso e o progresso chegou sem mim aqui. O mato das margens sumido. Agora
plantação, tudo cultivado, então a pobreza ficou no passado?
Que eu vou ali, ganho algum e já volto. Nas minhas
costas eu podia adivinhar as lágrimas deles, ou não, mas também a esperança de
que eu cumprisse minha promessa.
Eu só ia buscar o futuro, onde ele estivesse.
Quando passei pelos plátanos, em volta dos quais me criei ensaiando a vida,
tive a tentação de parar, mas apenas virei a cabeça e recebi como uma bênção os
acenos que me fizeram, suas despedidas.
Não que não ajudassem, estes braços. Nós sabíamos.
Mas havia oportunidade de melhor emprego para eles. E o contrato de um diarista
por qualquer bagatela quando o progresso era apenas uma palavra que as pessoas
disponíveis pronunciavam com a boca cheia de esperança.
Cansado de esperar, então parti.
Chegou o bastão, por isso todos começaram a
acelerar, os motores roncando. Não fosse esse calor, um sol desvairado, não
teria tanta pressa de chegar. Umas três horas. Quando passei por esta estrada
na ida, era de terra, alguns trechos de areia grossa, uns córregos cortando o
caminho. Nossa fila em movimento. Com este asfalto, talvez até menos do que
três horas.
Sozinho eu sei que não, ele não daria conta, mas
sempre algum diarista. Meu destino não podia ter sido amarrado àquela terra
pobre, naqueles morros pedregosos. Roçadinho de milho, uma coivara de feijão,
flor de piretro nas tiras de terra entre as pedras, uns pés de mamonas e, lá
embaixo, perto do córrego, aquela faixa estreita de arroz. Que mais? Ah, os
bichos miúdos no terreiro, vivendo uma vida como permitia a natureza. E uns
escassos animais de melhor estatura.
Aí vem a caçamba deles empurrando a gente para o
acostamento. Ainda não se vê o bloqueio lá do alto.
Ou vão logo vir com acusações, este tempo todo.
Bem, se eles estão pensando que desde o início foi
tudo muito fácil pra mim, eles estão é muito enganados. Lavoura dos dois lados.
E era tudo mato sem serventia, um carrascal que até cobra evitava. E assim na
beira da estrada, mas também na subida dos morros. Tudo cultivado. Os anos
passaram por aqui. Nem imaginam, eles. As durezas por que passei nos primeiros
tempos. Os arrependimentos que tive de engolir a seco.
Na descida longa em boa velocidade, o ar-condicionado
me refresca as mãos e o rosto. Cá no sopé, a placa. Entramos em novo município.
Não, o último não, mais umas três horas, acho que devo ainda atravessar, já não
me lembro mais, dois ou três até chegar em casa.
Não é um retorno definitivo. Vão ficar
decepcionados, mas não posso passar de um mês, as obrigações à minha espera. A
gente vai assumindo, sem perceber vai acumulando, bem, mas é pista simples, e
quando vê, vive em função do trabalho. Mas se não fosse assim? Cara doido, ultrapassou o caminhão na faixa contínua, é
pista simples e tenho de diminuir a marcha, como eles?, uns sacos de mamona e
outros de piretro, umas notinhas embrulhadas num lenço e um par de sapatos no
fim do ano. Tudo asfaltado, pois não é que o progresso?!
As portas que eu tive de arrombar, então, nisso
ninguém pensa? Os anos. Não podia contar como vivia, seria pura tristeza.
Apesar de tudo. Sim, porque com um diarista, e a mamãe ajudando um pouco mais,
até melhor do que eu, iam vivendo. Mas quando parti, isso sim, jurei que só
voltava em visita de resgate. O arrimo da velhice.
Agora sim, agora posso acelerar.
Lutei sozinho e me fiz. Hoje volto feito. Quem sabe
comigo. Vendemos tudo, que não é grande coisa. Acho que vou propor como
solução. Comigo. Vão viver muito melhor.
Quantos quilômetros? Não vi. Umas duas horas, duas
e pouco.
Vou chegar ainda dia, nem almoço, porque quero
chegar ainda dia claro. Será que vão me reconhecer? No patamar, parado, na
frente da porta aberta. Isso é hora de chegar em casa, menino? Ele. Talvez não
me reconheçam. Um bigode cheio e alguns cabelos brancos, pelo menos no primeiro
instante podem não me reconhecer, e isso porque não me esperam e acho até que
nem acreditam neste retorno. Por pouco tempo, claro, mas é um retorno. Pra trás
ficaram mil obrigações à minha espera. Outra placa, mais um município. Não me
lembro muito bem: uns dois, não mais que isso.
Na verdade, nem mesmo eu me lembro da minha voz
antiga, que era minha voz ainda nova. Se até a fisionomia dos dois, com o
tempo, foi-se desmanchando, amarelando, até virar duas manchas ocupando minha
memória. Se já quase não me lembro de como eram, vai ser difícil imaginar como
são hoje. Mas a casa, sim, e os dois plátanos plantados na frente, dois guardas
atentos. Olhei pra trás e me acenaram uma despedida. Trabalhar mais, não, vou
proibir. Olhe aqui, meu pai, o senhor já trabalhou na vida até demais, agora
chega.
A placa do município onde nasci. Tenho de segurar o
coração pelos pulsos senão ele dispara. Aqui devo reconhecer até as árvores da
beira da estrada. Meu município. E o Sol ainda está alto. Fui eu mesmo quem
sugeri: um diarista. Tanta gente se oferecendo. Então não se pode dizer que foi
um abandono. O asfalto vai na direção da cidade. Eu fico antes, mas não consigo
me lembrar. As árvores que eu conhecia, que muitas vezes cumprimentei, elas
sumiram? Ah, sim, dois quilômetros depois da ponte.
Agora entro à esquerda porque só pode ser esta
estradinha de terra. Vai para onde?, eu perguntava quando era criança. Vai
parar onde? E minha mãe dizia, Estrada não tem fim, ela não para. Aquele
umbuzeiro velho, ainda de pé. Mas e a porteira?
O caminho que leva até a casa tomado pelo mato. Um
frio na espinha. E lá na frente, agora sim, já dá pra ver, os dois plátanos com
suas folhas pálidas e espalmadas. Depois deles a casa, depois de dois guardas
decrépitos.
Desço do carro sem conseguir respirar: uma pressão.
A porta da frente caída, a escada desfeita e telhas quebradas. Aonde foi que
cheguei, meu Deus! Onde as galinhas e porcos, onde a horta da minha mãe, o
bigode do meu pai?
As janelas todas abertas, o mato cobrindo as
passagens. Mas o que foi isso? Este ar
escuro aqui dentro com cheiro de mofo.
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