A mão esquerda
Roniwalter Jatobá*
Ruas, todas no Brás, cheias de vai e vem no fim da tarde:
Rangel Pestana, Joaquim Nabuco, Gomes Cardim e a Cavalheiro cheia, também, de
ônibus que vão cruzar estradas, Estados e, gente nas ruas, aqui, bestando,
correndo pra estação do trem da Central procurando rumo de São Miguel Paulista,
Guaianases, Moji, passando homens, mulheres, crianças, todos com seus sonhos,
sem sonhos e sonolentos, que partem, que chegam, que trazem esperanças, que
voltam vazios de fé, bem vestidos de roupas coloridas, jaquetas compradas a
prestações, já liquidadas na Rua Oriente, Maria Marcolina, que apreciam
violeiros no Largo da Concórdia e discos ouvidos nas portas das lojas, que
compram elixir milagroso de um homem apregoando o remédio para todos os males
do corpo.
Você, parado, olhando as rodas de gente observa os passos
dos homens neste começo de noite e o movimento da rua, lhe xingam por
atrapalhar o rebuliço na calçada apertada, você nem liga e só chega mais pra
perto do meio-fio dando passagem. Continua olhando o motorista de um ônibus
quando ele começa a receber as passagens, depois, quando coloca as malas no
bagageiro. Pra você tudo aquilo por ora é importante, parece ser, depois você
descobre que existe na calçada do outro lado da rua um
homem parado, calado,
que olha o ônibus, aí, ele vai se aproximando devagar, devagarinho no rumo do
ônibus, vai se esforçando em carregar a mala com a mão direita. A mão esquerda,
você vê, aparece dentro das suas vistas como uma volumosa mancha branca. A
mancha, agora, cresce dentro destes olhos seus.
No homem: existe uma história, uma linguagem que é parecida
com a sua, uma magreza na face que é a magreza sua, e você se sente como se
fosse ele. E assim é.
Não há dúvida
que o ônibus é aquele. Nada mudou: o azul tomando toda a lataria, faixas
brancas correndo pelo azul, o cavalo empinando e querendo galopar desenhado na
porta, o motorista outro, nestes anos. Hoje, assim como o motorista mudou, não
há na calçada da Rua Cavalheiro aquele menino que chorava medroso agarrado às
calças brancas do homem, deixando as marcas de suas mãos meladas de doce, que
havia na vinda, quatro anos contados nos dedos firmes, bem assim cheguei. Havia
o medo da rua que eu olhei, conferi um lado da rua, o outro, e senti tudo
estranho no que eu via, esse mundo de São Paulo, de sonhos sonhados nas beiras
do rio me empapuçando de jaca mole ou rezando com o pensamento nessa terra, lá,
nas novenas de janeiro com o olho gordo nas formas das moças: Deolinda, Mila,
Tonha, todas.
Tento me esforçando segurar a mala com a mão direita, a mão
canhota me dói, me arde, queima como se brasa corresse a pele, desisto, confiro
a passagem. Não sinto os dedos ou restos de dedos da mão esquerda que estão
escondidos nesta faixa de pano branco, agora, pardo sujo de poeira que balança
ao menor movimento do meu corpo, o braço procurando apoio, doendo. Levanto a
mala e saio arrastando o peso no rumo dos ônibus, pessoas passando apressadas,
como um coro barulhento de vozes, deles, e se perdem, os vultos, nas ruas atrás
dos postes e das cores dos carros. Agora, volto no acompanhamento das notícias
que já foram, há dias, avisando.
Fico lembrando a mesa da prensa pintada de tinta recente,
azul, o molejo dela no sobe e desce e minha mão que ficou parada como mão de
morto, mão de morto pois nem veio no pensamento da cabeça aquela vontade e
ligeireza de puxar a mão, fiquei na frieza de um homem morto, a mão recebeu a
força das toneladas de peso, ainda vi a cor do sangue, os dedos esmagados,
esfolados numa cor só, e fui vendo a morte, o medo de morrer que se fez sentir
com os gritos que soltei, gritei, gritei de dor, raiva de acontecer aquilo, o
grito ecoando nas outras prensas, homens correndo, vi, homens me segurando nos
braços, segurando agarrando minha cabeça que começava a pender de banda, vi, o
assoalho lavado de sangue, fui vendo, vendo, sumindo, se apagando os homens,
neblinando nas vistas os dedos sujos, nada mais vi. Depois, vi a roupa branca
do enfermeiro, o olhar dele de dó, a minha mão parada, quieta ao lado do corpo,
sem dor na hora agora, só pesada sem se bulir, um frio em todo o corpo de vento
gelado. E foi passando na cabeça o meu choro, o sangue melando a máquina, o
azul dela, fui sentindo vergonha, não me veio um tico de nada de ódio da
prensa, da prensa que me deixou com tocos de dedos, um homem aleijado,
inutilizado como dizem por aí, não, não senti raiva cega da máquina, só da
minha fraqueza, do meu medo, do descuido, do choro, essa mão, agora, pois vê,
pesada e quieta como se não parecesse minha.
Natanael
Martins, filho de Elias e Marta Martins, solteiro, vinte e três anos... assim
preenchi a ficha na fábrica, rabiscando, desenhando as letras bem como dona
Zilda tinha ensinado. Empregado, fichado, carimbo estampado em azul nas páginas
da profissional, na primeira semana de serviço na fábrica, beirada de linha
Santos-Jundiaí, na Lapa. De pouco tempo, aqui, ficava achando impossível
escutar, pois escutava, o barulho da bigorna na ferraria do meu pai, aquele
barulho de lá, zunindo, se indo pelas frestas da casa, os ouvidos de mãe
acostumados, nem ligando mais, o zunir de ferro contra ferro, ferro saindo em
labaredas, se queimando, vermelho em brasa, e aquele toque se pondo em choque
na rua, se escutando ao longe, eu na ajuda, repicando, aprendendo.
Uma semana, duas semanas, três semanas, fui dizendo isso pra
casa, informando a família que nesse tempo, agora passado, já tinha a carteira
profissional fichada, no primeiro pagamento, que não é muito, mando alguma
coisa, um adjutório. Uma carta que queimava a mão, que me suava entre os dedos,
que foi seguindo por mão própria e daqui a três dias mãe ia sair pela noite, ia
cruzar a rua com um candeeiro em cima da cabeça alumiando os seus passos, o
vento ia zunir de leve no tempo morno fazendo tremular a labareda e ia aí
alguém ler pra ela essas linhas que escrevo neste quarto.
Terceira semana aqui em São Paulo é o começo de tudo.
Segunda-feira me levantando no chegante da manhã e me indo como todo mundo vai
no rumo da Lapa. Tudo em volta, a viagem de trem que me atrai sempre, atraindo
mais, desço do trem, caminho pela rua da fábrica, confiro a profissional no
bolso da calça, pergunto as horas ao primeiro passante, seis e quinze, o homem
me responde assustado e caminha apressado pela rua coberta de fumaça branca de
neblina, encosto na parede esburacada da fábrica e fico esperando o horário das
sete que vai fazer acordar o movimento do prédio que, agora, parece tão morto,
tão triste e silencioso.
Você vai indo sentado de olhos parados e encostado ao vidro
da janela do ônibus e vê a rua. Nada pra você é estranho: a rua, a fábrica que
você vê todo dia, o mendigo encolhido tremoso de frio coberto de jornal naquela
esquina, o vento que sopra dos trilhos como soprado pelas locomotivas que
passam pegando velocidade e você passa dentro do ônibus olhando a rua, quem
sabe até me vê caminhando nessa hora da manhã no rumo da fábrica nesse primeiro
dia de trabalho ou me vê já parado quieto aqui na frente esperando a hora, sete
horas. Não lhe aceno nem você também, somos estranhos e desconhecidos.
Às sete horas, faça sol ou chuva, a fábrica começa a se
movimentar, vou caminhando entre as máquinas, muitas máquinas que tomam os
cantos, o meio e os lados do grande terreno construído há muito tempo. Pouco
converso, logo não conheço ninguém, faço só o que me mandam. Gostaria de falar
de pai, do trabalho dele na ferraria de sol a sol com dias entrando na noite,
sei, aqui ninguém conhece ele. Nem o lugar de onde vim, como é mesmo o nome?,
isso quando pude falar, repeti, não conheço não, dizem. Quem iria conhecer o
Elias Ferreiro?, fico me achando bobo por achar que esses homens que trabalham
nessas máquinas tão cheias de vida, tão ligeiras que sobem e descem no simples
apertar do botão, depois no pedal, sobem e descem com as peças saindo de lado,
prontas, certinhas como se Elias Ferreiro tivesse trabalhado, suado na
forjaria, suando na bigorna três semanas pra fazer uma, uma só peça tal e qual,
tivessem ciência da vida dele.
Dias, sempre, ficava, entre uma labuta e outra, olhando as
chapas de aço fino seguras nas mãos de seu Ismael, vendo seu Ismael apertar nos
botões, o pé no pedal, botar a chapa uma por uma na mesa da prensa e a prensa
descer, subir, descer, consumindo as chapas e fazendo delas peças e mais peças.
Eu ficava como dormindo, esquecia o outro serviço, depois me lembrava, corria
fazendo a obrigação, voltava e me postava junto da prensa com o corpo parado,
quieto, quase não se movendo, as vistas descendo e subindo como o movimento da
máquina, no acompanhamento dela. Seu Ismael me olhava com cara de pai, sorria
do meu interesse e dizia que olhando se aprende, ele tinha aprendido assim, vai
vendo, vai gravando na cabeça os botões, o pedal, quem sabe um dia precisem de
alguém pra ficar no meu lugar, não lhe aconselho esse serviço de doido,
completava. Não gosto de falar nesse homem, o caso do seu Ismael como falam por
aí, que me ensinou, me fez ver as artimanhas da prensa, resumia os perigos dela
-- cuidado!, depois, a máquina alcançou a sabedoria dele, alguns dizem que ele já
era velho, não achava, foi descuido, cochilo na hora que a prensa desceu e
encontrou a mão dele, os dedos no caminho, cortou fora só um, muita sorte,
disseram.
Todos os dias, o movimento das máquinas que batem e rebatem,
as peças ficando prontas, o barulho das prensas fazendo com que a gente pouco
converse dentro da fábrica, pouco se fale, a zoada escondendo as nossas vozes
ou fazendo entender as palavras muito mal. Pouco ligava pra conversa. Ficava
era olhando querendo aprender. Queria aprender a apertar aquele botão verde na
hora certa, ver a chapa fina se transformar naquela peça que se esconde em
todos os carros.
E toda noite de domingo escrevia pra casa contando dessa
vitória, que um prensista disse que ia me ensinar, estava quase aprendendo, ia
me fazer prensista igual a ele. Querendo aprender a apertar aquele botão
vermelho que segura a máquina, a prensa fica parada no ar esperando o outro
botão, o pedal ser apertado, ficava só olhando, tudo aquilo ia entrar no juízo
não ia demorar muito, contava imaginando.
Durante as noites ficava rabiscando no papel uma maneira de
aprender mais ligeiro, que aquela idéia toda me entrasse na cabeça, que aqueles
botões não se embaralhassem nesse juízo de pouco estudo e, quando eu novamente
escrevesse pra casa e contasse pra pai que trabalho naquela máquina, o nome
dela é prensa, diria o modelo, a tonelagem da força dela, aquela máquina que
faz o serviço de um ano dele em poucas horas, ele não vai acreditar e vai pedir
pra dona Zilda, que é quem escreve as cartas respondendo as minhas, pra sondar
como é a máquina, se é grande, como ela trabalha, quantas pessoas lidam com
ela. E de noite quando estiver lá no quarto da pensão na Rangel Pestana, que
rasgar o envelope, que começar a ler as palavras dele, sei que vou rir da pouca
sabedoria dele, dele nem imaginar nada daquela máquina que tem lá na fábrica.
Sei, sim, que vou rir.
E vou continuar a rir, amanhã no trem, no primeiro trem da
manhã, me rindo e me perguntando por que todo mundo que anda ali no trem,
encostado na porta, respirando o vento frio e molhado dessa hora fica com a
tristeza estampada no rosto, olhos pesados, sanados, pouco conversa. Como
gostaria de contar pra alguém, dizer da máquina, da prensa pintada de azul com
os botões azuis, vermelhos, verdes e que faz vencidades de peças por dia. Mas
todos dentro do trem parecem dormir.
No domingo, pego na caneta e escrevo pra casa. Vou contar
que já tomo conta da máquina sozinho, vou dizer que a sorte me ajudou, não vou
contar do acidente, do dedo de seu Ismael perdido, conto que seu Ismael
adoeceu, assim não preocupo o juízo fraco de mãe, escrevo que faltou gente pra
botar a máquina pra funcionar, me ofereci, ninguém, acho que nem eu acreditava,
coloquei a máquina pra virar, no começo o movimento da prensa foi devagar,
devagarinho, depois, já quase no final da tarde, ela descia e subia na
ligeireza do meu pé que tocava o pedal de comando.
E no trem no fim da tarde aparecia a minha prensa, toda azul
me aparecendo perfeita como era lá na fábrica, pelo vidro sujo da janela.
Olhava para os lados, uma vontade crescente de pegar alguém pelo braço e pedir
pra ele ver também na janela até a marca da máquina que aparecia completa no
fosco do vidro. Ninguém acreditaria, mesmo, me chamariam de doido ou ririam da
minha cara, achava. Quietava num canto. Ficava sozinho com esta minha visão que
sabia não ser verdade, mas acreditava nela.
Não via a hora do domingo passar, escrevia a carta no fim da
tarde ou ficava vendo as pessoas passarem em direção aos bares do Brás, no rumo
do Cine Piratininga, nada disso me animava, como ia dizendo, escrevia a carta
que na segunda-feira iria para o correio, e ficava torcendo que o resto do
domingo se fosse mais rápido, que o domingo desaparecesse logo, que o dia
findasse, que a noite aparecesse e no sono da noite as horas corressem
ligeiras. E chegasse a segunda-feira. Pulando da cama antes do toque alto do
relógio despertador. Pegando o primeiro trem da manhã, descendo na estação e me
indo devagar pela rua que já se movimenta de gente, chegando em frente à
fábrica faltando meia hora pras máquinas começarem a funcionar no trabalho
diário, não vendo a hora que os relógios apontassem o ponteiro nas sete horas.
Aí, vendo a máquina, a prensa, como viva na minha frente, parecendo gente de
corpo, de alma, a máquina que fazia o trabalho de mil Elias, meu pai, Ferreiro,
parado e lento Elias, bem comparado.
O motorista do ônibus vê a minha mão enfaixada enrolada de
pano e segura na mala me ajudando. Ele pega a passagem. Subo no ônibus. Parece
que mudei nesses derradeiros dias, devo ter mudado. Quando comecei a trabalhar
na prensa, na máquina de seu Ismael, esqueci do mundo e dele que tinha me
ensinado, achava que aquilo era tudo que queria na vida. Sem os dedos não vai
ser mais prensista, dizem, agora. E contei nas mesmas linhas da carta essa
história toda pra Elias e Marta. E quando minha mãe subir a ruazinha de
candeeiro na cabeça, carta amassando no escuro da noite, a luz apaga não apaga
no rumo da casa de dona Zilda, quando dona Zilda começar a ler a carta, esta
carta que escrevi há quatro dias, ela vai enrugar a testa, dar uma parada na
leitura, olhar pra minha mãe, meu pai vai tossir forte naquela tosse forte dele
limpando a garganta e vai lá fora pra dar uma cuspida no terreiro, enquanto
isso dona Zilda vai ficar olhando pra minha mãe, vai dizer estranho, vai saltar
as linhas em que eu falo da minha mão e dos dedos perdidos e, quando meu pai
novamente entrar na casa limpando o nariz na manga da camisa curta, dona Zilda
vai esperar ele sentar na cadeira, ela vai enrugar e desenrugar a testa e vai
dizer que seu filho Natanael já vem quase chegando.
Mais tarde, não vai ter ninguém naquela hora acordado, mas o
massacre daquela bigorna vai encher o silêncio da noite de um som alegre de
chegada acordando meio mundo.
Mãe vai dizer: Elias vai dormir!
Ele vai responder: não, o repique na bigorna, a brincadeira
de repicar no ferro do homem aqui e
Natanael, meu filho, logo vai recomeçar.
E parece que você sentado na poltrona do ônibus vai vendo o
velho Elias forjar a ferradura vermelha em fogo sobre a bigorna e olha o ferro
em brasa que esfria sobre a mesa, esperando o retoque final, o retoque final
seu.
E você no pensamento pergunta respostando:
Ferreiro Natanael onde andou teu corpo?
Sei que andou andou;
Prensista Natanael onde andou tua mão?
Sei que andou andou:
Homem Natanael onde andou teu sonho?
Sei que andou andou
Ferreiro, Prensista, Homem Natanael onde andou tua vida?
Desandou desandou
E Elias, teu pai, Elias Ferreiro, esperando, de longe,
grita:
Filho Natanael, pois retoque e repique este ferro em brasa
na bigorna tua.
*Da Enciclopédia Itaú Cultural:
Biografia
Roniwalter Jatobá de Almeida (Igreja Nova, atual Campanário
MG 1949). Contista, romancista e cronista. Em 1960, muda-se com a família para
Bananeiras, Bahia, e conclui seus estudos secundários em Campo Formoso, Bahia.
Incentivado por seus professores, em 1961,
escreve poemas inspirados no poeta Augusto dos Anjos (1884 - 1914). Aos
15 anos começa a trabalhar com o pai transportando mercadorias em caminhão.
Muda-se para São Paulo, em 1970, e vai morar no bairro de São Miguel Paulista,
empregando-se como operário na indústria química, e depois, em São Bernardo do
Campo, na indústria metalúrgica. Em 1973 transfere-se para São Paulo, para
trabalhar como gráfico na Editora Abril. Conclui o curso secundário, fazendo o
supletivo noturno, e é transferido para a redação de uma das revistas do grupo.
Matricula-se na faculdade de jornalismo, em 1975. Sua
estréia literária ocorre em 1976, com os contos de Sabor de Química. Em 1980
colabora com jornais e escreve crítica literária para a Folha de S.Paulo. Dez
anos depois cria a Oficina da Palavra da Secretaria de Estado da Cultura de São
Paulo e assume a diretoria da União Brasileira de Escritores - UBE. Jatobá tem
na vida proletária seu universo de criação. Tem contos publicados na Alemanha,
Suécia e Itália.

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