Esta coluna reproduz análises de obras literárias escritas por Menalron Braff e publicadas originalmente em seu site.
O título escolhido para hoje foi Fogo Morto, de José Lins do Rego.
A obra
Fogo morto é romance regionalista, inserindo-se entre as
obras do ciclo da cana de açúcar de JLR. Escrito em terceira pessoa, cede
grande espaço para o discurso direto e o diálogo entre personagens.
• Estruturado em três partes:
"O Mestre José Amaro",
"O Engenho de seu Lula",
"O Capitão Vitorino".
• Em cada uma das partes desenvolve-se a história centrada
em uma das personagens referidas no título.
• Tematicamente, a primeira parte coloca os problemas
atuais, contemporâneos, comparecendo todas as personagens, mas tendo o Mestre
Amaro como centro. Na segunda parte, o narrador faz um mergulho no passado, de
onde recupera o período de formação da cultura canavieira ainda no Brasil
Colônia. A terceira parte é um retorno para o presente, mas agora em um período
de decadência, resultado dos conflitos vividos pelas personagens, mas também
como conseqüência de problemas conjunturais.
• Primeira parte: A personagem principal é o Mestre Amaro,
seleiro que vive como agregado em um pedaço de terra do engenho Santa Fé na companhia
de sua mulher e de uma filha solteira. Uma espécie de alterego do narrador,
Mestre Amaro é a própria denúncia social, criticando violentamente poderosos ou
não. Acaba envolvendo-se com o Capitão Antônio Silvino (cangaceiro). Sua filha
enlouquece e é levada para um hospital distante. Sua mulher o abandona. O
Mestre Amaro adquire fama de lobisomem. Sozinho, desiludido, comete suicídio.
• Segunda parte: A personagem principal é o Coronel Lula de
Holanda, dono do engenho Santa Fé. Historia a formação do engenho, iniciando pelo
fundador, o Capitão Tomás Cabral, sogro do Coronel Lula.
Desprestigiado, enfraquecido, o Coronel Lula caminha na
direção da demência. Torna-se personagem ridícula ao tentar manter o antigo fastígio
da família. Tenta expulsar M.Amaro de suas terras, mas este resiste, com a
proteção do Capitão Silvino.
• Terceira parte: O Capitão Vitorino Carneiro da Cunha é a
personagem central da terceira parte, e uma das personagens mais fascinantes da
literatura de JLR. Verdadeiro D. Quixote do sertão, no dizer de alguns críticos,
é na realidade um misto de palhaço e herói. Atenazado pela meninada (papa-rabo)
que persegue com relho ou faca, é, contudo, respeitado pela sua origem (primo
dos principais coronéis da região) e por sua bravura. A única personagem com
exato senso de justiça, enfrenta perigos de peito aberto, e de alguma forma, de
maneira ridícula.
O autor: José Lins do
Rego
Nasceu em 3 de junho de 1901 no município de Pilar(Paraíba).
Descendente de senhores de engenho nordestinos, fará da paisagem de sua
infância a principal temática de sua obra literária. Com dezesseis anos conclui
o ginásio, em João Pessoa e em 1920 matricula-se na Faculdade de Direito de
Recife. É dessa época sua amizade com o sociólogo Gilberto Freyre, cujas idéias
marcaram o jovem estudante.
Em 1925, já formado, assume a função de fiscal de bancos em
Maceió, Alagoas, onde entra em contato com Graciliano Ramos, Raquel de Queirós,
Jorge de Lima e Aurélio Buarque de Holanda, autores que terão grande influência
nos destinos literários de José Lins do Rego.
Autor típico da 2a. geração modernista brasileira, sua obra
pode ser dividida em três grupos, ou ciclos:
Ciclo da cana de açúcar:
Menino de Engenho
Doidinho
Bangüê
Usina
Fogo Morto
Ciclo do cangaço:
Cangaceiros
Pedra bonita
Romances avulsos:
Moleque Ricardo
Pureza
Riacho Doce
Eurídice
Características
Memorialista, na maior parte de
sua produção, situa suas personagens no ambiente em que ele mesmo, JLR, passou
sua infância, ou seja, na região canavieira do Nordeste. Linguagem simples, sem
pretensões "literárias", mas com inflexões regionais. Telúrico: a
paisagem é parte fundamental em sua ficção. Espontaneísmo: Sua fonte, conforme
afirma, são os cantadores nordestinos. Oralidade: vocabulário e organização
sintática coloquiais
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