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sexta-feira, 7 de outubro de 2016

CONTOS CORRENTES

O Corredor
(Conto de Ely Vieitez Lisboa*, do livro A Senhora das Sombras).
                                               
         O corredor é escuro e tortuoso. As paredes, limosas; o cheiro de mofo entra pelas narinas. Lá na frente, a pequena porta iluminada. Pessoas estranhas caminham pelo corredor, sombrias, chapéus enterrados escondendo parte do rosto. Entram todas ali: o marujo, o padre, a prostituta, uma criança andrajosa, uma mulher elegante, um homem afeminado, com maquiagem exagerada.
          Vou até a porta, que me atrai como um ímã. O que há lá dentro? Pela cabeça crescem orgias, bacanais, cenas de sexo explícito, com animais de órgãos monstruosos, intumescidos. Tento não ir, mas as pernas me levam até a porta cheia de luz.
          Do outro lado, o grande palco redondo, com luzes muito fortes. São todos atores, que tomam seu lugar, na peça. ELE, o ator principal, não chegou ainda. Sem entender por que, sei que é ELE. De repente, lá está, de asas rútilas, brancas, níveas, nu. Seu corpo de homem e de menino caminha de leve até o meio do palco, inclina-se elegantemente para a plateia vazia. Seguro as mãos para não correr até ELE e beijá-lo com entusiasmo, ardor, quase adoração! Meu coração explode no peito!
          O palco gira. Outros atores coadjuvantes surgem, em lugares marcados. A música leve começa, vinda de uma orquestra invisível. É uma valsa lenta, que lembra rios brumosos, flores úmidas e perfumadas, céu diáfano.
          ELE surge de novo e me espanto! Veste um traje de noiva, muito feminino, longo vestido bufante, decote amplo. Traz uma peruca loura, lábios vermelhos, maquiagem forte. Mesmo chocada, acho-o belo, sensual. ELE se deita de costas, olhando fixo para o teto. Tenho desejo de cobri-lo com meu corpo, encostando-o no seu, beijar seu rosto.
          Muda o cenário, tudo é negro, as paredes são despidas e escuras. Em um canto, arde uma grande vela de mais de metro. No outro lado, enorme cruz, cuja sombra toma o palco. ELE vem em silêncio, monge em trajes negros. A cabeça toda lisa, sem cabelos, os olhos em brasa, a face cheia de vincos, amargurada.
          Esta é minha deixa. Sei, por estranha compulsão, que sou parte da peça. Subo ao palco, beijo-lhe as mãos, os pés. ELE acaricia meus cabelos, solta-os, desamarra minha túnica.
          E docemente me leva para os bastidores.

(*)Estudou em PUC Minas
Concluiu os estudos em 1958
Vive em Ribeirão Preto
De Pratápolis, Minas Gerais, Brazil

Ely Vieitez Lisboa é uma das apoiadores e colunista da Ponto & Vírgula. É  autora do projeto Poetas de Ribeirão Preto, de um dos  CDs do programa .  É uma de nossas escritoras e crítica literária muito respeitada em Ribeirão Preto.
É articulista do jornal A Cidade, de Ribeirão Preto, há mais de dez anos. Se quiser ler alguns textos, Ely os publica no Face, aos domingos, depois que eles saem no jornal.
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Ely Vieitez Lisboa

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