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sábado, 8 de outubro de 2016

MEMÓRIAS DE UMA ORELHA


A orelha do livro "Na teia do Sol", de Menalton Braff

Por Haroldo Ceravolo Sereza

Em 2004, Menalton Braff sugeriu ao editor Rogério Alves, da Planeta, que eu poderia escrever a orelha do seu novo romance. Claro que aceitei*.

Menalton foi um dos escritores mais interessantes que li no período em que cobria literatura para o jornal O Estado de S. Paulo. Depois de escrever a orelha, Rogério me confidenciou que eu era a segunda opção (longe de ser um “sincericídio”, essa revelação era um tremendo elogio).

Menalton não apenas escreveu livros muito bons, foi também um dos autores mais simpáticos que entrevistei. E olha que não foi numa situação fácil: na primeira vez que nos falamos, eu tinha acabado de entrar no jornal e não sabia quem ele era. Meu editor no “Caderno 2″, Evaldo Mocarzel, havia almoçado com ele (que ganhara o Grande Prêmio Jabuti de 1999, salvo engano) e pediu que eu o entrevistasse.

Corri pros arquivos, busquei em quinze minutos informações básicas sobre ele e arrumei um mote pra conversa – um questionário que o escritor João Condé aplicava a escritores na revista Cruzeiro, intitulado “Arquivos implacáveis”.

Reproduzi o método de Condé com Menalton, que entrou no jogo, respeitou minha ignorância sobre sua obra. A conversa foi muito bacana. Depois da ótima conversa, fui ler seus livros, que não decepcionaram.

Reencontrei Menalton no mês passado, na Abralic (Associação Brasileira de Literatura Comparada).
Republico abaixo a orelha da obra.

“Menalton Braff não é um escritor ‘da moda’. Seus livros recusam os problemas mais óbvios do nosso tempo, as explicações fáceis, as formas que seus contemporâneos desgastam com a facilidade de quem troca, todo ano, de computador. De recusa em recusa, Braff segue um caminho próprio e criativo.

  
O protagonista deste livro, Na Teia do Sol, é um militante político, aparentemente forçado a se esconder, disfarçado de horticultor, esperando que a repressão se enfraqueça para que possa retomar as rédeas de sua existência.

Está alienado de sua vida e não consegue vislumbrar muito bem os motivos que o levaram a esta situação. Cada carro que se aproxima, cada avião que cruza o céu, cada latido do cão que não fala a sua língua é uma ameaça à sua precária e, mais que isso, falsa liberdade.

Não é só o real aparente que persegue o narrador, de codinome Tito, mas também a enchente de suas memórias – da própria estadia no sítio, da prisão, dos pais, da namorada que deixou para trás, dos companheiros que podem tê-lo traído, do terror de imaginar cenas pelas quais não se sabe se passou ou se passará.

É o medo que move e, principalmente, paralisa Tito, assim como a forma que Braff deu ao romance move, paralisa e angustia o leitor que está diante de um livro que ousa e consegue transformar em literatura viva matéria que parece não estar disponível aos criadores da estação.”

* Leia a orelha na página do livro.

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