HERANÇA
Esta
casa antiga, de tijolos salgados e parreira de flores lilases é uma herança.
Legado que me foi transmitido assim como a cor dos meus cabelos, os meus dedos
de unhas frisadas. Ando pelo corredor pensando que recebi também a boa
reputação de um pai que me amou e
confiou em mim como filha e herdeira.
Não
foi só essa casa a minha herança. Houve valores transmitidos como leite nas
xícaras brancas que retiro da cristaleira. Um modo de conduzir a vida de forma
correta e singela. Um caminho de lírios alaranjados que levavam da porta até a
calçada e de lá à escola, onde logo percebi que tudo que aprendia nos livros
era trabalho de muitas gerações. Amei, desde sempre, as linhas dos versos: a
poesia. Dediquei-me ao estudo dos poetas e da literatura, percorrendo o
Romantismo, o Simbolismo, o Modernismo, copiando poemas em cadernos grandes,
absorvendo as lições daqueles manuais e antologias. Ainda meio inconsciente,
apossava-me da herança do humanismo, da tradição, da busca da expressividade e
beleza do idioma. Sentia em mim a vocação, a vontade de acrescentar a esse
patrimônio os meus próprios poemas, a minha galáxia de estrelas e de letras.
Sob
esta casa, nos alicerces, há um tesouro oculto, uma essência de conhecimento e
imortalidade. Gostava de deitar na rede da varanda, ler muito, a avó imaginando que fosse uma
doença, uma melancolia que poderia amolecer meus ossos, como uma espécie de
anemia ou amarelão. Ela então me contava histórias de tesouros enterrados nos
quintais das casas, nas fugas das famílias durante a Guerra do Paraguai.
Louças, moedas, joias, espadas, sinos e até pianos de cauda. Eu visualizava a
carnadura da terra brilhando, dragões guardando cofres, a herança descoberta depois
de privações, tempestades, pesadelos com salteadores na estrada.
O
poeta Drummond escreveu que o hábito de sofrer, que tanto o divertia, era doce
herança itabirana. A herança de minha terra de fronteira, de laranjas ardidas
ao sol, foram o silêncio, o isolamento na natureza, as conversas ouvidas à
noite, à luz do lampião. A certeza de que enquanto dormimos, embalados em
sonhos, crescemos no corpo e na alma, gestamos a herança do futuro.
É
interessante como Deus promete nas escrituras uma herança a seu povo. Uma terra
onde manaria leite e mel, distribuída por sorteio entre os clãs maiores e os
menores, de tribo em tribo, de família em família. Os filhos são nossa herança,
as nossas obras, a crença espiritual. Não desperdicemos nada. Disputemos cada
grão de trigo e cevada. Tudo é temporário e evapora diante de nossos olhos,
tontos de peregrinar no deserto.
Cora
Coralina, mestra de vida e sabedoria, clamou num poema-prece que o Senhor
fizesse com que ela aceitasse humildemente sua pobreza. Que não sentisse falta
do que não tinha. Que não lamentasse o que poderia ter e se perdeu por caminhos
errados e nunca mais voltou. Só os que se humilham como ela embaixo da potente
mão divina serão exaltados e receberão a herança.
É
mesmo grande a nossa ausência de zelo como herdeiros. Lutemos pela herança,
pela restauração, pela glória de uma nova oportunidade, enquanto houver sopro
em nossas narinas.
Esta
casa antiga, quase em ruínas, é minha herança. Reconheço seu valor, embora
desgastadas, ela e eu. Mas sei que há
uma morada preparada para mim quando eu estiver livre dessa opressão. E, para
minha alegria, haverá fogos e flores lilases caindo à minha volta.

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