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sexta-feira, 14 de julho de 2017

CONTOS CORRENTES

HERANÇA
(Raquel Naveira)                
                                                                             
Esta casa antiga, de tijolos salgados e parreira de flores lilases é uma herança. Legado que me foi transmitido assim como a cor dos meus cabelos, os meus dedos de unhas frisadas. Ando pelo corredor pensando que recebi também a boa reputação de um pai que  me amou e confiou em mim como filha e herdeira.

Não foi só essa casa a minha herança. Houve valores transmitidos como leite nas xícaras brancas que retiro da cristaleira. Um modo de conduzir a vida de forma correta e singela. Um caminho de lírios alaranjados que levavam da porta até a calçada e de lá à escola, onde logo percebi que tudo que aprendia nos livros era trabalho de muitas gerações. Amei, desde sempre, as linhas dos versos: a poesia. Dediquei-me ao estudo dos poetas e da literatura, percorrendo o Romantismo, o Simbolismo, o Modernismo, copiando poemas em cadernos grandes, absorvendo as lições daqueles
manuais e antologias. Ainda meio inconsciente, apossava-me da herança do humanismo, da tradição, da

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

CONTOS CORRENTES

HERANÇA
(Raquel Naveira)                           


Esta casa antiga, de tijolos salgados e parreira de flores lilases é uma herança. Legado que me foi transmitido assim como a cor dos meus cabelos, os meus dedos de unhas frisadas. Ando pelo corredor pensando que recebi também a boa reputação de um pai que  me amou e confiou em mim como filha e herdeira.
Não foi só essa casa a minha herança. Houve valores transmitidos como leite nas xícaras brancas que retiro da cristaleira. Um modo de conduzir a vida de forma correta e singela. Um caminho de lírios alaranjados que levavam da porta até a calçada e de lá à escola, onde logo percebi que tudo que aprendia nos livros era trabalho de muitas gerações. Amei, desde sempre, as linhas dos versos: a poesia. Dediquei-me ao estudo dos poetas e da literatura, percorrendo o Romantismo, o Simbolismo, o Modernismo, copiando poemas em cadernos grandes, absorvendo as lições daqueles manuais e antologias. Ainda meio inconsciente, apossava-me da herança do humanismo, da tradição, da busca da expressividade e beleza do idioma. Sentia em mim a vocação, a vontade de acrescentar a esse patrimônio os meus próprios poemas, a minha galáxia de estrelas e de letras.