(Raquel Naveira)
Esta
casa antiga, de tijolos salgados e parreira de flores lilases é uma herança.
Legado que me foi transmitido assim como a cor dos meus cabelos, os meus dedos
de unhas frisadas. Ando pelo corredor pensando que recebi também a boa
reputação de um pai que me amou e
confiou em mim como filha e herdeira.
Não
foi só essa casa a minha herança. Houve valores transmitidos como leite nas
xícaras brancas que retiro da cristaleira. Um modo de conduzir a vida de forma
correta e singela. Um caminho de lírios alaranjados que levavam da porta até a
calçada e de lá à escola, onde logo percebi que tudo que aprendia nos livros
era trabalho de muitas gerações. Amei, desde sempre, as linhas dos versos: a
poesia. Dediquei-me ao estudo dos poetas e da literatura, percorrendo o
Romantismo, o Simbolismo, o Modernismo, copiando poemas em cadernos grandes,
absorvendo as lições daqueles manuais e antologias. Ainda meio inconsciente,
apossava-me da herança do humanismo, da tradição, da busca da expressividade e
beleza do idioma. Sentia em mim a vocação, a vontade de acrescentar a esse
patrimônio os meus próprios poemas, a minha galáxia de estrelas e de letras.