*O conto a seguir integra a coletânea "A coleira no pescoço", publicada pela Bertrand Brasil.
A cerca
Joaquim Boaventura, ou simplesmente Boaventura, como julgava chamar-se,
era um funcionário de grande dignidade na visão dos vizinhos. Era respeitado
como as coisas que sempre existiram e cuja origem é um mistério. Quando
começaram a surgir as casas nos arredores da cerca, Boaventura já estava lá do
lado de dentro, sentado em seu banquinho de três pernas, muito sério, tomando
conta do terreno sem nunca se distrair. Sentado à sombra, no verão; sentado ao
sol, nos dias frios do inverno.
Um dia o homem do terreno, como seria sempre lembrado pelo funcionário,
tocou a campainha de sua casa e ele veio atender fechando a braguilha e
apertando a cinta porque estava cochilando na sala. Era um fim de tarde e Boaventura
estava descansando de tanto procurar emprego pela cidade. O homem perguntou
Você quer um emprego?, e ele sorriu pesado, pensando que fosse uma brincadeira,
pois tinha passado o dia oferecendo-se para trabalhar e não era razoável
esperar que o emprego viesse até ele assim tão facilmente.


