sexta-feira, 20 de julho de 2018

CONTOS CORRENTES

O TRAVO AMARGO DA DERROTA*       

                                      (Hugo Rodrigues)

Chamava-se Ambrósio. Todos, porém, chamavam-no Ambrosão. O superlativo fazia-o sentir-se mais importante. Largo de ombros e de espírito, ia vivendo "como Deus é servido". Sua pele queimada de sol, quando suado pelo esforço despendido  em brandir o machado, assemelhava-se à cor e ao brilho do cobre. Era necessário derrubar o mais rápido possível toda aquela capoeira. Precisava transformá-la em carvão vegetal e este, em dinheiro. Há muito namorava uma espingarda de cartuchos, cano duplo, que vira em dia de feira em Camaçari. Era só o que faltava para a sua completa satisfação e sua alegria. A espingarda, ademais, dar-lhe-ia mais importância junto aos outros agregados da fazenda, carvoeiros como ele. Ajudaria, ainda, na alimentação dos inchadinhos, quando a caça fosse bem sucedida, e caça era o que abundava por toda vargem por onde o Rio Jacuípe serpenteava. Codorna, perdiz, nambu, paca, até lontra tem! Gostoso é descer o rio em noite de escuro, canoa levada apenas pela leve corrente, silêncio profundo, remo na popa servindo de leme e archote na proa atraindo a capivara! Bendito rio! Não fora ele e toda aquela gente já teria desaparecido de fome. Enquanto os homens, de sol a sol, ocupavam-se em transformar a riqueza florestal do lugar em lenha de metro e carvão vegetal, as mulheres, com suas redes feitas de barbante, mariscavam em busca dos camarões. As linhas postas nos poços mais piscosos do rio, de quando em vez traziam,

quinta-feira, 19 de julho de 2018

ORELHA

Esta coluna reúne apresentações de livros escritas por Menalton Braff, a maioria publicada como orelha.

Pelas ruas escuras da internet


Mais uma vez a Regina Baptista nos surpreende, agora com seu Fórum virtual. Tempos atrás tive a oportunidade de ler seu Cárcere privado, romance de personagem único, confinado em um quarto sem a menor brecha para o mundo exterior. Tudo acontece ali, dentro daquelas quatro paredes, numa narrativa kafkiana em que o prisioneiro não sabe nem por que está preso. Algum tempo mais tarde apareceu com seu Ato penitencial, romance em que um padre conhece as fogueiras do inferno quando se descobre sem vocação sacerdotal. Quase toda ação se passa na mente do padre, com
seus conflitos irremediáveis.

Hoje nos chega este Fórum virtual, com suas experiências narrativas que nos fazem lembrar o filósofo russo Mikhail Bahktin, quando afirma ser o romance o mais maleável dos gêneros, pois nele podem comparecer todos os demais. E é de vários gêneros que se tece o romance em pauta.

O início da história se dá com uma troca de mensagens entre dois primos adultos, isto é, sem perceber, vamos penetrando num mundo em que apenas as palavras existem. Os primos não são personagens presentes, eles não se movimentam, não mostram o rosto. É um diálogo de corpos

quarta-feira, 18 de julho de 2018

CANTIGAS DE AMIGOS

MUDANÇA
(Aida Campos)

Há peças que não se encaixam,
Pedaços que não se juntam,
Cabeças que não se encontram,
Olhares que não se entendem,
Um jogo desnorteante.

O real e o inconstante,
O natural e o superficial, 
O alienado e o posicionado, 
O lúcido e o inconsequente,
O liberal e o radical.

Capacidade de querer,
Simbolismo do ato,
Assistência aos vulneráveis,
A plena certeza é frágil, 
Necessidade de afirmação.

Ideias formais e informais,
Coordenação em um vazio,

terça-feira, 17 de julho de 2018

INÉDITOS

Nesta coluna, Menalton Braff apresenta os livros que escreveu e ainda não publicou.

O menino alado

Na verdade nunca me senti competente para poesia infantil. Nem mesmo a prosa infantil me vai muito bem. Acontece que um dia uma amiga escritora lançou uma proposta a um grupo de escritores do qual eu fazia parte. E o repto era para que cada um produzisse cerca de dez poemas infantis e isso daria um livro. 

Fui pra casa pensando na minha infância. O que poderia haver nela que produzisse poesia? Concluí que nada teria interesse poético. Mas aí me veio aquela ideia da pandorga, com seus diversos nomes e comecei a escrever. Nascia meu primeiro poema infantil, aquele de onde tirei o título Um menino alado.

Depois vieram outras ideias: a família, o entorno da casa, um cãozinho de estimação, o presente etc. Fui escrevendo sem pressa. 

Quando achei que já estava com uma coletânea razoável, e como o desafio inicial tinha dado em nada, enviei os poemas a algumas editoras. Nenhuma demonstrou interesse e tenho a impressão de que minha linguagem não bate com o gosto infantil.

Ou os temas. O fato é que Um menino alado vai ser enterrado vivo. Um menino enterrado.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

CARTAS DO INTERIOR

O DESTINO É O PERCURSO   


Nem tanto, pois queríamos conhecer as ruínas jesuíticas em São Miguel, mas não desprezávamos tudo que veríamos à beira da estrada até lá. Pousamos em Palmeira das Missões, cidade que me deixou frustrado. Durante dois anos minha família tinha morado nessa cidade, e ingenuamente eu contava encontrar algum resíduo que fosse da cidade em que passei belos dias da adolescência. Não reconheci mais nada, praças, prédios, monumentos, nada mesmo. Mas era noite e resolvemos passá-la no único hotel da cidade.

Nós, que já havíamos rodado cerca de 1.500 quilômetros, de manhã bem cedo resolvemos enfrentar os quase duzentos quilômetros que restavam de estrada até os restos da redução indígena, nosso primeiro destino, já que a cidade de Palmeira não me devolvera um pedaço da adolescência.

Regiões de serra que se alternavam com suaves colinas, que ainda não eram os pampas, anunciados por aquela região. O dia nascera esplendoroso: céu muito azul, ventos brandos, temperatura, bem... deixamos o aquecedor do carro ligado, árvores, campos e mais campos de trigo nascente, campos verdes, muito verdes.

Finalmente, saindo da estrada real, com cerca de uns quinze quilômetros de uma estradinha, dessas de pouco movimento, chegamos ao estacionamento da redução. Ao longe já se avistava o templo de pedra construído por índios guaranis sob a orientação de padres jesuítas. O pátio à frente da igreja colossal é de cento e trinta metros de grama bem cuidada, onde outrora ficavam as casas dos mais de 4.000 indígenas (alguns falam 7.000), a população reunida ali pelos jesuítas espanhóis. Isso

sábado, 14 de julho de 2018

ORELHA

Esta coluna reúne apresentações de livros escritas por Menalton Braff, a maioria delas publicadas como orelhas.

"Que diabo de poeta es tu?"


Se é a palavra a segunda criação do mundo, e é, João Augusto, poeticamente, e por meio dela, se faz como agente de sua liberdade porque Andamos parimos e padecemos/ Inadvertidamente soltos/ entre grades e paredes...

Penetrar neste livro é partilhar com o poeta de um percurso onde se enfrentarão grandes inquietações, porque verdade e essência, suas buscas incessantes, não estão na superfície das coisas, e das profundezas, onde habitam, só podem ser içadas com a ajuda das palavras. Aqui a poesia se faz busca, tanto da emoção quanto do conhecimento, do prazer da descoberta como da perplexidade ante o inexplicável.

João Augusto é poeta que não acalenta com açúcar o sonho de ninguém. Pelo contrário, ele perturba o sono dos insensíveis.