terça-feira, 20 de outubro de 2020

LIVROS E LEITURA

Você conhece o IEB?


Ele existe desde 1962, quando foi fundado por Sérgio Buarque de Holanda. Atualmente funciona lá na USP, no prédio conhecido por abrigar a Biblioteca Brasiliana Guita e José Midlin, mas muita gente não sabe de sua existência, ou sabe mas nunca usufruiu do que ele oferece. Embora não se restrinja ao tema Literatura, guarda um enorme acervo de escritores brasileiros que inclui de obras raras a manuscritos. 

Uma visita física ao IEB pode ser surpreendente. Basta dizer que, já em 1995, a instituição ganhou o prêmio Rodrigo de Melo Franco de Andrade na categoria Preservação de Acervos Culturais Móveis e Imóveis, concedido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Mas, em tempos de isolamento social, pode ser suficiente  navegar pelo site da instituição imaginando ou até planejando o que poderá ser visto na visita física em uma época mais favorável. E, de quebra, ler publicações e ouvir alguns dos inúmeros podcasts sobre escritores e suas obras.

Navegue pelo site ou vá direto aos podcasts.


segunda-feira, 19 de outubro de 2020

CARTAS DO INTERIOR

 Esta coluna reúne crônicas de Menalton Braff, umas inéditas, outras postadas anteriormente em seu site ou em revistas como Bula e Carta Capital.

Sobre a beleza

Quem pensa que a literatura se resume a uma historia - seja ela boa ou má - está completamente equivocado. A história é um de seus elementos, mas nem de longe é o único. Meu amigo Adamastor, que muita gente julga tratar-se de um gigante nascido no sul da África, me chegou ontem aqui em casa escandalizado com o que ouviu de um amigo seu. O tal lhe confidenciou que livro ele não guarda. Conhecida a história, não há por que folheá-lo novamente. O Adamastor não tem lá grande formação acadêmica, principalmente em assuntos de arte, mas sua intuição, aliada a algumas leituras sobre estética, lhe dá um desconfiômetro excepcional sobre algumas questões relevantes para o espírito humano.

Encomendei nosso café à Tétis, nossa jovem auxiliar por quem são frequentes as visitas do Adamastor, e nos acomodamos nas poltronas da biblioteca. Ele estava indignado com o que ouvira e precisava arranjar melhor seus argumentos. Então, questionou, onde está a razão?

Comecei explicando a ele que seu amigo não gosta de literatura, e se pensa que um romance se resume a uma historia (boa ou má, não interessa) está completamente equivocado. A história, que os semioticistas chamam de diegese, e nós, os mais conservadores, continuamos chamando de enredo, é um dos elementos da narrativa literária, mas muito longe de ser o único.

Se se parte do princípio de que literatura é arte, a arte da palavra, e me parece que isso é indiscutível, não se pode deixar de comparar sua fruição às maneiras com que nos ocupamos das outras artes. Ou o modo como elas nos ocupam.

A essa altura já tomávamos nosso café e o Adamastor apenas sacudia a cabeça concordando.

Respondeu que sim, que já ouvira dezenas, talvez centenas de vezes a Nona, do Beethoven. E concordou com minha sugestão de continuar ouvindo a mesma música sempre que surgisse a oportunidade. Ninguém, depois de ouvir qualquer música, joga o CD no lixo. Claro que não, se fosse assim não existiriam as discotecas. E rimos, os dois, porque o disco praticamente não existe mais, seria, portanto, necessário criar o termo cedeteca. Horrível, por sinal.

Então perguntei se ele já tinha visto Os Retirantes, do Cândido Portinari. Sim, sim, sim, ele já impaciente, querendo que eu chegasse logo ao fim, pois percebera meus exemplos argumentativos. E voltaria a contemplar a tela, claro. Ninguém joga uma tela fora depois de a haver observado, não é mesmo? E as pinacotecas continuam sendo visitadas como templos do prazer estético.

Toda verdadeira arte, foi a conclusão a que chegamos, tem na repetição de seu usufruto uma de suas características. Quantas vezes voltamos ao velho Machado para renovar o gozo de sua linguagem, de suas ironias, de suas construções frásicas inteiramente inesperadas. Ah, não, um livro se guarda sim, e seu lugar é na biblioteca, onde esteja sempre disponível.

domingo, 18 de outubro de 2020

FRASE

 Esta coluna posta, a cada domingo, uma frase de um personagem da literatura. A que escolhemos para este domingo é de Bernardo, personagem do romance  "O casarão da Rua do Rosário", de Menalton Braff. 





sábado, 17 de outubro de 2020

RETALHOS 2020 - ALÉM DO RIO DOS SINOS

 RETALHOS 2020 é uma série de vídeos gravados por Menalton Braff para apresentar os seus 26 livros já publicados (existem inúmeros outros ainda inéditos). A obra que Menalton apresenta hoje é "Além do Rio dos Sinos", lançado pela Editora Reformatório, em 2020.



sexta-feira, 16 de outubro de 2020

CONTOS CORRENTES

A alquimia do amor

(Roniwalter Jatobá)

Cearense, ele aprendeu no mar a fazer um badejo ou uma corvina na brasa que até Deus perdoava o pecado da gula. Pratos comuns, como o virado à paulista, ele preparava com apuro e, durante a semana, eram disputados entre meio-dia e duas horas da tarde por esfomeados peões da construção civil e até mesmo engravatados executivos.

Conhecido como Batista, era cozinheiro do boteco Caminho da Lua, em Santo Amaro, na zona sul paulistana. Se quisesse poderia propor a alguém uma sociedade na área gastronômica, pois, com certeza e, em pouco tempo, iria figurar entre os donos de restaurantes de origem nordestina que começaram como lavadores de pratos e se deram bem em São Paulo.

Ali pelas oito da noite, já com panelas, pratos, caçarolas e cozinha brilhando na rigorosa limpeza, o Batista chegou até a minha mesa. De outras vezes, falou de sua vida: viera de uma cidadezinha do litoral do Ceará, onde viviam ainda seus pais. Eram pobres: o pai, pescador; a mãe cuidava da casa e de uma turma de filhos. Mas, naquela hora, o bar fecha não fecha, o que ele queria mesmo era falar de algo mais íntimo: o fim de seu casamento paulistano após dois anos de lua de mel.

Durante muito tempo, não vi mais o Batista. Mas outro dia ele me veio à lembrança ao ler uma pesquisa realizada pela equipe da professora Cindy Hazan, da Universidade de Cornell, em Nova York, nos Estados Unidos.

Depois de entrevistar mais de cinco mil pessoas, Cindy e os pesquisadores chegaram à conclusão que uma paixão não dura mais do que dois anos e meio.

-- Há uma série de evidências de que o que chamamos de grande amor é criado por um coquetel de substâncias químicas cerebrais -- informou a professora. -- Em determinado momento, o efeito acaba.

Voltei outro dia ao Caminho da Lua. O Batista não trabalha mais ali.

Uma pena: fiquei sem saber maiores detalhes da sua separação, para entender melhor o problema, já que ninguém ainda sabe quem é mais suscetível -- o homem ou a mulher? -- à alquimia do amor.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

ORELHA

Esta coluna reune comentários de Menalton Braff a livros de outros autores, muitos deles publicados como orelhas dos respectivos livros. 

Uma vida em confidência


Alfredo Tavares é um poeta popular. Em seu opúsculo “A onça e a fome zero” qualifica-se de cordelista ao classificar seu texto de literatura de cordel. Mas não é um cordelista no sentido lato, em conteúdo e forma, e principalmente em forma. Os cordelistas que praticam o gênero de uma forma tradicional, aqueles que têm participado de concursos e outros certames congêneres, conhecem algumas regras fixas do cordel, como o verso redondilho maior, a estrofe conhecida como sextilha e seus esquemas de rimas mais usuais.

Acrescente-se, ainda, a forma narrativa, em geral, com unidade de ação. Se nem em conteúdo nem na forma, Alfredo Tavares é um cordelista ao pé da letra, existe nele, entretanto, uma verve do cordelista: seu caráter popular. O manejo da linguagem é o mesmo, não em seus aspectos formais fixos, mas no coloquialismo ingênuo e em passagens que a norma culta considera agramaticais. Neste sentido o autor tem toda a razão em autoclassificar-se como cordelista.

Mas a classificação, como quase sempre, é problema secundário e apenas serve à nossa necessidade de nominar os seres para os entender. O que temos, em “A onça e a fome zero”, é uma confidência, seja ela real ou ficcional. O eu-poemático faz uma espécie de balanço de sua vida, desde as agruras e misérias do sertão nordestino  em que, a despeito de tudo se sentia feliz  e os problemas encontrados no Sul. O choque da chegada a uma cidade incompreensível, o trabalho duro pela sobrevivência, a saudade dos familiares e dos amigos deixados no Nordeste. No meio, uma história de amor de final trágico (uma picada de cascavel, durante a colheita do café, rouba-lhe a amada).

É uma história comum a milhões de nordestinos que demandam o Sul do país em busca de uma vida melhor e que só encontram alguma satisfação material, porque seu chão, seus costumes, os seres humanos com que se identificam e até aquilo que comem, tudo ficou para trás e mergulham estes seres podados de seu tronco em profundo sentimento de perda, de saudade. É este o sentimento que vai dominar o texto em questão. Mas apesar de ser uma história conhecida, Alfredo Tavares consegue dar sua visão, seu modo particular de encarar a questão.

Do ponto de vista formal, são poemas com unidade temática, quase sempre, divididos como se foram verdadeiros cantos, no sentido épico do termo. Alfredo Tavares, consciente ou inconscientemente é um transgressor: suas estrofes são irregulares, os versos são livres e não há esquema rígido de rimas. Na verdade há uma grande quantidade de versos brancos. Ora, modernamente a transgressão vem sendo vista como virtude, e se assim é, essa é uma das virtudes do poeta Alfredo Tavares.

Nas últimas estrofes vai encontrar-se a vitória dos apelos telúricos, as raízes vão reclamar seu fruto. O nordestino retorna à casa paterna para encontrar várias cruzes (irmãos que lá ficaram) e para enterrar o próprio pai, que resistira até o encontro final com o filho. E lá ele fica, concluindo que lá é seu lugar.


quarta-feira, 14 de outubro de 2020

CANTIGAS DE AMIGOS

 Tocaia ou a cidade e seu nome

(domingos moreira)

Tropeiros e jagunços se foram
coronéis permanecem do poder local ao Palácio do Planalto
Querem ver a cidade crescer e dividir suas desigualdades
Personagens obscuras trancadas em seus mundos
sem nada permitir ou partilhar 
que não seja dor e ódio 
Ficção e realidade 
uma não é a outra
Mulheres fortes e livres
ou melhor mulheres