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sexta-feira, 2 de maio de 2014

UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA

* Conto do livro "A coleira no pescoço", editado pela Bertrand Brasil.
          Aquele primeiro dia, quase noite

 O filho não acordou em janeiro de manhã, agora, quando o calor torna-se mais intenso. E o modo roxo como apertava os lábios um contra o outro podia não significar coisa alguma, mas a mãe acertadamente interpretou como sendo a recusa.  A despeito de muda, e inexplicável, uma recusa. E exatamente de sua túmida teta materna. Paciente e concentrada recolheu o seio para o interior de seus trapos e sem cansaço foi abrir a janela, como se estivesse acabando de criar o mundo. O sol entrou circular, reparando, mas era um signo exageradamente genérico para que ela chegasse a qualquer conclusão sensata. Debruçou-se no parapeito, para cumprir o rito, talvez até um pouco avidamente, atraída pela claridade da paisagem ainda úmida do útero noturno, e sentiu a vazão do próprio leite que o peso do corpo começava a ofertar. Uma vazão lenta e silenciosa como uma urina: o prazer do alívio. Então seus olhos maravilhados mediram aquelas duas manchas redondas no alto de seu peito: a alegria.

Sem saber ao certo o que sentir, na seqüência, depois de abrir a janela e debruçar-se no parapeito, toda aquela paisagem cabendo em seus dois olhos miúdos, a mãe lambeu com insistência os próprios lábios, que durante a noite haviam ressecado. Não tinham chegado a rachar, coisa que só acontecia no inverno mais frio, quando muitas vezes chegava a passar fome. Mas soube com a ponta da língua que tinham estado secos. Olhou novamente as duas manchas redondas e suas narinas se dilataram felizes.   
Foi-se chegando sorrateira, devagar sediciosa, a entrar sem ser notada, até que lá dentro, de uma só feita, o volume vazio da fome. E então a mãe soube no instante que estava com bastante fome. Um saber do corpo só, corporal, que a mente pendia para um sentir mais obtuso: seu organismo.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

PARA SEU FIM DE SEMANA

O conto abaixo foi publicado no livro A COLEIRA NO PESCOÇO, editado pela Bertrand Brasil.

Aquele primeiro dia, quase noite

O filho não acordou em janeiro de manhã, agora, quando o calor torna-se mais intenso. E o modo roxo como apertava os lábios um contra o outro podia não significar coisa alguma, mas a mãe acertadamente interpretou como sendo a recusa.  A despeito de muda, e inexplicável, uma recusa. E exatamente de sua túmida teta materna. Paciente e concentrada recolheu o seio para o interior de seus trapos e sem cansaço foi abrir a janela, como se estivesse acabando de criar o mundo. O sol entrou circular, reparando, mas era um signo exageradamente genérico para que ela chegasse a qualquer conclusão sensata. Debruçou-se no parapeito, para cumprir o rito, talvez até um pouco avidamente, atraída pela claridade da paisagem ainda úmida do útero noturno, e sentiu a vazão do próprio leite que o peso do corpo começava a ofertar. Uma vazão lenta e silenciosa como uma urina: o prazer do alívio. Então seus olhos maravilhados mediram aquelas duas manchas redondas no alto de seu peito: a alegria.