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sexta-feira, 11 de outubro de 2019

CONTOS CORRENTES

A RODA DO MUNDO
(Suzana Montoro*)

Edna entrou no carro chorando e eu comecei a falar devagar, a tentar contar como tinha sido, as palavras saindo de maneira desconexa, nesses momentos parece que pouco importa o que se diga. Já pela manhã ao telefone bastou dizer o nome dele, bastou dizer Lúcio e Edna já intuiu o que eu iria falar, nada perguntou por que não poderia, mas percebi que continuava me escutando, ouvi o muxoxo que traduziu seu espanto e logo vieram os soluços, eu disse que passaria para pegá-la e quando entrou no carro continuava chorando. Se pudesse, ela me pediria para contar como foi que aconteceu. Olhei para aqueles olhos espantados por onde transbordava sua mudez e fui dizendo palavras soltas, entrecortadas, faltou coragem para a verdade nua e crua, as bochechas dela úmidas, eu não chorava, mas compartilhávamos a mesma incredulidade teimosa e óbvia diante da morte. Num momento em que parei de falar, olhei a expressão consternada de Edna e, mesmo sendo muito amigo de Lúcio, me perguntei como era possível que ela continuasse tão encantada por ele depois de tudo. Poderia ter colocado a mão no seu ombro, poderia ter dado um lenço para que enxugasse as lágrimas, poderia abraçá-la e dizer tudo o que sempre quis, mas não fiz nada disso, dei partida no motor e deixei que a atenção na estrada nos conduzisse ao cemitério. Eu calado, ela chorando. Tínhamos um longo trajeto a percorrer, horas de viagem que de uma maneira ou de outra seriam preenchidas.


            Era um dia claro de inverno, um sol ameno que poderia nos aquecer não fosse o vento frio. Edna fez menção de abrir a janela, depois mexeu no console e colocou um CD. Aumentei o volume, Lúcio gostava de ouvir música bem alta, escutar baixo para quê, nada o deixava mais irritado do que conversar enquanto escutava música. Ele era assim, definitivo e arrogante em suas preferências, o que os outros queriam não lhe dizia respeito. Nós os amigos já estávamos acostumados com seus hábitos

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

CONTOS CORRENTES


AS VOLTAS QUE O MUNDO DÁ


(Jane Alves)

No casarão em que viviam, a biblioteca era o lugar preferido. Augustus, Nicodemus e Cornélio ali passavam horas, com o imenso playground só para eles: túneis, esconderijos, escorregadores, campos de futebol, bolinhas de papel e pistas de patinação. Vidão! À noite, com fome, só correr à despensa e se fartar de farinhas e defumados, goiabada e queijo, competentes que eram para violar qualquer embalagem. Água não faltava no banheiro da biblioteca, sempre pingando e com ralo entupido. A
qualquer hora uma soneca tranquila, já que o lugar era interditado aos gatos e faxineira só tinha permissão de entrar uma vez por mês, sob o olhar vigilante do velho-que-amava-livros, para não mudar nada de lugar. Este passava horas ali sentado em sua grande poltrona de couro, cachimbo esquecido na boca, lendo, lendo, lendo, cochilando, às vezes.

A vida corria assim feliz, quando, à hora da refeição, descobriram horrorizados que o túnel para a despensa, ali desde o início dos tempos, havia sido bloqueado. Já havia dias que o velho não aparecia e a faxineira fazia tempo não era vista. Correram atarantados por todos os cantos procurando uma saída, sondaram o ralo do banheiro, a janela que nunca se abria, todo o entorno da pesada porta, até caírem de exaustão ao escurecer, num sono agitado e pesadeloso. A realidade da fome os acordava para retomar a rotina frenética e mal sucedida, dia após dia sem encontrar uma luz no fim do túnel.

Augustus era o glutão da turma, se empanturrava do que achasse em sua frente, gordão e pesado. Nos bons tempos tinha pressa de encher a pança e voltar para seu paraíso. Natural que fosse agora o mais desesperado, testando restos de fumo, perna de cadeira, estofamento de couro. Nessa busca esvairada

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

CANTIGAS DE AMIGOS

 velas ao vento      
(Ademir Bacca*)                                      

portos
já tive tantos                                                             
para ancorar

mas o canto das sereias
sempre me arrastou de volta
pro meio do bar

braços
já tive tantos
para chegar

mas poetas não nascem
para simplesmente ancorar.


 (*do livro “Pandorgas ao vento”)