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domingo, 6 de janeiro de 2013

FRAGMENTOS DO ROMANCE CASTELOS DE PAPEL




"Enquanto espera o café, sentado em tempo espesso, absorto, Alberto pousa as mãos pesadas sobre as pastas sujas de velhice. As mais antigas. A barba de dois dias endurece-lhe o rosto, um verniz descascado, onde dois olhos parados voltam-se finalmente para dentro, com insistência: veredas obscuras."

"Descendo a escada, seus degraus, Alberto era um homem penetrando a custo no passado, mergulhando mais uma vez naquele ar com cheiro de mofo que a noite de repouso devolvera. Mais do que no dia anterior, agora estava certo de que o cheiro emanava daquelas pastas velhas com as quais já tivera seu primeiro round."

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

FRAGMENTOS DE ROMANCES

Fragmento de meu romance Castelos de Papel, publicado pela Nova Fronteira em 2002.



Levantou os olhos do jornal e inundou a cidade num indiferente olhar azul, seu olhar vidrado, quase aborrecido. De uma forma vagarosa e distraída, como quem  já não tem mais pressa de chegar, porque já não tinha mais pressa de chegar. Nem aonde. Ecoava ainda no interior de seus ouvidos o desconforto de um chamado ou sua impressão, e era impossível ter certeza. Tentando concentrar-se para descobrir que apelo poderia ser aquele, seu pensamento perdeu-se por alguns instantes em coisas miúdas que lhe entulhavam os olhos, como o motorista manobrando o carro para ocupar uma vaga menor do que o carro, seu modo brusco de gesticular, o avião que passou e se escondeu atrás de uns edifícios, a felicidade do cachorro ao voltar com o bastão entre os dentes. Não chegou a formular uma síntese do que via ou sentia. Não eram propriamente pensamentos, mas sucessão de imagens descosidas: o instante. Estivera lendo, bem sabia, e a prova disso eram as palavras que ainda boiavam em seus olhos. Abertos ou fechados. Mas eram palavras, apenas, sem qualquer ligação entre si. Negras e oscilantes, voavam sem formar fila: bando caótico. Não chegavam a compor uma frase. Por isso, não sabia, não conseguia lembrar o que estivera lendo antes de levantar os olhos do jornal. E inundar a cidade com seu olhar azul.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

TRECHO DE CASTELOS DE PAPEL


"Gulosa, depois de tanta peteca debaixo do sol, Emília disparou na direção do carrinho de sorvetes. Seus primos perceberam o que estava acontecendo e conseguiram chegar ao carrinh ainda antes que ela. Barulhentos e masculinos cada um pediu o seu. Era mais ou menos aquela a felicidade que ele vinha através dos anos pedindo a Deus. Poder enfiar a mão no bolso, confortavelmente, para pagar o que a família quisesse, mesmo suas extravagâncias."