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sexta-feira, 8 de maio de 2020

CONTOS CORRENTES

COSTURANDO O ISOLAMENTO
(Matheus Arcaro)

Ao ouvir a notícia na televisão, Miguel puxou o ar do assoalho do corpo magro e miúdo. É bem verdade que não se falava em outra coisa nos últimos dias. Mas ali, naquele instante, mostrava-se reluzente a confirmação oficial. Lúcia ajeitou o tapete e sentou-se novamente no sofá comprado semanas antes. Olhando para o porta-retrato ao lado da TV – a foto da avó sorridente –, Miguel apertou os dedos da mãe com mais força. A mulher respondeu com os olhos, uma manta negra a cobrir as aflições do filho. Pelo menos era esta sua impressão. Mas é curioso notar que a mente humana não se entrega de modo tão promíscuo, mesmo quando se tem nove anos e alguns meses de idade. Nem sequer à própria mãe.

Miguel emprestava os ouvidos e os olhos ao governador na tela da TV. Embora não compreendesse todas as palavras que saltavam daquela boca envelhecida, o que lhe interessava já tinha sido colado à memória: não se poderia sair de casa pelas próximas três semanas.

– Essa doença fica no ar por muito tempo, mãe?

Lúcia respondeu que o vírus sobrevive no ar por muitas horas e, por isso, seria perigoso passear por aqueles dias.

Miguel sentiu como se seus órgãos estivessem em festa. Mas achou prudente não abrir as portas do corpo para que o sorriso escapasse. A situação era séria, exigia ponderação. Ele já sentira o hálito da morte por duas vezes: a avó materna e o pai, embora sobre este as lembranças não fossem tão sólidas. Sabia que não seria respeitoso mostrar sua alegria num momento em que pessoas podem morrer. Mas
como escondê-la se teria sua mãe por três semanas inteiras, só pra ele?

Lúcia decidira dispensar a empregada na noite anterior. Com que dinheiro ela vai comprar comida, mamãe? Não se preocupe, Miguel, vou manter o pagamento da Assunção por este tempo. O menino pensou que pra tudo na vida é preciso dinheiro, e as pessoas que não têm o mínimo ficam muito magras como eram os filhos de Assunção quando crianças. Ele não sabia nomear, mas a palavra ‘injustiça’ começava a roçar seu sistema nervoso. Talvez, por isso, é que mamãe trabalhe tanto, pensou soltando a sentença pra si. Miguel conhecia Assunção desde muito pequeno, ela faxinava a casa uma vez por semana. Quando a avó deu sinais de debilidade física, Lúcia a contratou como empregada fixa. Assunção estava imersa à frente de Miguel, águas salgadas. O menino limpou as lágrimas com as costas das mãos numa tentativa de dissolver aquela coisa que crescia em seu peito. Foi para o quarto pensando em quem cuidaria dele por aqueles dias. E dormiu.

Lúcia trabalhava numa grande agência de publicidade, diretora de criação. Construiu sua carreira ao longo de vinte anos nas mesas de reunião, nas mensagens trocadas tarde da noite para fechamento de materiais impressos, televisivos, cibernéticos e, sobretudo, em frente ao computador do escritório. Agora teria que fazer tudo de casa. Sem Assunção. Com Miguel.

O menino observou Lúcia desligando a TV como se apertasse um botão enguiçado. O sol da manhã incidia diretamente nos dedos finos e pretos da mãe. Aquele gesto trouxe pra ele a imagem dos mesmos dedos acariciando o rosto cansado da avó sob o véu branco-transparente. Miguel não sabia bem conversar com a mãe, pouca prática. As dúvidas sobre tarefas, os conflitos com os amigos, os medos durante o cair da tarde, tudo isso era ancorado por Assunção desde que a avó morrera no ano anterior. Não fique assim, mamãe, a gente vai ficar bem. Lúcia beijou os cabelos crespos do filho e envolveu aquele corpinho como se jamais o tivesse abraçado. E, daquele jeito, ela nunca fizera mesmo. Miguel sentiu como se as carícias fossem penetrar em sua pele, como se a mãe apalpasse as essências do mundo que o habitavam.

– Quantos dias cabem num abraço?

– Há coisas que não somos capazes de medir, meu filho.

A frase, voz trêmula, parecia dita por outra pessoa, alguém que estava nascendo naquele instante. Miguel partejava uma Lúcia que cresceria pelas semanas seguintes.

Ela intuía que, no lugar do passado – tecidos pesados que escondiam ausências – seriam cosidas fitas coloridas. Começariam finas, é verdade. Mas a cada dia, uma nova fileira de pontos em cruz se somaria às anteriores para robustecer os laços. As palavras da mãe fizeram Miguel pensar na avó. Talvez a frase sobre a impossibilidade de se mensurar afetos tenha sido dita por aquela velha preta, a mulher com quem Lúcia, na infância, aprendera a costurar panos e palavras.

quarta-feira, 4 de março de 2020

CANTIGAS DE AMIGOS

( Poema do livro "um clitóris encostado na eternidade", de Matheus Arcaro)

A penumbra realçava

a rouquidão das retinas.
A voz envelhecida
revelava teu verso:
embaraço de traços,
traças num abraço suado.
Nos gestos encharcados,
vi o velório do sentimento
que um dia
tomou de sequestro nossos sentidos.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

CANTIGAS DE AMIGOS

Três curtos poemas do livro  "um clitóris encostado na eternidade", de Matheus Arcaro


Assim que o vento
varreu as virtudes do mundo
o presente
invadiu os corpos
e os levou
dançando
à vulva da vida

-----

A distância,
a andar de andor
por dentro dele,
fincou-se feito dardo
na carne.

Saudade exposta,
posta em edema.

E deus algum
pôde dissipar
aquela doença,
aquele sismo,
aquela dor
desembainhada.

-----

A penumbra realçava
a rouquidão das retinas.
A voz envelhecida
revelava teu verso:
embaraço de traços,
traças num abraço suado.
Nos gestos encharcados,
vi o velório do sentimento
que um dia
tomou de sequestro nossos sentidos.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

CANTIGAS DE AMIGOS

PROCURA-SE*

(Matheus Arcaro)

Em que parte do corpo
se encontra a clemência?
Consultemos, para o resgate,
os manuais da criação humana!
Estaria camuflada sob a língua
dos verbos imperativos,
o verbo que se fez carne
onde estão os nervos de deus?
Estaria presa
nas cavas do peito podre
que prefere morte em vez de perdão?
Estaria desmaiada
no sótão da memória,
que acredita em tempos áureos
de quepes, coturnos e castração?
Estaria no caminho de volta ao cérebro,
desejo de um estado pré-fetal,
ao descobrir que se tornara obsoleta?
A clemência está desaparecida.
Mas pouco adianta pregar
placas pelos órgãos oferecendo recompensa.
A clemência não aparecerá
enquanto os homens
continuarem com chorume nas veias,
enquanto os homens
não virarem do avesso
o que chamam de vida.

*Poema do livro “Um clitóris encostado na eternidade”, com publicação prevista para o
segundo semestre de 2019 pela editora Patuá.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

CONTOS CORRENTES

Palavras mudas

(Matheus Arcaro)

Em matéria de amor,
o silêncio vale mais do que a fala.
(Blaise Pascal)

Há quatro anos, toda semana, eles se viam. Não falhou uma quinta-feira. Apenas duas vezes, no primeiro e no terceiro ano, ela se atrasou. O motel era num beco penumbroso, colado ao bar onde se conheceram. Quarto sem muitos requintes: box com chuveiro, cama e espelho no teto. Ela gostava de olhar para a própria bunda enquanto ele a penetrava de quatro. Era como se possuísse duas almas.

Saíam do motel cada um no seu carro. Alternavam quem ia embora primeiro:uma semana ele, uma ela quem pagava. Ele levava para casa o sabonete, rabiscava no verso a data do encontro. Em seu closet, duas caixas de papelão: 208 embalagens, contou. Ela levava a satisfação nos seios e nádegas doloridos.

Nunca trocaram uma palavra. No primeiro encontro, ele dançava no canto da pista, arrastando os olhos pelo piso pegajoso. Restavam poucas pessoas no bar quando ela chegou. Pediu uma caipirinha e sentou-se no balcão. Assim que ele ergueu a cabeça, os quatro olhos se misturaram. Ela se levantou, caminhou – o coração dele a gritar –, prendeu-o pelo pescoço e o beijou. Um beijo que ele não sabia

quinta-feira, 11 de abril de 2019

ORELHA

E
Esta coluna reúne textos de Menalton Braff sobre livros de outros autores. O que postamos hoje foi pulicado como orelha da coletânea de contos "Amortalha", de Matheus Arcaro.

Chegou para ficar    


Matheus Arcaro deixou de ser um ensaio, uma preparação para o grande salto. Ele já comprovou que chegou para ficar e que seu modus vivendi é o salto. Depois do Violeta velha e outras flores, com que se inaugurou na arte de narrar, deu à luz o romance O lado imóvel do tempo, comprovando que não tem fôlego somente para as narrativas curtas. Amortalha é seu terceiro livro, com que confirma sua competência nos manejos da língua.

O que melhor caracteriza os vinte e um contos de Amortalha são as figuras de retórica, fartas e quase sempre inusitadas. “Bete arrasta as sandálias como se precisasse desgrudar uma verdade da calçada.” Eis o período inicial do conto A salvação de Bernardo, em que a ideia contida na expressão “arrasta as sandálias” é potencializada com a comparação “como se precisasse desgrudar uma verdade da calçada”. E casos como esse não são raros, de forma alguma. Eles a todo momento vão surpreender o
leitor, sobretudo o leitor que sente prazer com a leitura de uma linguagem desautomatizada.

Em alguns dos contos, como Alemão, Metade de mim e A graça de Benedito, o autor se aproxima de uma autoficcionalização ao usar como a matéria de seus textos elementos do entorno, materiais que lhe são familiares pela proximidade.

Outra recorrência de seus contos é o emprego de nomes da filosofia e alguns de seus conceitos, área em que pisa com conhecimento da matéria uma vez que aí reside sua formação acadêmica.

Além de ter nascido adulto, como ficou dito no Violeta velha, Matheus Arcaro veio para ficar.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

MENALTON 80 ANOS - por Matheus Arcaro

Ao homenageá-lo, os amigos lembram que nesses 80 anos
Menalton proporcionou aprendizados

Matheus Arcaro:


Já afirmei inúmeras vezes que Menalton é meu "pai literário". As duas oficinas que fiz com ele em 2010 e 2011 foram fundamentais para a minha inserção na literatura. Depois, criamos um vínculo de amizade que dura até hoje. Antes disso, porém, já conhecia Menalton por algumas de suas obras, sobretudo À sombra do cipreste. Com este livro aprendi que prosa e poesia podem coexistir, aprendi sobre ritmo, sobre figuras de linguagem sofisticadas, sobre como a literatura pode tocar nas profundezas da condição humana. Menalton tece beleza e densidade com as palavras e, por isso, sem demagogia, considero que ele está entre os gigantes da literatura nacional.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

CANTIGAS DE AMIGOS

(Poema de Matheus Arcaro)

Um animal peçonhento
fez um ninho
no meu peito.

Nasceu de uma mulher
e se alimenta
dos farelos da minha esperança.

O bicho mastiga minha alma
e cada mordida é como se
um punho se abrisse
dentro da garganta,
unhas compridas.

O animal inquilino
está dormindo agora.
De barriga cheia
ele me deixa escrever.

sexta-feira, 23 de março de 2018

CONTOS CORRENTES

Má educação
(Matheus Arcaro)

Ensinar é aprender duas vezes.
(Joseph Joubert)

As faixas confeccionadas no sindicato, menos de um quilômetro da sede do governo estadual. Apitos, bandeiras, megafone. O discurso não precisava de ensaio, vinha cravado na pele do peito: anos sem reajustes dignos, aumento da carga horária, fechamento de escolas. E esta história de censura em sala de aula? Professor não pode doutrinar, vejam só! Estes burocratas que nunca pegaram num giz, que vão pra casa do caralho, disse Osvaldo aos que o ajudavam a escrever o cartaz. Antes de saírem, Sérgio, líder do movimento, alertou, somos a parte da corda que sempre arrebenta. Basta um pretexto pra eles virem pra cima da gente. Mantenham-se unidos, sem violência. Mas sem covardia.

Soldados enfileirados feito alunos obedientes escudam o Palácio dos Bandeirantes. O sol dá sinais de cansaço quando a marcha de professores se aproxima. Vandalismo é fechar escolas, Sou responsável pelo futuro do Brasil, Greve geral, frases que tremem nos cartazes. A indignação vazando pelas vozes, todas em sincronia.  Dirão os dados da PM, escarrados elegantemente nos telejornais, que havia três mil manifestantes. Protestos marcam o dia dos professores em São Paulo, discurso semelhante ao do estudante que se vangloria da nota 10 que conseguiu devido à cola. A multidão a poucos metros do cordão de isolamento. Sérgio se aproxima, aponta para a bandeira bordada na farda, acima do peito: ordem e progresso. Estamos no mesmo barco, parceiro. Não quero saber de barco nem de porra nenhuma, só quero ordem! Pra que

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

CONTOS CORRENTES

Pra onde a gente vai?*
(Metheus Arcaro)

A gente não morre. Fica encantado.
(Guimarães Rosa)

Tarsila entra às pressas. Sequer limpa os pezinhos no capacho como sempre fazia a pedido da mãe. Mamãe, corre aqui! Tô escrevendo, filha. O que foi? A menina incha os pulmões, o segundo grito sai mais encorpado, percorre os cômodos da casa e traz Laura à sala. Óculos na testa, caneta na boca, o rosto a transpirar maternidade. As pegadas de barro no piso de madeira não são notadas pela mulher como habitualmente seriam. Tarsila abre as mãos como se desvendasse as entranhas do mundo. O pássaro consegue ser menor que os dedos dela que crescem há apenas seis anos. Oh, deve ter caído do ninho, filha!

Para o bem-te- vi, naquele instante, respirar é uma tarefa difícil, talvez a mais difícil que a biologia já lhe impusera. Temos que levar ele ao médico de bichinhos, mamãe! Hoje é domingo, meu amor. Eles

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

CONTOS CORRENTES

Majô      
(Matheus Arcaro)                                                          

Tomás espiou de esgueio, reespiou, o que será isso?, limpou a terra do objeto na calça grossa e meteu-o no bolso como se, com mais alguns segundos de observação, aquela coisa verde e cilíndrica fosse capaz de sugar seu espírito. Deus me livreguarde! Ele não permitiu que Deus o livrasse. Antes, guardou o objeto como se a mão esquerda fosse autônoma; escondeu-o, talvez, porque não quisesse que os companheiros compartilhassem sua descoberta. Mas disso o jovem não desconfiava; se semelhante sentimento existia, estava no útero da mente. Recolocou as luvas, os óculos de acrílico, ajeitou o capacete e voltou a cavar aquele solo que não era dado a gracejos.
O sol parecia realçar, nos ombros dos operários, os gritos do mestre de obras. Até o final da semana as estruturas têm que estar aterradas, ouviram bem? Tomás não ouviu, Tomás não sentiu o sol. Tomás, com a britadeira a pular entre as mãos, lia as ordens nos lábios do chefe. Ouvir, ouvia apenas as moedas que caíam em seu cofre a cada metro que fazia ceder a terra. 
Apontando na prancheta, o engenheiro explicava sobre as futuras torres, prédios comerciais. O mestre de obras escutava, não com mais atenção que Tomás, apesar dos metros que o separavam da

quarta-feira, 5 de julho de 2017

CANTIGAS DE AMIGOS

TEMPORAIS
(Matheus Arcaro)

Há os que estão sentados na esperança,                           

aguardando o fim de semana,
o mês seguinte,
o ano em que os astros se alinharão.
O alívio dos dias úteis.

Na casa das máquinas ao lado,
há os acorrentados.
Mastigando as migalhas
endurecidas de Cronos.
Suspirando pela ferrugem dos ponteiros.

Há, por fim,
os que intuem o instante.
Os que dançam
sobre a mortalha da eternidade.
Há os que vivem.





sexta-feira, 16 de junho de 2017

CONTOS CORRENTES


Dois homens mortais*
(Matheus Arcaro)                                                     

O corpo de Saulo Dantas acaba de ser sepultado, às 17 horas do dia 09 de dezembro de 2012. Celebração singela e poucas homenagens sob um discurso lívido. Se ele não tivesse se desfeito das evidências que descobrira em 1999, talvez alguém recuperasse sua pesquisa, e hoje seu nome poderia ser cravado numa das cobiçadas linhas do livro da História Universal. Mas ele preferiu entregar sua memória às presas do tempo. Não, “preferir” não é o verbo adequado. Na verdade, Saulo se viu sem escolha diante daquelas amostras e, por um sentimento de pertencimento à espécie, desfez-se dos resultados.
Seu ato nada teve a ver com ostentação da própria imagem: a foto de Saulo não sairia na capa de uma revista semanal com o título “O benfeitor do ano”. Tampouco teve relação com misticismo ou religião. Ao contrário, Saulo professava seu ateísmo desde criança: um dia, na altivez dos seus oito anos, não suportou mais a ideia de ter alguém vigiando seus passos e resolveu desinventar Deus. Também não fazia sentido para o menino a passagem do barro à vida. Se Adão fora esculpido com

sexta-feira, 24 de março de 2017

CONTOS CORRENTES

Foucault ficcionista
(Matheus Arcaro)                                                         
Diz-se, nas esquinas da filosofia, que uma das frustrações de Michel Foucault é não ter escrito um livro de ficção. No dia de sua morte, porém, foi encontrado – entre os manuscritos de “Vigiar e punir” – um conto datilografado, sem título. Agora, pela primeira vez, as três páginas da história criada por Foucault são trazidas a público.
                                          *
Entra como se o consultório fosse uma praça e esperasse por ele um grande público.
– Por que tanta agitação, homem?

– Chegou o dia!
– Dia do quê? Martha, por favor, busque um copo d’água pro senhor Sócrates.
– Hoje vou falar tudo, Sigmund.
– Meu trabalho é ouvi-lo.
– Lembra que me disse na última sessão “Esta história de você acreditar que é uma espécie de

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

CONTOS CORRENTES

Conto não escrito
(Matheus Arcaro)

– E se for um do tipo psicológico? Duas ou três personagens, uma morte e o assassino debatendo consigo os motivos que o levaram ao crime.
– Trivial, muito trivial, folha. Você já deve ter recebido inúmeras histórias desse gênero. Digo.... Você, literalmente, não, porque se assim fosse, não seria mais papel em branco. Mas como representante da espécie...
– Quando você se presta a explicar algo, parece o planeta Terra: fica girando, girando, sem sair do lugar. Seja mais objetivo, velho. Mais sucinto. Faça jus a essas barbas grisalhas
– Sim, claro! Meu bom senso grita pra que eu leve em consideração os conselhos de uma ex-árvore.
– O que você deve levar em consideração, nobre escritor, é uma equação muito simples: história que muita gente quer ler, sinônimo de visibilidade e fama. Pra que muita gente leia, você não pode mergulhar em assuntos complexos. Navegue à superfície, vai aonde o vento te levar.
– Obscenidade! Não há outra palavra que defina um autor que subestime a inteligência do leitor

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

CONTOS CORRENTES


Condenado à liberdade
(Matheu Arcaro*)

“Terei que correr o sagrado risco do acaso.
E substituirei o destino pela probabilidade.”
(Clarice Lispector, A paixão segundo GH)

Estou aqui há oito dias e alguns meses. Quantos meses? Não sei ao certo. Até a semana passada o calendário não passava de mais uma invenção vencida. O que sei é que estou nesta cela há tempo insuficiente. Está me ouvindo, Pagu? Parece mais peluda hoje, as patas maiores. Patas peludas e firmes, feitas para caminhar pelo teto, de onde você me vê como sou e não como parecia ser. Antes de me atirarem neste cubículo eu estava pronto, homem modelar. Sabia o que tinha que fazer. E fazia. E refazia. Usava o livre-arbítrio para alcançar a verdade que esperavam de um homem alto, 38 anos, cabelos grisalhos, chefe de família, empresário. Eu era. Até me enfiarem aqui. Só que eles se enganaram, Pagu. Todos eles. Ao me isolarem na solitária, não me privaram da liberdade. Privaram-me do que acreditam ser a liberdade, no que igualmente eu acreditava. Mas foi só aqui que conheci a verdadeira face da liberdade meses atrás: a chuva lavava os telhados; embora a cela estivesse tomada pelo hálito da penumbra, da minha cama vi a gota reluzindo no teto: as lágrimas começaram a desabrochar da alta fenda e despedaçarem-se no chão. Comecei

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

CANTIGAS DE AMIGOS


Amor amargo                                    
(Matheus Arcaro*)

A distância, 
a andar de andor
por dentro dele,
bateu feito dardo
na carne.

E deus algum
pôde dissipar
aquela doença,
aquele sismo,
aquela dor
desembainhada.
           


*"Devo agora falar de mim. Isso seria um passo em direção ao silêncio."
Samuel Beckett sintetizou magistralmente a impossibilidade de se definir.
Quem sou eu? Eu não sou; eu estou. Ou talvez eu seja; mas não mais do que possibilidades. Uma personagem no expediente comercial (o Publicitário); outra à noite (o Professor de Filosofia e Sociologia) e outras duas aos finais de semana (o Escritor e o Artista plástico). Se necessário for colar em mim um rótulo, que seja o de Tapador de Buracos. Afinal, a Arte é uma necessidade de preencher espaços vazios. E estes, para a minha fortuna, nunca cessarão de existir.                                                              

quarta-feira, 15 de junho de 2016

CANTIGAS DE AMIGOS

ANÁLISE POÉTICA
                                   Matheus Arcaro
Na visita ao analista,
a poesia reclamou dos amantes,                                
do arco-íris,
das íris coloridas,
dos céus estrelados,
dos lados luminosos,
dos postais, pontes e poentes.
À mostra com os dentes,
estava decidida a lançar um olhar
alijado de pedestais, flores e frases feitas.
Agora, quer rastejar pela lama,
trocar a dama pela puta. O amor pela secreção.
– Mais genitália e menos coração, senhores!
Pretende enfiar o sol no bueiro,
arrancar os testículos do absoluto
e esfregar o cu na cara do sossego.
Sim, ela precisa espedaçar a esperança.
E na dança, descalça, rodar pela praça
sem seguir receitas ou procurar clemências.
Vai, então, poesia!
Crava a língua na carne crua do presente.
Sobe a saia, goza com o sublime
e arremessa a eternidade suja na sarjeta.


quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

CANTIGAS DE AMIGOS

ANÁLISE POÉTICA
                                   Matheus Arcaro                    
                      
Na visita ao analista,
a poesia reclamou dos amantes,
do arco-íris,
das íris coloridas,
dos céus estrelados,
dos lados luminosos,
dos postais, pontes e poentes.
À mostra com os dentes,
estava decidida a lançar um olhar
alijado de pedestais, flores e frases feitas.
Agora, quer rastejar pela lama,

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

CONTOS CORRENTES

MATHEUS ARCARO

Autor do livro de contos Violeta velha e outras flores, Matheus Arcaro nasceu em 1984 em Ribeirão Preto, onde vive atualmente. Graduado em Comunicação Social e também em Filosofia. Pós-graduado em História da Arte. Atua como diretor de criação publicitária e como professor de Filosofia e Sociologia. Desde 2006 tem artigos, crônicas, contos e poemas publicados em veículos regionais e nacionais. Nas poucas horas vagas, atua ainda como artista plástico.

É dele o conto abaixo:
Teclado

Depois de alguns segundos em frente à porta da qual acabaram de sair, Joana ligou para o marido.
– Nada nos exames. Disse apenas para continuarmos observando.
Perdeu as contas. A quantos especialistas tinha depositado suas esperanças nos últimos meses? Pediatra, fonoaudiólogo, psicólogo, psiquiatra, acupunturista, tarólogo... Nada de resultados, apenas palpites travestidos de diagnóstico. Nenhuma pista do que poderia estar acontecendo com seu filho.