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sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

CONTOS CORRENTES

MENTA
(Regina Baptista*)

            Era verão, embora a tarde não estivesse tão quente que não se pudesse suportar uma exposição de dez minutos ao sol. Mas enfim, estávamos há quase meia hora sob aquele sol brilhante, o que já começava a mudar nosso ânimo. A espera pela abertura dos portões imensos e cinzas do estádio, onde aconteceria o show, era quase um suplício... Ou, ao contrário, uma doce espera! Porque sabíamos que assim que aqueles monumentais portões se abrissem todos nós ganharíamos o campo e estaríamos prontos para um grande espetáculo. 

            Eu estava ali sendo espremido, tocando e sendo tocado sem ter como evitar. Os meus pés procuravam dividir o espaço com tantos outros pés; às vezes eles perdiam o chão e depois de alguns segundos o reencontravam. Tentavam se firmar mas um leve movimento da massa os fazia perder o chão de novo. Um movimento mais brusco de algumas pessoas causava uma espécie de onda que nos embalava a todos; a todo instante balançávamos como se estivéssemos juntos numa embarcação. Éramos tão unidos que o sol parecia querer nos derreter para formar de nós uma massa compacta e depois moldar essa massa até dar a ela uma forma qualquer, porém uma única forma. Às vezes eu até me preparava para começar a fundir meu corpo aos dos outros. Só acordava do delírio quando alguém gritava “vai abrir” e todos gritavam qualquer coisa em seguida como uma forma de tomar impulso para a correria que viria a seguir. Mas os portões impiedosos resistiam à nossa pressão ou se mantinham imóveis só para nos torturar. O problema é que, com a demora, o sol e a ansiedade,