Wladyr Nader,
romancista e jornalista, publica semanalmente textos em sua
escritablog.blogspot.com. É professor de jornalismo na PUC-SP.
Meia-volta,
volta e meia
Wladyr Nader
— Eu sempre fui
um puta cara de esquerda, está bem?
— Por que você
diz isso?
— Por sempre enxergar longe e agir de
acordo. Previam encrenca, me convocavam. Sempre previam encrenca, mesmo quando
não previam, se é que me entende.
— Que mais?
— Reapareceram
outro dia, entendeu, disfarçando as barriguinhas com as camisas pra fora das
calças, em tese pra não dar na vista. Já, quanto aos cabelões e cavanhaques,
retórica pura ligada aos bons tempos que hão de arrastar para o fundo da terra
desta para a melhor.
— Até pela idade,
hipoteticamente não conheço nenhum deles.
— Com certeza, são
caras bastante antigos. Pegaram e
falaram curto e grosso que não admitiam recusa, que recusar significava trair.
Repetiram diversas vezes que se tratava de ideais da juventude, que precisavam
reengrenar, aprontar alguma. O diabo é que isso acontece trinta e tantos anos
decorridos, quando o mundo anda mais aos trancos e barrancos do que nunca.
