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sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

CONTOS CORRENTES

O ELEFANTE                                                             
(cecília figueiredo)

Escutamos um estrondo de pedra vindo ao chão. Todos olhamos à nossa volta, Era como se estivéssemos mergulhados em um aquário fresco e agora aquele baque seco emergira-nos para a terra viva. Segundos depois, os gritos. Como se não pensássemos, viemos correndo para a direção de onde algumas pessoas já colocavam as mãos às cabeças, algumas voltando o rosto em claro sinal de horror. Em alguns poucos segundos já avistávamos o pequeno ajuntamento de gente e por trás dessa colina de braços, casacos e pés vimos finalmente uma montanha cinzenta e arredondada lançada ao chão. O que vimos, em aflição, arfava; era uma massa de couro amassado que caíra sobre o chão poeirento da rua e que desse monturo escorria um riachinho de sangue vermelhíssimo de bela viscosidade, vivo, numa variedade de cores primárias abaixo da sua única cor de cinza, mas que permanecia arfante. Pura dor. Era um elefante de toneladas máximas. Ninguém saberia calcular se perguntado qual seria o seu peso bruto rachado e quantos litros de sangue esvaíam-se de sua estrutura agigantada pateticamente estirado, prostrado por sobre um chão de muitos paralelepípedos irregulares e que notamos bem, estavam soltos. Talvez tivesse isso o que tivesse lhe cortado o couro mais a fundo como um gume onde a faca é a pedra mal cortada que tropeça a sandália, que rala o dedo, sempre julgamos assim? O que machuca mas não mata.

Em poucos segundos saberíamos consternados que o elefante caíra de um caminhão de circo à hora de virar a esquina apertada por muitos carros estacionados. Não haveria explicação mais contundente: o caminhão também jazia tombado mecanicamente inerte em sua carroceria de pantomima rasgada em duas partes. Havia também um motorista ao lado que em desespero, por detrás da sua barbicha rala falava consigo mesmo em explicações várias. Conforme a rua enchia-se de gente os gritos foram

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

CONTOS CORRENTES

O VESTIDO DE NOIVA
(Cecília Figueiredo*)

A loja ainda não estava cheia quando a mulher entrou. Seriam 9 horas? A parte dos fundos onde as prateleiras eram mais vazias estava às escuras. Acenderiam ainda a parte menos nobre quando fosse dia alto? O sol batia na entrada, cálido e bom, mas alcançava apenas a primeira vitrine, estocada para frente; no restante, apenas uma luz desfalecida iluminava o balcão. A mulher entrou com lentidão de passos, colocou a sacola gorda por sobre o primeiro aparador. Um suspiro aquele aizinho baixo? As moças conversavam lá no fundo, tão sonoras! A mulher teve tempo de olhar à volta, conferir os broches de pedra inferior, todos dispostos por tamanho abaixo do aparador e protegidos por vidro sem cintilação. O mais bonito era a forma de uma borboleta gigante, as asas pesadas de tanto vidrilho, impossível voar assim! Riu-se para dentro. Como se pode levantar voo com o peso de tanto enfeite? Lembrou-se da revoada dos pardais às seis da tarde, todos voltando para os galhos cheios, a alegria da barulhada, a timidez das asas, tão pequenas e no entanto, tão úteis! O corpinho do pardal alongando-se nas asas, podia-se dizer que a estrutura toda era todo o voo livre, planando e parando, parando e planando. Com as borboletas, seria diferente?

- Pois não. Era a moça do fundo que viera, atenciosa.

- Bom dia. A voz saiu no susto, as borboletas e pardais ainda revoavam no espaço da mente.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

CANTIGAS DE AMIGOS

A PALAVRA NOVA  

(cecília figueiredo*)                                                                                                                

As quadrinhas das palavras graves no meu pequeno dicionário
dão me conta tardiamente de que iluminada não sou,
tampouco sã. Dão-me temor em tudo –
horripilam-me as filigranas frágeis da representação da fonética nas
expressões ferinas de um português tísico
de pernas finas e olhos de abutre cerrados por paus,
e essa altivez de acinte das classificações etéreas por gênero tais
que minam-me a mente na confusão malévola das variáveis entradas,
que a tudo, respeito,
dentro do meu temor.

Nada temeria se meu dicionário
pudesse me trazer uma palavra obsoleta e vaga,
e que viesse graciosa até mim como um borrifar cheiroso finíssimo de flor
– uma rosa da pérsia, aberta e rubra, antiga como
todos os sais do mundo, do cheiro do almíscar açucarado morno
e que eu pudesse sonhar com essa palavra desusada
e no entanto ainda nova,
nessas tardes de desesperança,

longuíssimas e sem quintais.

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*Cecília Figueiredo é professora de inglês, escritora e membro da Academia Ribeirão-pretana de Letras.


Tem dois livros publicados: "Paixão vírgula paixão" e "A casa da instabilidade".

sexta-feira, 6 de março de 2015

CONTOS CORRENTES



Cecília Figueiredo nasceu em Franca e é membro da Academia Ribeirão-pretana de Letras É professora de inglês, com atendimento preferencial para executivos, pois foi tradutora bilíngue de dois bancos estrangeiros, onde desenvolveu essa competência.

Sua família, de Areias, sempre esteve muito próxima da literatura. Sua avó conheceu Monteiro Lobato, transferido para Areias como promotor. Na infância, Cecília leu toda a obra de Monteiro Lobato, tendo começado a escrever ainda menina.

Tem dois livros publicados: Paixão vírgula paixão e A casa da instabilidade, ambos de poemas. Atualmente prepara um livro de contos.

A autora considera a poesia como uma entidade, uma parceira. Diante de alguma aridez, diz a autora, procura ler algum poema de quem admira e uma palavra ou verso desencadeia um novo poema.  
Fonte: Blog do Selmo Vasconcellos



NA BRANCURA DE MARINALVA

Depois que cheguei em casa, na hora da janta, Marinalva resolveu abrir o berreiro. Falou que não tinha isso, não tinha aquilo, eu só fiquei na espera da parada dela para eu resmungar. Depois de boa meia hora, a Lurdes já tinha até trazido o café, ela parou.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

CANTIGAS DE AMIGOS

O MENOR POEMA DO MUNDO
(cecília figueiredo)

por entender que as minhas considerações são poucas
venho escrever o menor poema do mundo
o menor poema do mundo
não será aquele que contenha apenas uma sílaba
como "vá"
- som diminuto, mas que resume tudo
feito um vaso oval, as flores
a água ovalada no cristal

quinta-feira, 7 de março de 2013

TEXTOS DE AMIGOS

O poema que segue é de minha querida amiga Cecília Figueiredo, de Ribeirão Preto.


TODOS OS AMORES CONFESSÁVEIS OU NÃO
Cecília Figueiredo

Todos os amores confessáveis são sãos,
libertos dos grilhões,
são da libélula, a liberdade da asa,
do leite, a lícita vontade,
os possuidores de qualquer razão,
houvesse ou não razão,
mas não querem a razão,
querem a vida...